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Foto: Lucas Nogueira

Entrevista: Agnes Nunes apresenta jornada de amadurecimento em “Menina Mulher”, álbum de estreia

Janeiro sempre marca o início de um novo ciclo para muitas pessoas. Para Agnes Nunes, o mês apresenta mais um significado nesta sintonia de novos começos: a chegada de “Menina Mulher”, seu disco de estreia. O projeto, que desembarcou nas plataformas digitais nesta sexta-feira (28), apresenta uma jornada de amadurecimento da artista.

Em conversa com o Papelpop sobre o álbum, a cantora se debruçou sobre a escolha do título e seu significado. “‘Menina Mulher’ [significa] todas as coisas que eu já passei. A minha visão sobre muita coisa mudou, sabe? Eu amadureci em relação a muita coisa que eu vivi nesse processo de pandemia e que eu vivi nesses quase dois anos em que o álbum estava sendo feito. Para mim, essa menina mulher aprende todos os dias. Todos os dias ela aprende uma coisa nova. Todos os dias ela vê alguma coisa por um outro lado, com outros olhos”, explica Agnes. 

A primeira canção feita para o projeto foi “Vish”, escrita quando a artista tinha 15 anos. Agora, com 19, ela reconhece as mudanças providas pela passagem do tempo. “A minha visão para com as coisas quando eu tinha 15 anos está explícita em ‘Vish’. Dor de cotovelo, voz de menina, ‘minha mãe me avisou’. Com base no que eu fui vivendo, crescendo e experimentando certas histórias e situações, tudo foi mudando. Dá voz até a forma de pensar – em relação  ao amor, principalmente. Esse álbum é um álbum que fala muito sobre amor: próprio, ao outro, coração quebrado, desamor, partidas, vindas etc. Para mim, ‘Menina Mulher’ está sempre em processo, sempre em amadurecimento. É uma borboletinha no casulo.

No início, quando a ideia de construir uma obra musical em formato de LP surgiu, Agnes se deixou livre para seguir os caminhos de sua arte de forma orgânica. Ela conta que quando teve o start para a criação do disco, não estava focada em números. “Eu nunca fui uma pessoa que faz música pensando ‘Uau, quero que isso atinja muitos números e tudo mais’. Óbvio que você quer, é a sua vontade, mas quando comecei a cantar foi porque gostava, me fazia bem, e porque sofria bullying, sofria racismo e a música era a minha válvula de escape de todas as coisas ruins que eu passava”, relembra. 

Durante a entrevista, Agnes revisitou seu ponto primordial em relação à música: amenizar as coisas que passava em sua vida, mas também contribuir para a trajetória de outras pessoas. E mais: aflorar um lado bom e sentimental em qualquer um que ouvisse suas composições, sua voz.  Ela conta que o importante é transmitir verdade, “que seja de verdade e que as pessoas ouçam e se identifiquem”, explica. “Tenho certeza que muitas coisas que eu vivi, muitas pessoas viveram também. Quando eu ouço meu álbum, eu vejo que as músicas se encaixam em muitos momentos diferentes, para várias coisas. Então, na mesma música você ouve chorando, mas também pode se casar com ela e ser a pessoa mais feliz do mundo.” 

Episódios pessoais como aceitação de seu cabelo crespo, autoestima e amor-próprio, estão presentes no álbum, através de canções cheias de mergulhos introspectivos. A música “Papel Crepom” chega como o single do álbum e conta sobre essas fases que Agnes passou, percorrendo a adolescência e agora como adulta. Essa canção é a única faixa não autoral de “Menina Mulher”, sendo uma composição de Túlio Dek que tomou sua forma final somada a letra ao talento a artista.

Confira o videoclipe da faixa:

Agnes traz em cada faixa do álbum uma mensagem sobre amores, partidas, inspirações, aprendizados, em melodias românticas, que misturam o jazz, o r&b, a mpb e o pop. Sobre os ritmos que guiam a experiência sonora, ela explica que tinha uma ideia delimitada para o seu projeto, até que resolveu aceitar as suas próprias vivências. Inclusive, a cantora baiana compartilhou alguns artistas que não saem de seus fones de ouvidos. Citou Nina Simone, Pink Floyd, Fleetwood Mac, Elza Soares, Jorge Ben Jor, Xamã, Alceu Valença e Caetano Veloso.

“Quando eu comecei, queria que o álbum fosse bem Brasil. Era o que eu me enxergava no momento. Eu falava ‘Esse álbum tem que ser Brasil. Tem que ter muitos instrumentos brasileiros.’ Só que o tempo foi passando e vi que eu sou uma mistura muito louca de gêneros. Então eu respeitei isso”, afirma a artista. “O álbum está bem Brasil, tem sambinha, mas também tem R&B, eu bebi um pouquinho ali na fonte do R&B porque eu não consigo não beber. Eu ouço muito R&B, muito soul, muito jazz, então isso é refletido na minha música e nas músicas desse álbum. Tem um samba? Tem! Mas você consegue ouvir uma e dançar uma valsa tranquilamente, sabe? É uma loucura de gêneros!”

