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(Fotos: Oliver Tibau; Netflix / Divulgação)

Ao Papelpop, roteirista Marcos Ferraz fala sobre construção da segunda temporada de “Cidade Invisível”

Quando Marcos Ferraz chegou à sala dos roteiristas, “Cidade Invisível” já era um sucesso. A série da Netflix estreou em 2021, acompanhando Eric (Marco Pigossi) em um Brasil em que todas as lendas folclóricas, desde a Cuca (Alessandra Negrini) até o Saci (Wesley Guimarães), vivem entre os humanos.

O título logo conquistou o Brasil e o mundo, ficando no top 10 da plataforma de streaming em mais de 40 países. É claro que não demorou muito para que a segunda temporada fosse anunciada, garantindo a continuidade da história de Eric e das entidades que despertam o interesse dos brasileiros desde a infância.

Ferraz somou à equipe do roteiro, liderada por Mirna Nogueira, para dar vida aos novos episódios, que já estão sendo gravados em Belém do Pará. Neles, Eric ressurge em um santuário natural, protegido por indígenas e procurado por garimpeiros ilegais, com suas habilidades sobrenaturais recém-adquiridas.

O desejo do protagonista é retornar imediatamente para casa, no Rio de Janeiro, mas ele se torna necessário para proteger a filha Luna (Manu Dieguez) e o santuário. É nesse cenário que novas lendas ganham força, juntando às que já ficaram conhecidas na primeira temporada, e a jornada de Eric toma novos rumos.

Enquanto a segunda temporada não chega às telinhas da Netflix, Ferraz antecipa os detalhes dos novos episódios – evitando os spoilers – em entrevista ao Papelpop. O roteirista fala sobre a construção, as filmagens, a adição de artistas indígenas e os desafios de abordar o folclore brasileiro em “Cidade Invisível”.

Antes de tudo, eu queria saber um pouco de sua trajetória e de seu envolvimento com “Cidade Invisível”. Como você chegou ao projeto e como tem sido sua atuação até aqui?
Eu sou um roteirista que veio do teatro. Eu era ator e depois fui migrando para roteiro. Fiz a primeira série de TV a cabo do Brasil, que era “Mothern”, da GNT. Isso foi em 2006 ou 2007, quando não tinha streaming, nem nada. Eu venho desde essa época escrevendo séries. Este ano, a Netflix me chamou para escrever a segunda temporada de “Cidade Invisível”, que é uma série muito boa e de muito sucesso. A ideia do [criador] Carlos Saldanha é sensacional: trabalhar as nossas peculiaridades, o nosso imaginário, a nossa mitologia, o nosso folclore. Esse folclore, até então, a gente basicamente tinha conhecimento só pelos livros infantis. Eu mesmo fiz “Sítio do Picapau Amarelo” na televisão. Mas a gente pairava esse conhecimento ali, na nossa infância. Essa série trouxe uma nova dimensão, uma nova “roupagem”, um novo entendimento para a mitologia brasileira, que, na verdade, é uma ideia que vem antes mesmo da gente se entender como nação Brasil. Você tem um monte de séries e filmes norte-americanos que falam de lobisomem, de vampiro, de deuses. Em “Cidade Invisível”, a gente faz isso também, mas com os nossos deuses e as nossas entidades. É um trabalho bem gratificante, sabe? Eu já gostava [da série], tinha amigos escrevendo… Então, quando eu entrei, fiquei bem feliz.

A primeira temporada de “Cidade Invisível” deixou algumas pontas soltas para a segunda. Por exemplo, Eric foi levado pelas entidades e, como disse a Gabriela, se tornou uma delas. Como se dá o processo de construção dos novos episódios, tendo perguntas que precisam de respostas?
A Mirna, que é a chefe de roteiro, construiu o final da primeira temporada exatamente para ter um gancho para a segunda. A gente geralmente faz isso nos projetos, para já ter, mais ou menos, o que a gente vai falar em uma possível nova temporada. No caso de “Cidade Invisível”, você tem que estudar muito. Eu tinha assistido à primeira temporada como público, não sabia que eu ia fazer a segunda. Quando eu soube, tive que assistir a todos os episódios de novo e ler os roteiros. É um trabalho de estudo muito grande, principalmente para você se ambientar com todas as entidades que vão entrar e as que vão continuar… não posso falar muito sobre isso [risos]. Mas eles estão gravando em Belém, então tem dicas do que pode acontecer.

Com a primeira temporada no mundo, vocês têm acesso às opiniões do público e às críticas especializadas. Isso influencia o processo de escrita da segunda temporada? Você, particularmente, se preocupa com os comentários?
Claro. A gente faz para o público. Talvez seja uma visão particular minha, mas por que você vai escrever uma coisa para o público se não levá-lo em consideração? Não que você precise aceitar tudo, até porque existem críticas boas e ruins, e nunca vai existir uma unanimidade. Mas a gente leva em consideração, sim. É bem importante.

