música

Letrux, que lança disco inédito: “Sou tarada em letra. A palavra manda em mim, e eu obedeço”

Se “Letrux em Noite de Climão” (2017) foi sexy, “Letrux Aos Prantos” (2020) foi triste e “Letrux Como Mulher Girafa” (2023) foi bobo, “Sad Sexy Silly Songs” é tudo em todo o lugar ao mesmo tempo. Em outras palavras, é muito Letrux.

O quarto álbum da carreira solo de Letícia Novaes, lançado nesta sexta-feira (27), faz as três características coexistirem e traçarem um panorama de sua personalidade: alguém que se permite entregar à melancolia, mas sem frear o próprio desejo e riso, na vida e na música.

O projeto segue à risca a proposta implícita no título, resgatado dos rabiscos nas páginas de um caderno de 2023, e constrói esse retrato ao longo de 12 faixas inéditas. Nelas, a artista navega entre as atmosferas dentro de si com uma atenção redobrada ao som e, principalmente, às letras.

Diferentemente dos trabalhos anteriores e suas diversas camadas sonoras, a cantora prefere, agora, uma abordagem mais voz e violão.

“A palavra manda em mim, e eu obedeço. A palavra não queria ser inglês naquele momento, a palavra queria ser português, então ok, estou aqui, serva da palavra. Apenas obedeci e fui fluindo. Aí ficou um disco 50-50, meio a meio. […] Sou tarada em letra”

Com produção musical assinada por Thiago Rebello, consegue transitar da MPB ao pop e rock de uma forma minimalista e seca que é nova em sua carreira.

A artista abre espaço, com essa sonoridade, para suas composições, escritas em dois idiomas, serem protagonistas e mostrarem quem está no comando.

Em entrevista ao Papelpop, feita via Zoom há duas semanas, Letrux explica sua definição de “triste, sexy e boba” ao detalhar o processo criativo do disco inédito. Ela também comenta a importância da diversão e sua tara pelas palavras.

PP – “Sad Sexy Silly Songs” é mais que um título; é toda a atmosfera do álbum. Você parece realmente guiada por esse conceito: às vezes “triste”, às vezes “sexy”, às vezes “boba”, às vezes tudo ao mesmo tempo. É uma definição que você daria a si mesma?

L – Total! E, de alguma maneira, essas três categorias dizem muito sobre meus outros trabalhos: “Climão” foi “sexy”, “Aos Prantos” foi “triste” e “Mulher Girafa” foi “bobo”. Não são atmosferas novas para mim. São coisas que me interessam: o desejo, a melancolia e o riso. Esse título me pareceu um resumo humano da minha personalidade (risos) e, na verdade, veio primeiro. Uma hora, eu olhei para meus caderninhos, onde sempre escrevo, e lá estava: “Sad Sexy Silly Small Songs”. Me pareceu gostoso, sonoro – mas tirei o “small” porque era too much. Comecei a perceber quais eram as músicas bobas ou tristes que eu tinha, além de compor muitas outras. Eu mandava mensagem para Jadsa e Mahmundi, falando: “Vamos fazer uma música sexy”. Então esse tema me guiou. Foi tipo uma redação com tema na escola, sabe? Eu acho isso muito melhor do que tema livre. Tema livre eu acho uma chatice (risos). Me dá uma história, um propósito, um norte, que eu desenvolvo.

“Eu prezo muito pela diversão. Sou chata, neurótica também, mas tenho um lado divertido, então isso sai nas minhas composições… eu não me freio”

PP – E “boba”, aqui, é no melhor sentido, né? Você se permite ser mais despretensiosa, brincando com sons e composições. Se divertir também é uma parte crucial do processo criativo?

