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(Foto: Reprodução/Instagram)

Análise: Nem Bill Gates nem Elon Musk! Quem trouxe a Matrix para a realidade foi o ABBA com “ABBA Voyage”

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James Cimino
Especial para o PapelPop, em Londres

“É gente de verdade lá no palco?”, me perguntou uma senhora inglesa na casa dos seus 60 anos durante a performance de “S.O.S.”, a terceira música do show “ABBA Voyage” que, ao que tudo indica, deve ficar em cartaz em Londres por pelo menos cinco anos. A pergunta fez meu queixo sair do chão para responder a ela, ainda sem saber direito o que eu estava vendo na minha frente, meio impaciente: “Apenas a banda, os músicos. Não o ABBA.”

Mas essa explicação não era totalmente precisa. Eles estavam ali, sim. Porque o ABBA, a banda sueca que, em 1974, ganhou o festival “Eurovision” com a canção “Waterloo” e que vendeu mais 385 milhões de álbuns no mundo todo, não é mais os quatro artistas que encerraram uma carreira de tremendo sucesso em 1982 para viver em reclusão desde então, mas as músicas que, a despeito da passagem do tempo, continuam emocionando gerações e gerações de fãs de todas as idades.

Este momento de dúvida trocado entre mim e a senhora inglesa, no entanto, sintetizou a experiência da noite do meu aniversário de 46 anos. Escolhi a data para assistir à tão anunciada residência da banda em Londres porque o ABBA é provavelmente a minha primeira paixão pop.

Conta minha tia Ivone, que com minha mãe ouvia os discos do quarteto sueco à exaustão, que, lá pelos idos de 1982, quando Agnetha Fältskog, Björn Ulvaeus, Benny Anderson e Anni-Frid Lyngstad decidiram dar um tempo, eu, aos seis anos de idade, “cantava as músicas igualzinho”, mesmo sem saber falar inglês. Fui pela nostalgia e saí completamente tomado pela experiência futurística que essa empreitada, provavelmente a última da banda, proporcionou a todos os presentes.

A primeira coisa que se deve deixar claro sobre “ABBA Voyage” é que não se trata de hologramas dos quatro integrantes, embora a imprensa insista em classificar os quatro “ABBAtars” como tal. A tecnologia holográfica, como bem pontuou Ulvaeus, mal nasceu e já ficou obsoleta. E apesar de serem velhinhos de 70 anos, o ABBA preferia ficar na memória do auge de seu sucesso ao se aventurar em algum pastiche tecnológico cafona.

Para colocar esse show no palco, os quatro foram filmados digitalmente com sensores por todo seu corpo e rosto durante cinco semanas por 160 câmeras, captando cada expressão e cada movimento durante as performances das 20 canções que formam o setlist do show. A tecnologia foi elaborada por mais de cem artistas digitais da empresa Industrial Light & Magic (ILM), responsável pela computação gráfica da franquia “Star Wars”. O que a ILM fez com Agnetha, Björn, Benny e Anni-Frid foi quase o mesmo que foi feito com Carrie Fisher no filme “Rogue One” e Mark Hammil na série “O Mandalorian”. Digo “quase” porque “Abba Voyage” é a evolução disso.

(Foto: Reprodução/Instagram)

(Foto: Reprodução/Instagram)

Muitos céticos foram categóricos ao afirmar, quando disse que veria o show, que seria “como ver um filme”, e que “não era o ABBA que estaria ali cantando”. Errado. “ABBA Voyage” faz o que nenhum cinema 3D, 5D ou iMax foi capaz de fazer até hoje.

É diferente de um filme porque a experiência só é possível porque não se trata de uma sala de cinema, mas de uma arena projetada especialmente para o show. São telões de tão alta definição que não permitem a gente enxergar onde eles terminam e onde começa a audiência, uma vez que tudo o que está acontecendo no palco e nos telões em termos de iluminação é uma extensão do que está acontecendo com o público na arena, cuja geometria também contribui com essa dissolução de fronteiras entre realidade e ficção. Junte-se a isso uma banda com dez músicos tocando ao vivo ao mesmo tempo em que os ABBAtars estão no palco cantando e dançando. Só não é impossível diferenciar uns dos outros, pois as imagens digitalizadas do ABBA ampliadas em telões gigantescos nas laterais do palco mostram que detalhes como o cabelo ultra perfeito de Agnetha a fazem parecer uma personagem de videogame.

Nada disso, no entanto, tira o público da fantasia. A imagem que atrai a atenção é a dos ABBAtars em escala humana no palco com seus movimentos tão naturais como seriam o dos integrantes nos anos 1970 trocando de figurino ou fazendo suas dancinhas relativamente simples. O figurino, aliás, foi desenho pela grife Dolce & Gabbana.

“ABBA Voyage” é show de música pop, é videogame, é “Star Wars”, é “Homem-Formiga”, é passado, é presente. Tudo ao mesmo, sem negar nenhuma dessas características. E embora a fronteira entre passado, presente, futuro, realidade e ficção se dissolva, a ilusão é mantida com a presença dos elementos fundamentais de um show pop.

