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Voz do milênio, Elza Soares morre aos 91 anos

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A cantora Elza Soares faleceu aos 91 anos na tarde desta quinta-feira (20), no Rio de Janeiro. Em nota, a assessoria da artista informou que a morte ocorreu por causas naturais.

“Ícone da música brasileira, considerada uma das maiores artistas do mundo, a cantora eleita como a Voz do Milênio teve uma vida apoteótica, intensa, que emocionou o mundo com sua voz, sua força e sua determinação”, diz o comunicado, publicado nas redes sociais.

“A amada e eterna Elza descansou, mas estará para sempre na história da música e em nossos corações e dos milhares fãs por todo mundo. Feita a vontade de Elza Soares, ela cantou até o fim”.

 

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Trajetória

Filha de um operário e de uma lavadeira, Elza Gomes da Conceição nasceu em uma família de dez irmãos e começou a cantar ainda criança na companhia do pai, que tocava violão como hobby. Com uma infância marcada por violações e pela pobreza, foi obrigada a se casar aos 12 anos de idade.

Aos 18 anos, conseguiu se emancipar e passou a assinar como Elza da Conceição Soares. Foram muitas as dores de sua vida. Mãe de oito filhos, os dois primeiros não chegaram a ser registrados e morreram vítimas da desnutrição. O filho que teve com o jogador Garrincha, Manoel Francisco, faleceu em 1986, aos 9 anos de idade, vítima de um acidente automobilístico.

A filha Dilma, por sua vez, foi sequestrada em 1950 pelo casal que tomava conta da menina. A busca levaria mais de 30 anos para ter fim.

A música, por outro lado, sempre serviu como tábua de salvação. Foi a arte quem a salvou da depressão, das tentativas de suicídio e do uso de antidepressivos.

Antes mesmo de ser quem foi, um ícone da canção popular, deixou claro que não se iria nunca abaixar a cabeça. É famoso o episódio em que foi hostilizada no programa de calouros de Ary Barroso, em 1953, durante um teste na rádio Tupi. Após ter sua aparência e vestuário zombados pelo apresentador, respondendo à altura, ficou em primeiro lugar. As cenas seriam resgatadas décadas depois no disco “Planeta Fome” (2019).

Tais eventos foram resgatados em 2019 na biografia “Elza” (Leya), fruto de várias sessões de conversa com o jornalista Zeca Camargo.

Consagração

Apontada pela britânica BBC como “a voz do milênio” no ano 2000, antes disso ela passou por um viveu um certo esquecimento nos anos 1990, período em que ficou fora do Brasil.

A genialidade, no entanto, a colocaria novamente sob os holofotes em 2002 com a estreia do avassalador álbum “Do Cóccix até o Pescoço”, projeto que alavancou seu nome aos indicados do recém-inaugurado Latin Grammy.

Em 2015, lançou “A Mulher do Fim do Mundo”, eleito um dos melhores discos do mundo naquele ano e reconhecido com alto galardão por listas de revistas como Rolling Stone e o próprio jornal The New York Times. Neste trabalho, a autora reflete questões relativas ao sexo, à liberdade feminina, a morte e a negritude.

Sobre o último tema, ao cantar em inúmeras ocasiões que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, tornou-se uma das vozes mais potentes na luta contra o racismo no Brasil.

Orgulhosamente feminista, estreou na sequência “Deus é Mulher”, mais um trabalho de veia política e de grande repercussão internacional. Entre os destaques está sua colaboração com jovens nomes da música brasileira, entre eles a composição “Banho”, de autoria da colega Tulipa Ruiz.

Nos últimos meses, uma série de discos clássicos lançados na década de 1970 e restritos a formatos analógicos chegaram às plataformas de streaming.

Seu último show ocorreu no dia 19 de dezembro. A notícia da morte de Elza, serena, pega todos de surpresa, embora cumpra uma profecia traçada pela própria. “Até o fim eu vou cantar/eu vou cantar até o fim/eu sou mulher do fim do mundo”, diz em uma de suas canções mais célebres.

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