L – Sim, muito. A vida já é tão complicada, né? Tem uma frase de uma cantora de quem eu gosto muito, Michelle Gurevich, que fala: “Quanto mais a vida fica difícil, mais fácil fica subir no palco”. É muito isso. A bobagem e o humor vêm desse lugar. Se a gente parar para pensar – o que é um perigo! (risos) -, é guerra, é capitalismo, é horror, é aluguel. No fundo, acho que a gente tinha que se divertir o tempo inteiro, mas inventaram essas coisas e deixaram a diversão virar uma coisa menor – o que é uma pena. Eu prezo muito pela diversão. Sou chata, neurótica também, mas tenho um lado divertido, então isso sai nas minhas composições… eu não me freio. Em algum momento, já achei que tinha que ser mais séria, mas percebi que essa freada só me castrava e que as pessoas gostam de coisas “bobas” – mais coloquiais, informais, despretensiosas, espontâneas. É super importante a diversão em um processo de feitura, de gravação, de mix, de show. Eu sou palhaça, estudei palhaçaria, então o humor me salva. A alegria é uma coisa muito revolucionária nos tempos que correm. Com tanta tragédia e tristeza, me utilizo muito da alegria e da diversão.

(Foto: Bruna Latini/Divulgação)

PP – Falando em composições… em “Sad Sexy Silly”, você diz: “tô aqui pela letra”. Em “Caligrafia Tarada”, pede: “me escreve”. O quão importante é a palavra, na música ou na vida, para você?

L – É muito importante. Vou fazer uma camisa: “Eu ❤️ palavra” (risos). Eu sou filha de professora e sou uma pessoa que ama ler livros – bons livros, né? Não adianta falar isso porque tem livro ruim também. Ainda me interesso por bilhetes e caligrafia. Outro dia, alguém me falou: “Nossa, eu não sei mais como é a minha letra”. Eu fiquei chocada porque isso, para mim, é de outro mundo, mas parece que está super comum. Eu também sou muito do computador e da mensagem no celular, mas eu não me isolo só neles. Eu tenho o momento do papel e da caneta, onde acho que a palavra fica mais acesa. Não sei explicar. Parece que sua caligrafia com a palavra vira um ponto de luz. No computador ou no celular, é mais uma palavra entre tantas. Recomendo a todo mundo ter papel, caneta, lápis, e escrever.

PP – Você, como compositora e, também, escritora, diria que a letra é o grande motor do trabalho todo?

L – Eu queria dizer que fica tudo junto, mas vou estar mentindo. Sou uma pessoa que está mais pela letra. Sou muito preocupada com musicalidade e gosto de criar melodias, mas vou ser sincera e dizer que minha preocupação maior é com a letra. É por isso que eu me cerco de pessoas tão talentosas que se preocupam mais com a musicalidade, como [Thiago] Rebello, um musicista chique, rebuscado, incrível e maravilhoso. Me sinto segura porque ele está pela sonoridade enquanto estou com a letra. Eu sou tarada em letra mesmo.

PP – Nesse sentido, o idioma faz muita diferença para você? Pergunto porque, no álbum, você escreve e canta em português e em inglês.

L – Como eu já tinha esse título, me pareceu muito fácil ter músicas em inglês. E também acho fácil compor em inglês. Eu falo algumas línguas porque, como filha de professora de francês, sempre tive esse interesse fonético e linguístico. Acho curioso ir para outro país e aprender a, no mínimo, ser simpática. Odeio quando um gringo chega aqui no Rio e fala: “Thank you”. Eu penso: “P*rra, você aprende um ‘obrigado’ em menos de cinco minutos, entendeu, amado? Por favor, né!”. Eu tenho esse interesse. Adoro ler poesia em outras línguas, principalmente quando tem página em inglês ou em espanhol e outra em português. É um barato que tenho com língua. E acho que o inglês é fácil para compor – talvez porque a gente é bombardeado por séries, filmes e músicas em inglês.

Tem várias canções que saem em inglês e que se eu fosse cantar em português… meu Deus, fico com vergonha! O português é exigente, é mais rebuscado. Quando eu falo “se a gente parar de se falar, pelo menos me manda uma música”, não sei, parece não encaixar. Em inglês, “if we ever stop talking…”, parece encaixar. Depois, eu falo “guitarra maneira, baixo incrível” porque ficou feio “nice guitar…” (risos). É uma loucura, né? A palavra manda em mim, e eu obedeço. A palavra não queria ser inglês naquele momento, a palavra queria ser português, então ok, estou aqui, serva da palavra. Apenas obedeci e fui fluindo. Aí ficou um disco 50-50, meio a meio.

