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Foto: Caio Lírio

Entrevista: Larissa Luz subverte conceitos e cria trilhas de afeto no vibrante EP “Deusa Dulov Vol. 1”

Em 25 de novembro do ano passado, Larissa Luz apresentou muito do conceito que trabalharia em seu novo trabalho. Na data em questão, compartilhou o single “Afrodate (Dreadlov)“, que pincela versos sobre o afeto afrocentrado. Estendendo essa narrativa, com humor, irreverência e um belo deboche, a artista lançou nesta sexta-feira (28) o EP “Deusa Dulov Vol. 1“, projeto que desconstrói e reconstrói a imagem de Afrodite sob o olhar da artista, uma mulher preta.

Em entrevista ao Papelpop, a cantora detalhou a criação destas cinco faixas. “Quando eu comecei a pensar um pouco mais profundamente sobre esse tema, fui me deparando com esse fato: a gente vive padrões, formatos, estereótipos e tudo mais, que não condizem com a nossa história, com a nossa realidade. De uma certa forma, achei que fosse um caminho provocativo propor desconstrução de símbolos que estão entranhados no nosso imaginário como os ideais de beleza, de amor, de formas de se relacionar”, relata a artista.

Larissa começou a se aprofundar neste universo, sem deixar de lado sua própria vivência, pois relembra que sempre exaltou as “deusas que são referência da nossa história, da nossa ancestralidade”. Ela acrescenta: “Isso aí é o que eu já faço, inclusive”. No entanto, a proposta foi encontrar uma “forma crítica e debochada de desfazer esse pensamento” do ideal.

“É sobre apontar novos caminhos partindo de uma constatação de que a gente vive com padrões entranhados na nossa sociedade, na nossa mente. Padrões colonizadores que naturalmente foram se instaurando. É uma ação nesse movimento de reconstrução”, afirma.

Ainda sobre o conceito do EP, a cantora explica que essa releitura poética e estética “não exclui o fato de que temos a consciência da nossa história, nossos contos, nossos mitos, as nossas deusas e sabemos quem são elas”, ressalta. “Porém, grande parte da nossa sociedade acredita nesse ideal de beleza. E a gente quer dizer para as pessoas que além das nossas deusas, essa deusa que vocês acreditam que é o padrão de perfeição, ela pode ser diferente daquilo ali.”

Como pode ser visto em todo o material gráfico, a estética tem um papel fundamental nesta obra. Sobre esse aspecto, Larissa conta que há uma grande provocação em falar de afeto e relacionar todo o escopo da obra com a estética. “A revolução é estética, não tem como fugir disso”, pontua a cantora. “A gente tá falando de cor de pele, de traços, de cabelo, de fenótipos, então, não há como falar ‘Ah, vamos deixar para lá’. Isso existe e a gente só precisa achar um caminho para que isso funcione de uma forma boa pra gente. Pra tirar a gente desse lugar de agressão, que nos exclui do direito de estabelecer relações afetuosas, de ter relações de troca de carinho, de felicidade mesmo, de troca de amor. Fiquei pensando sobre todas as viagens para trazer de forma divertida esse lugar de acesso ao afeto partindo da minha visão.”

O amor é um dos grandes temas do projeto. Entre as várias direções em que o tema se desenrola, Larissa fala de autoamor de um jeito muito forte, mas também vulnerável, sem deixar o cuidado do afeto e a irreverência de lado. Esses pontos em sincronia formam um equilíbrio na narrativa. A cantora explica algumas nuances importantes sobre sua trajetória e o momento em que se encontra, algo que transborda sutilmente nas faixas. 

“Quando a gente para um pouco e tenta se ouvir com atenção, ouvir a intuição mesmo, acho que a gente consegue alcançar esse equilíbrio de uma maneira mais eficaz. Quando eu falo de autoamor, se permitir ser frágil, de entender o momento de ser frágil, no sentido de ‘Gente, hoje eu não quero lutar. Quero chorar, ficar tranquila, comendo, vendo filme e não estou a fim de lutar. Mas amanhã eu tô! Acordo e estou pronta e apta para voltar para o game!’. Estamos o tempo inteiro com essa negociação com a gente mesmo. Senão a gente não aguenta a pressão.”

O projeto conta com produção de Tropkillaz, canções feitas em parceria com Coruja BC1 e duas das faixas também foram compostas por Bruno Zambelli, multiartista que assina a direção visual do trabalho. Com essa equipe de peso, Larissa aglutina diferentes referências musicais cuja combinação valoriza o trabalho em grupo: “Gosto de trabalhar assim, como um time mesmo, que se envolve mais inteiramente na criação”, comenta a cantora.