Como você mesmo já confirmou, as gravações estão acontecendo em Belém, então a segunda temporada deixa o Rio de Janeiro. Como foi essa mudança de locação, ainda em meio à pandemia? E qual é a importância disso para a nova fase da história?
Essa mudança é fundamental. Parte da história se passa lá, com as entidades da região, além das remanescentes da primeira temporada. Para gravar, é uma coisa louca. Ainda estamos na pandemia, então a gravação segue todos os protocolos. Todo mundo tem que fazer teste [de Covid-19] todos os dias. Quem não é essencial no set, geralmente não vai. A gente sempre tem alguém da equipe do roteiro lá para eventuais mudanças ou consultas. Mas é um esquema bem rígido porque existe um tempo para gravar tudo. E ninguém pode pegar Covid, né? Se pegar, param as gravações. Tem toda uma questão de segurança. Mas uma coisa legal que a gente faz no processo, depois que escreve o roteiro, é o que a gente chama de leitura de mesa. Roteiristas, atores, diretores, todo mundo senta, pega o roteiro e lê. Aí a gente vai percebendo e arrumando o diálogo ou as intenções dos personagens, o que é ou de que jeito é melhor falar. A gente faz esse trabalho para poder deixar tudo mais verossímil, mais próximo possível do que é a realidade.

Como são esses bastidores do set? Os roteiros dos episódios costumam mudar muito durante as filmagens?
No set, não muda muito. É um esquema muito profissional porque você tem a ordem do dia: seis horas, chega todo mundo; seis e meia, toma café da manhã; sete horas, começa a gravar cena tal. É tudo programadinho. Não tem muito tempo lá no set para mudar roteiro, apenas se for emergencial. É por isso que a gente faz todo esse trabalho antes. Os roteiristas escrevem primeiro em casa, leem o roteiro do outro, mexem, depois passam para a direção; a direção dá suas opiniões, depois passa para a produção, aí vai para o canal ou streaming; a executiva de lá também passa as impressões dela, se a audiência vai gostar mais assim ou assado; e depois vem a leitura com os atores. Depois da leitura dos atores, fecha o roteiro. Aí a gente fala: “É isso que vai gravar”.

A gente, enquanto público, às vezes esquece o tanto de gente envolvida e a dimensão do trabalho por trás das câmeras na hora de reclamar da demora para uma temporada ser lançada. Esse processo não é nada rápido, é?
Para a gente escrever, deixando a coisa bem-feita, demora seis a oito meses. Para gravar, é mais meio ano ou quatro meses… depende. Aí vem finalização, edição. Essa temporada, assim como a primeira, tem efeitos especiais, que precisam ficar legais e não toscos. Então é difícil. É trabalhoso.

Com Belém e Amazônia como cenários desta vez, vocês estão incluindo artistas indígenas no elenco da série. Como tem sido a experiência de trazer novos rostos, rostos que são importantes e fizeram falta na primeira temporada, para a história?
É uma experiência muito boa, viu? Muito enriquecedora mesmo. São artistas locais e ótimos. A gente perde muitas oportunidades quando só fica no eixo Rio-São Paulo. O Brasil é imenso e tem muita gente talentosa, mas o audiovisual do país ainda tem esse vício. Acho que nos Estados Unidos também tem isso, ficando muito em Los Angeles e Nova York. Sempre tem uns polos. Mas acho que trazer outras visões de mundo, outros paralelos só enriquece [as histórias], de verdade. Abre um leque. É essencial. As narrativas ficam bem melhores, muito mais verdadeiras. E, para além dessas pessoas estarem na tela, existe a empregabilidade. Elas estão trabalhando, inseridas no mercado audiovisual com uma série que tem um alcance mundial. Isso também é muito legal. Você estreia em, sei lá, 180 países de uma vez.

Imagino que participar de uma série ou de um filme original de uma plataforma de streaming e poder observar seu desempenho nela seja muito interessante. Como tem sido isso para você, que começou na televisão?
Quanto mais gente estiver assistindo, melhor. Para mim, é isso [risos]. Eu gosto de cultura de massa. Eu escrevo novela. Acho muito desafiador e fascinante contar uma história para, sei lá, 30 milhões de pessoas. Você precisa agradar desde um morador de uma fazenda do interior de Goiás até uma senhora de um bairro grande de São Paulo. Com o streaming, isso vai mundialmente. Além de falar com a gente do Brasil, você chega em pessoas de Israel, da China… a história é vista e consumida. Eu acho muito louco isso. Porque é aí que está, né? A história é o principal. Se você contar uma boa história, ela vai ser universal. É aquela coisa de cantar o seu quintal para você cantar o mundo. Em essência, todo ser humano quer ouvir uma história.

E o mais legal de “Cidade Invisível” é que essa história é a nossa história. Como tem sido a experiência de adaptar tantas lendas que fazem parte da gente, da nossa cultura e da nossa memória para as telas?
Adaptação é uma coisa muito delicada. Você, como artista, tem que ter uma cabeça não purista: “Tenho que pegar a essência dessa entidade e o que ela representa, não posso perder isso de jeito nenhum… mas, agora, o que eu posso adaptar para o audiovisual e para a minha história? Como eu posso contar isso?”. Essa questão do purismo não se sustenta muito, na minha opinião, porque as histórias vão sendo contadas, vão sendo passadas oralmente e vão sendo modificadas ao longo dos anos. É claro que não dá para pegar uma história, uma lenda, um mito, e deformar completamente. Isso não. Mas poder brincar com algumas delas e modificar um pouquinho sem tirar a essência delas… isso aí é o mais difícil, mas eu acho que a gente conseguiu. Eu acho que esse jeito é uma porta de entrada para a nossa cultura. Então é uma dificuldade que a gente tem, mas também é prazeroso quando a gente consegue colocar as entidades aqui. É muito estudo. Até porque são muitas, né? Um panteão de deuses e deusas. E aí você escolher aquelas exatas, que servem para a nossa história, é muito bacana.

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