Algo muito interessante no disco é que, diferente de alguns lançamentos recentes, algumas faixas não seguem o padrão do algoritmo das plataformas de streaming. Nele, existem músicas com mais de 3 ou 4 minutos. Isso faz com que tudo na canção – versos, instrumentos, voz e refrão – tenha mais tempo para brilhar. Questionada sobre esse aspecto do projeto, ela revela que teve conversas com a produção sobre o assunto, mas que não estavam preocupados em seguir esses padrões do meio digital.

“A Baguá Records é uma produtora independente. É muito interessante porque eu vejo a liberdade que eu tenho, sabe? A liberdade artística que eu tenho. Então, aqui a gente não se importa com o algoritmo, a gente se importa com a qualidade do som que a gente está fazendo. Sempre! Liberdade não só para mim, mas aos músicos também. Ao mesmo tempo que eu canto e brilho com a minha voz, os instrumentistas e os produtores também têm que brilhar com o trabalho deles”, conta. “Eu deixo livre para os instrumentistas fazerem o que quiserem. Estamos na mesma frequência, então, nada de preocupação com os algoritmos.”

 

O nome do disco é “Menina Mulher” e, além da relação com amadurecimento, o título faz o público lembrar de “Menina Mulher da Pele Preta”, de Jorge Ben Jor. Como uma artista que cresceu ouvindo músicos negros, ela afirma que todo o conceito do disco é fruto dessa vivência. “Isso me influenciou muito, me influencia até hoje. Eu amo Jorge Ben Jor. Ele tem muito a ver com essa capa. É uma das minhas músicas preferidas”, revela Agnes.

Nesse ponto da entrevista, a artista cantou um trechinho da faixa de Jorge Ben e continuo fazendo conexões com a capa do disco: “Acho muito singela a forma que ele fala sobre a menina. A minha menina mulher começou a descobrir a malícia, o amor, a vida e a capa tá uma obra de arte.”

Durante a conversa, a cantora de 19 anos revelou que a foto foi feita na Bahia, enquanto estava produzindo o álbum. Ela estava no intervalo entre uma música e outra. No dia, enquanto se preparava para descer para a praia, Agnes estava destrançando o cabelo. “Não tem nada de superprodução. A gente só pegou a câmera, encostou na parede… eu estava destrançando nesse dia e o meu cabelo sempre fica bem crespão. Nesse dia ele ficou um super black e eu estava me sentindo incrível. Estava descendo para a praia e o Lucas [Nogueira, fotógrafo] perguntou ‘Vamos fazer uma foto?’. Eu falei, ‘Vamos!’. E a foto aconteceu”, relembra. 

“Quando eu vi, ela ficou tão expressiva, ela significa hoje tanta coisa para mim. Significa meu amadurecimento, a representatividade que a cor da minha pele tem, ela significa que todo o racismo, todo o bullying, tudo o que sofri por ser preta, nordestina e mulher, hoje faz eu ser mais forte. Hoje faz eu conseguir passar essa força para outras meninas e meninos que sei que também passam, infelizmente, pela mesma coisa que eu passei.”

Em “Grinalda”, a cantora fala muito sobre o futuro. Questionada sobre o que espera que a arte possa permitir na sua vida em seus próximos passos, uma alusão à frase que utiliza nas redes sociais, ela é categórica: “Tudo o que eu quiser ser! Espero que a arte me permita ser tudo o que eu quiser ser. E ela me permite. Hoje eu canto o que eu quero, o que meu coração pede. Eu não sou nenhuma outra pessoa para fazer o que gosto de fazer. Isso para mim é o mais importante de tudo. Quero que daqui a dez, quinze anos, as pessoas ouçam ‘Menina Mulher’, ouçam a minha voz, a minha música, e que seja como se fosse a primeira vez. É o que eu quero.”

Por fim, Agnes ainda compartilhou um conselho para jovens que estão buscando um sonho, levando em consideração tudo o que a trouxe até aqui. “Acho que é o clichê que todo mundo fala: não desista! E é muito difícil, mas as dificuldades fazem a gente amadurecer, crescer e querer não desistir. Se você tem um propósito e quer viver da sua arte, da sua música, não desista.”

O álbum “Menina Mulher” é divulgado com selo Baguá Records e conta com duas gerações de produtores musicais, Neobeats e Alexandre Kassin. Ouça o projeto nas plataformas digitais:

Spotify | Deezer | Apple Music

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