Primeiramente: eles não tocam apenas hits, embora seja impossível fugir disso com um repertório tão vastamente popular como é o do ABBA. Abrem o show com “The Visitors”, seguem com “Hole in the Soul”, duas canções meio obscuras, mas que são perfeitas para a abertura de um show como esse. A primeira porque é uma canção de 1981 que reflete o que era considerada uma sonoridade futurista naquele ano e que fala desses visitantes, que podem tanto ser alienígenas como os quatro integrantes da banda chegando dos anos 1970 em 2022. A segunda é um rock de 1977 que fala que rock and roll é uma única solução para os problemas da vida. Verdade ontem. Verdade hoje.

Depois é surra de hits: “S.O.S.”, “Knowing Me, Knowing You”, “Chiquitita”, “Fernando”, “Mamma Mia” e “Does Your Mother Know”. Nesta última, aliás, Björn só canta a primeira estrofe, depois “sai” do palco deixando o show para as três backing vocals da banda de dez integrantes que tocam as músicas ao vivo durante os 90 minutos do show. Ficam de fora megassucessos como “Super Trouper”, “I Have a Dream”, “Take a Chance on Me”, “Money, Money, Money”, afinal, todo artista pop sabe que um dos segredos do sucesso é deixar o público querendo mais.

Também como em todo show de rock, as luzes se apagam entre as músicas, eles param para “falar com o público” usando suas vozes de hoje pré-gravadas, e falam de si como se fossem (e são) ao mesmo tempo, os velhinhos de 70 anos e suas versões jovens de 1979.

No meio do show, os ABBAtares “param para trocar de roupa” algumas vezes (embora todo mundo saiba que isso poderia acontecer em uma fração de segundos como no desenho vintage futurista “Os Jetsons”). Em uma das trocas, na introdução da sessão disco do show, os telões exibem um interlúdio ao som de “Eagle”, outra música não muito famosa da banda, mas que também fala dessas entidades que vieram voando de muito longe. As imagens lembram a introdução do videogame “Zelda”, fazendo uma conexão com o pré-show, quando o público se depara com três telões translúcidos onde estão projetadas as imagens de uma floresta. Por detrás das árvores, se vê um personagem com uma lanterna correndo e se escondendo. Esse mesmo personagem, neste interlúdio, reaparece coletando pistas que irão “destravar” a próxima fase desse videogame musical.

E aí, começa a parte visualmente mais avassaladora, em que os produtores parecem dizer para o público que essa tecnologia não se resume apenas a reproduzir a figura humana na mais alta fidelidade, mas que se trata de uma experiência imersiva de hiper-realismo ao som de quatro hits da fase disco music da banda.

Em “Lay All Your Love on Me”, os integrantes aparecem de trajes de neon em tamanho gigante, quase que tocando o público minúsculo. Na transição desta canção para “Summer Night City”, a câmera dá um close aéreo nas vocalistas e vai se afastando, até elas retomarem à escala humana, a tela então “dobra” e os integrantes aparecem em um palco de pirâmides de neon com Saturno ao fundo. Nesta hora, o público, aos gritos, dançando freneticamente, pode jurar que está flutuando no espaço, vendo os asteroides que formam os anéis de Saturno em órbita ao redor do planeta. É, literalmente, uma viagem, mas sem ácido. E se alguém achar pouco, depois disso vem “Gimme, Gimme, Gimme (a Man After Midnight)”, a mãe de “Hung Up” da Madonna, e “Voulez Vous”, a trilha da fase final desse videogame, onde nosso personagem encontra os chefões, que, no caso, são o ABBA, lógico.

Dali para a frente, outro hit introduz a sessão final do show: “When All It’s Said and Done” dá passagem para os dois singles do álbum “Voyage”, de 2022: “Don’t Shut Me Down” e “I Still Have Faith in You”. E a viagem no tempo segue, desta vez nos levando de volta a 1974, com uma galeria de imagens de todas as performances de “Waterloo” durante sua carreira. O show fecha com “Thank You for the Music” e “Dancing Queen”. E como o melhor fica sempre para o final, o bis é com “The Winner Takes It All”, provavelmente a melhor música do ABBA.

Ao fim de tudo, os quatro integrantes voltam ao presente, velhinhos, agradecem e saem pela lateral do palco. Tudo de mentira, mas tão verdadeiro que é impossível conter as lágrimas em vários momentos. Especialmente para aqueles cujas músicas do ABBA são a trilha sonora de uma vida inteira. “ABBA Voyage” traz de volta as memórias dos que se foram e dá a ilusão de que eles, quem sabe, possam um dia voltar, transformados em “zeros e uns”, como bem definiu Benny em uma entrevista, demonstrando que, no fim das contas, a Matrix se tornou realidade através das músicas de uma banda de velhinhos que acabou há quatro décadas.

P.S.: Fiz um esforço mental tremendo para tentar transformar em palavras uma experiência que só é possível entender vendo. É algo nunca feito antes e que, acredito eu, deve transformar profundamente não apenas os shows de música pop, mas também o cinema. E não fiz vídeos porque os seguranças da arena, que não é grande (acomoda apenas 3.000 pessoas de cada vez), não deixam de jeito nenhum. Portanto, esse texto, apesar dos spoilers, jamais seria capaz de estragar essa experiência que eu devo repetir nos próximos meses.

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