Para RDD, sim, é verdade: o baiano tem o molho mesmo. Não à toa, o nome escolhido para o álbum de estreia de sua carreira solo é “Hot Sauce” — “molho picante”, em português claro e direto.
No disco inédito, lançado na semana passada, o integrante da banda ÀTTØØXXÁ trabalha essa ideia a partir do caldeirão de ritmos da Bahia e com o intuito de conectá-lo com a cena pop global.
“Com esse disco, eu tenho um grande grito sobre como a Bahia se entrelaça com o pop do Brasil e do mundo. Sempre quis fazer essa interseção”
Ao longo de 13 faixas, passeia por gêneros musicais como pagodão baiano, funk, arrocha e dancehall. Traz parcerias nacionais e internacionais, indo de Karol Conká e Rincon Sapiência até Afro B e Anik Khan.
Em entrevista ao Papelpop, o cantor relembra trajetória artística e revela as expectativas de sua fase solo ao falar sobre o novo álbum e o “molho” intrínseco ao baiano.
Papelpop – Fala um pouco sobre a escolha do título do álbum, “Hot Sauce”. O baiano tem mesmo o molho?
RDD – Acho que o molho vem de berço porque a gente nasce e é rodeado de ritmo. Aqui na Bahia, se você vai ao Pelourinho, por exemplo, escuta o samba reggae. Se você vai em qualquer boteco, vive o arrocha. Se você vai para night, festa, paredão daqui, ouve o pagodão. O molho está no nosso DNA. Fato!
PP – A Bahia está muito presente no disco – desde os ritmos, que são variados, até os visualizers, que mostram Salvador. Para a construção desse projeto, o quão importante foi e é o lugar de onde você veio?
R- É muito importante. Eu tenho como padrinho Carlinhos Brown, um cara que já fazia música pop baiana nos anos 90. Então, tento estender esse legado dele e trazer novas formas de se fazer pop no Brasil a partir da Bahia. Acho que, com esse disco, eu tenho um um grande grito sobre como o estado se entrelaça com esse pop.
PP – Você traz Karol Conká, Rincon Sapiência, Rachel Reis e muitos outros parceiros nas faixas, incluindo artistas estrangeiros. Há um desejo de expandir seu trabalho a nível não só nacional, mas também internacional?
R – Os feats surgiram de forma muito natural. Karol, Rincon e Rachel são meus amigos. Afro B e Anik Khan são pessoas que se tornaram meus amigos por um acaso da vida, de um estúdio, gerando não só esse fruto da música, mas uma troca de ideia real. A gente pode falar sobre nossas vidas, se conectar e tudo mais.
Acho que o grande objetivo desse álbum é mostrar como a Bahia consegue fazer um pop diferente, mas se aproximando do pop nacional e, também, do mundo. Sempre quis fazer essa interseção porque acho que, de uma certa forma, a gente foi se afastando do pop, né?
Nos anos 2010, por exemplo, acho que tem o último grande vício do axé. Desde então, a Bahia vem sendo colocada em um lugar de regionalismo, de especificidade. Acho que isso nunca foi a Bahia; a Bahia sempre foi o mundo.
PP – Apesar de “Hot Sauce” ser o seu primeiro álbum solo, você já tem uma trajetória sólida como produtor e com o grupo ÀTTØØXXÁ. Como as suas experiências anteriores influenciaram ou dialogam com o novo projeto?
R – O ÀTTØØXXÁ me levou a uma projeção nacional e internacional. Pude produzir músicas como “Vai Embora”, de Pabllo Vittar com Ludmilla; “Me Gusta”, de Anitta com Cardi B; “Pra Te Machucar”, de Major Lazer e Ludmilla feat ÀTTØØXXÁ; enfim… fui projetado como produtor.
O ÀTTØØXXÁ sempre tem um aspecto grandioso de muita percussão, de muita informação, de uma pesquisa muito profunda. Tem sempre três pessoas, é sempre uma banda. Já RDD se apresenta um pouco mais minimal, por assim dizer, por ter um desejo de também soar como pista. Então, o pagodão que faço não necessariamente tem percussão, por exemplo.
Acho que é inerente eu tocar em qualquer lugar e as pessoas me associarem ao ÀTTØØXXÁ. Acho que parte delas também espera que eu faça esse tipo de pagodão, mas, neste momento, tanto o ÀTTØØXXÁ quanto RDD estão além do ÀTTØØXXÁ. A gente está pensando muito em como fazer uma música brasileira, baiana e do mundo, sabe? E cada um com suas especificidades!
PP – O que este momento, com a chegada do disco de estreia, representa para sua carreira?
R – É um grande marco na minha carreira e na minha vida pessoal. Eu sempre quis fazer esse blend de música baiana, brasileira e do mundo. Aproveitei todos esses anos, esses momentos que tive em estúdio com artistas gringos e brasileiros, para dar essa cara. Quero mostrar todos os passos que dei na minha carreira, então tem coisas que remetem ao início, como a faixa principal, “AYAYA”, com Karol Conká, Rincon Sapiência e Afro B. Essa é uma música que reflete um momento em que a música pop era feita de outra forma – e fiz questão de deixá-la desse jeito. O resto do disco como um todo conta essa minha trajetória de RDD, o Rafael Dias lá de 2008, quando começou, até o Rafael Dias de hoje. Então, é um momento muito especial para mim! Estou muito feliz em compartilhar minha arte e meu desejo de, como falei, unir o mundo com a Bahia, condensando isso em uma música pop com meu DNA.
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