(Foto: Bruna Latini/Divulgação)

“Ouvi muito Laurie Anderson, J.J. Cale, muito Prince, muito Jadsa — ela é maravilhosa e genial. Também ouvi umas coisas sexy, soul music americana”

PP – O disco realmente tem uma produção mais crua e minimalista, mais voz e violão. O que te levou a essa sonoridade?

L – Acho que foi para mudar um pouco. Já tenho três discos como Letuce e mais três como Letrux. Todos são muito sonoros, têm muitas camadas e muitos movimentos. Amo e pretendo voltar a trabalhar com a banda toda, mas artista é f*da, né? (risos) Artista é inquieto, quer brincar, se especular, fazer o que quer. Me veio esse raio do desejo indomável de um disco mais cru, mais seco, mais minimalista. Quando eu e Rebello começamos a ensaiar, percebemos que as músicas mais “sexy” precisavam de um molho sexiness, mereciam um guéri-guéri, e aí entraram umas batidinhas. Então não é um disco que ficou só voz e violão, mas eu queria fazer um disco diferente. E ficou diferente, curioso. Sabe Deus o que o futuro aguarda, pois amo fazer show com banda grande também, mas queria brincar de outra coisa no momento.

PP – Me conta sobre esses planos para botar o pé na estrada e fazer novos shows.

L – Vai ser um show mais minimalista e mais seco também. Vai ser um trio: eu, Rebello, tocando uma guitarra acústica, e Cristine Ariel, uma violonista. Vamos ter um computador para as bases de algumas músicas que levaram os beats. Acho que vai ser divertido porque vai dar para brincar de outra encenação. Já que o disco é diferente, o show também tem que ser.

PP – O palco dá várias possibilidades, né?

L – É! Eu sou bicho palco, sou formada em teatro e acredito que nenhum show é igual. Apesar do repertório, apesar de cantar uma mesma música pela centésima vez, nenhum show é igual porque nenhum dia é igual: que cidade é essa?; estou bem hoje?; estou menstruada?; o que aconteceu na minha vida?; a plateia está de braços cruzados ou abertos? Adoro palco por isso. A composição é o início, a gravação é o ofício – inclusive, para mim, é o mais difícil, é onde eu enfrento minhas dificuldades – e o palco é a catarse final.

(Foto: Bruna Latini/Divulgação)

Share
Leave a Comment

Postagens recentes

  • música

Xuxa anuncia show “O Último Voo da Nave” no Estádio do Maracanã, no Rio

Xuxa anunciou mais uma data de sua turnê, "O Último Voo da Noite", nesta sexta-feira…

16 horas atrás
  • famosos

João Lucas, marido de Sasha Meneghel, fala sobre ataques que recebe contra a própria sexualidade

Cissa Guimarães, do “Sem Censura”, da TV Brasil, questionou como João Lucas, cantor que migrou…

17 horas atrás
  • televisão

Sheron Menezzes e Thiago Lacerda são confirmados no elenco de “Por Você”, nova novela das 19h

Sheron Menezzes e Thiago Lacerda foram confirmados no elenco de “Por Você”, nova novela das…

18 horas atrás
  • música

Jessie Ware lança a inédita “Automatic” com participação de Colman Domingo

Em mais uma amostra do álbum “Superbloom”, Jessie Ware liberou nesta sexta-feira (27) o single…

19 horas atrás
  • música

Robyn está cheia de tesão pela vida e pronta pra pista no novo álbum “Sexistential”

Ela está de volta! Oito anos após o incrível “Honey” (2018), Robyn retorna com muito…

20 horas atrás
  • música

Prestes a vir ao Brasil, Slayyyter estreia o álbum “Wor$t Girl in America”

Atenção aqui, clubbers: Slayyyter embala esta sexta-feira (27) com o batidão do terceiro álbum de…

21 horas atrás