Björk não blefou quando disse que tinha usado o isolamento da pandemia para criar um reflexo de seu universo particular. Em “fossora”, disco que a artista lança nesta sexta-feira (30), o ouvinte é apresentado a uma construção delicada e complexa de instrumentos como o clarinete e o baixo. A presença de orquestras suntuosas entre uma faixa e outra torna a experiência ainda mais imersiva.
Nas 13 faixas que apresenta, duas delas gravadas em islandês, a cantora constrói uma espécie de jornada que ora é interna, ora externa. Em canções como “Sorrowful Soil”, por exemplo, Björk se dedica a investigar os muitos processos que regem a potência de ser. Ao cantar “Ovule” e “Her Mother’s House”, que aliás conta com a participação da filha Ísadóra Bjarkardóttir Barney, o ritmo segue, pautado por questões do universo feminino.
Vem daí também o título, que adapta um neologismo à palavra “fossor” – do latim “escavador”. “Cada álbum sempre começa com um sentimento que tento moldar em sons. Desta vez, o sentimento estava pousando na terra e cavando meus pés no chão”, escreveu no texto de apresentação.
E, se a natureza, mais uma vez, alcança um posto de destaque, outro aspecto importante da narrativa é o luto. Na verdade, os dois estão entrelaçados de alguma maneira porque, em 2018, a mãe da artista, Hildur Rúna Hauksdóttir, deixou este plano.
Hildur era na verdade uma grande apreciadora da medicina alternativa e se declarou incontáveis vezes ativista em prol dos direitos humanos. É ela quem dá o tom em “Ancestress”, uma das canções mais bonitas já feitas por Björk nos últimos tempos em que para para falar sobre o tratamento vivido pela mãe antes da morte.
Se o divórcio de Matthew Barney deu fôlego a dois discos carregados de sofrimento (“Vulnicura” e “Utopia”), Björk agora parece se libertar e retornar ao ponto de partida. Ela coloca os pés no chão e lembra que o chão pode e é a base de tudo, o princípio, o refúgio e o fim.
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