O humor é outro aspecto que se destaca no EP. “Quem está mais próximo, me vê fazendo graça o tempo inteiro”, conta a artista. “Essa irreverência está na minha história há muito tempo. Minhas amigas sabem que eu sempre fui da galhofada, da gaiatice. E aí, eu pensei ‘Bom, acho que seria legal as pessoas conhecerem esse meu lado’.

“Acho que esse EP é um movimento nessa direção [da leveza]. Estou há um tempo com a espada fazendo a guerra acontecer, porque às vezes é isso mesmo, ir pro fronte, ir pra cima, porque o mundo é violento com a gente e temos que nos defender de maneira eficaz. Permaneci por muito tempo assim na minha arte, nos últimos discos, ‘Território Conquistado’ e ‘Trovão’”, explica Larissa. “Neste, eu já venho com uma outra vertente, tentando dar um pouco de leveza. Continuo trazendo questões, porém, de uma forma mais divertida pra gente poder também dar uma respirada. ‘Vamos dar uma respirada, uma dançada, mesmo com essa questão que é difícil de resolver’. Entender como é passar pela vida um pouco mais feliz. Estou tentando trazer esse outro lado. Iansã é búfalo e a borboleta. A búfalo todo mundo já conhece. Agora vou trazer a borboleta, que ri das questões e que vai, levanta e resolve, achando tudo passível de ser resolvido. ‘Vamos lá! Isso é a vida!’.

Ela completa: “Ao mesmo tempo que escrevo uma poesia complexa falando de solidão e de como é difícil visitar essas questões relacionadas às problemáticas do afeto das mulheres pretas, eu quero encarar a vida com mais humor, com mais tranquilidade. Problema tem, mas acho que às vezes a gente precisa se divertir e levar numa boa. É bom experimentar ser feliz nesse plano.“

Em breve, a artista lançará o clipe de “Cupido Erê”, que será gravado em São Paulo com a mesma equipe de “Afrodate (Dreadlov)”. Ao Papelpop, ela deu alguns spoilers sobre o registro audiovisual. 

“A gente tá criando uma narrativa, uma história para esse cupido que tenta fazer as coisas certas, mas erra bastante”, revela. “É uma saga de muita gente, né? Não é fácil encontrar pessoas para trocar, para construir, as pessoas têm caminhos e propósitos diferentes. A gente tá sempre ali naquele movimento de cruzar caminhos que tenham a ver e essa imagem grega de ter alguém, o cupido, que vai lá e provoca… pô, se tem alguém que tá fazendo isso, bora sentar e conversar pra fazer isso direitinho [risos]. Trazendo uma estética que tenha a ver com o jazz swing, com essa coisa de baile, também trazendo esse movimento para esse mote de ressignificação, de apropriação de símbolos.”

Larissa ainda antecipou detalhes sobre o segundo volume de “Deusa Dulov”. Ela descreve o contraste entre esses dois EPs “como se fosse Salvador no auge do verão [o Vol. 1] e Salvador quando acaba o carnaval [o Vol. 2]”. “Esse primeiro bloco de músicas é mais vibrante, tem mais balanço, é mais eufórico. O segundo já vem um pouco mais tranquilo, um pouco mais romântico, até mais doce, com mais dengo talvez”, conta a artista.

Por fim, ela fala sobre o uso de ritmos como pagodão baiano, dancehall, dub, afrobeat e afropop no EP. “Esses ritmos estão nas minhas playlists todas. Escuto para fazer faxina, tomar um drink, ficar com meus amigos em casa, no carro. Eu curto esses ritmos para mexer com a pélvis, com o quadril, com o ventre e tudo isso. Tem a ver com o tesão – são os ritmos que vou usar para me arrumar para uma festa, me preparar para um show. Ritmos que uso para me aquecer para tudo o que tenha a ver com energia pulsante, movimento, sexo, suor, conexão.

Ela finaliza: “Tem tudo a ver com o que eu queria propor para as pessoas, que eu estivesse nesses momentos. Ser a companhia desses momentos. Quero estar com vocês nessas horas, que estão com fogo, querendo causar. Me chama que eu quero animar vocês a se sentirem motivados para viver essas emoções”. 

Na semana que vem, em 4 de fevereiro, serão disponibilizados visualizers exclusivos do projeto, no canal de YouTube da cantora. Enquanto isso, ouça “Deusa Dulov Vol. 1” nas plataformas digitais. 

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