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Foto: Divulgação/Paramount+

“Madame X”: Madonna cria registro visual encantador, pop e perturbador sobre os tempos atuais

Dá para acreditar? Madonna está quase completando 40 anos de carreira. Quando seu primeiro single, “Everybody”, surge em 1982, o que se escuta nas rádios é uma música pop flertando com a disco music, convidando para dançar, se soltar, deixar o DJ te balançar e a música te guiar. Eram os niilistas anos 1980, coloridos, vaidosos, irônicos e artistas como Madonna, Prince, Michael Jackson, Cyndi Lauper, Boy George e muitos outros só pensavam mesmo (pelo menos naquele começo) em amar, ser amado, fazer sexo, se divertir, dançar e arrasar.

Chegamos agora aos anos 2020, com protestos nas ruas, injustiças raciais ainda mais evidentes, xenofobia, mulheres, pessoas pretas e queer tendo que pedir por respeito e lutar pela própria vida, Donald Trump e o mundo em colapso. Madonna, uma das sobreviventes do pop dos anos 80, ainda está no meio de nós. E é um alívio notar que sua arte, música e discurso consegue refletir o que vivemos nos dias de hoje. É isso que a rainha do pop faz, e com muita elegância e bom gosto, com o show, o musical “Madame X”, já disponível na Paramount+.

Trata-se de um registro visual ousado, conturbado e ao mesmo tempo gracioso de sua mais recente turnê baseada no disco “Madame X” (sim, é aquele show nos teatros pequenos que ela pediu para ninguém usar o celular). “Obrigado por serem corajosos o suficiente para virem aqui sem seus telefones. Espero que não tenha sido inconveniente para vocês e que não tenha causado nenhum dano emocional. Tô brincando”, provoca a rainha do pop em determinado momento do show.

Madonna foi esperta. Seria muito enfadonho, maçante e sem graça ver o registro de um show gravado em um teatro (este captado no Coliseu dos Recreios, em Lisboa) de forma crua, sem edição ou intervenção visual. Não teria graça alguma. Com a direção do fotógrafo e videomaker Ricardo Gomes, e do SKNX, ela consegue entregar um show que às vezes parece videoclipe, às vezes cabaré e às vezes um show propriamente dito.

O começo de “Madame X” é genial. Um vídeo com vários momentos marcantes da carreira da Madonna é exibido enquanto ela avisa que sua nova persona são muitas mulheres diferentes. Vemos ali pedaços picotados de clipes polêmicos, trechos de jornais “crucificando” a cantora, o beijo na Britney, o livro Sex e muitos outros temas que chocaram o mundo. É como um trabalho de resgate, um compilado de imagens riquíssimo que toda e qualquer diva pop adoraria jogar num telão quando quisesse passar determinada mensagem para a audiência. Só que, no caso de Madonna, aquilo foi tudo ela quem fez. Um baita acervo.

Com quase duas horas de duração, o show começa todo leve e disco music, mas, ao mesmo tempo, pesado e violento, com a ótima faixa “God Control” mostrando imagens dos protestos recentes nos EUA, como a morte de George Floyd. A cantora pede por uma nova democracia e pelo controle do posse de armas. Tudo parece um grande videoclipe. Não pisque, tá?

Logo em seguida, antes da chegada de “Dark Ballet”, é exibido outro momento de resgate do “catálogo pop da carreira da Madonna”. Neste, um trecho tirado do documentário “Na Cama com Madonna”, de 1991, em que ela sofre censura com sua turnê Blond Ambition na Itália e reúne a imprensa para ler uma mensagem sobre liberdade de expressão e o que é ser artista. A arte e seu papel contestador, aliás, é o tema principal de “Madame X”, que utiliza momentos em vídeo e em áudio do escritor e poeta James Baldwin como fio condutor para falar de arte e amor e sobre como os artistas estão aqui na Terra para incomodar e tirar a paz de todos nós.

Os hits não foram esquecidos, ainda bem. No meio das músicas pesadas que “incomodam”, como “Dark Ballet”, “God Control” e “Killers Who Are Partying”, vem também o conforto dos sucessos da carreira.

Um dos pontos altos do show é “Frozen”, que traz no meio do palco uma projeção gigante de sua filha mais velha, Lourdes Leon. Madonna canta entre suas mãos. É lindo. A música ganha uma nova versão, com muito violão, sem perder as batidas dos sintetizadores e os violinos. A experiência de ver este momento ao vivo, no teatro, é bem parecida com a de assistir ao registro em vídeo da turnê. Acreditem.

 

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Na clássica “Vogue” ela brinca de espiã noir, toda detetivona loira, com sobretudo e arma retrô. Faz, praticamente, um clipe novo para a faixa. Lindo de se ver.

Em “Human Nature”, ela apresenta a música numa ótima versão funky e jazz com direito a duas backing vocals, uma trompetista maravilhosa e Madonna recriando a coreografia do clipe no palco. A música se destaca, sendo feita ao vivo. No final, um percussionista surge e Madonna senta para tocar com ele. Segundos depois, aparecem as dançarinas, e as filhas da cantora, Stella, Esther e Mercy James. “Eu treinei minhas filhas para nunca se contentarem com pouco. Nunca ficarem com a segunda opção”, avisa ao final da música. Com os gritos da plateia, ela aproveita para cantar um trecho, a cappella, de “Express Yourself”, com um time feminino no palco formado por suas filhas, suas backing vocals e as dançarinas mulheres.

 

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O momento conforto do show é quando Madonna chega em Portugal. O palco se transforma em casas coloridas de azulejo, ela canta um trechinho de um clássico fado dos anos 1960, convida as rainhas do batuque de Cabo Verde para o palco e cria ali um dos momentos mais intimistas e musicais do show.

Em “Crazy”, aquela música em que ela canta em português (“Você pensa que eu sou louca?”), temos pouquíssima intervenção de edição. É um momento raro em que conseguimos ter a sensação de estar vendo um show. Madonna se enrosca com o namorado, o dançarino Ahlamalik Williams, e diz, olhando pra ele, em português: “Eu te amo, mas não vou deixar você me destruir”.

É também neste momento “tuga” que temos o primeiro single de “Madame X”, “Medellin”, com o colombiano Maluma. No show, a música fica muito mais interessante que no clipe ou no disco. Madonna desce pra cantar no meio da plateia, dá as mãos para o filho David Banda, senta no colo do namorado, dança a coreografia com todo mundo em cima do palco. É um dos momentos mais animados do show.

Ao final do espetáculo, “Like a Prayer” marca um X vermelho no palco, formado por uma escadaria. Madonna está com o tapa-olho. O vocal da cantora está perfeito, mas, a versão com os novos arranjos da música, nem tanto. De toda forma, é um dos maiores hits da historia da música pop, então, fica difícil de ser arruinado. A plateia levanta e enlouquece, Madonna empolga no final da música com o coral cantando o refrão. O resultado é lindo.

 

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Mais bonita ainda é a última música do show, “I Rise”, com Madonna falando sobre pessoas marginalizadas, feridas e mortas por serem elas mesmas. No telão, imagens de protestos e passeatas LGBTQIA+. Uma grande bandeira arco-íris se estende no palco. No final da apresentação, Madonna levanta o punhos para cima junto com os dançarinos e sai andando no meio do plateia e olhando nos olhos da audiência ao cantar, a cappella, a letra que fala sobre resistir.

É um momento de arrepiar. A Madame X é apaixonante, fascinante, toca em feridas, mas também abraça no final. “O amor nunca foi um movimento popular”, diz James Baldwin logo no final da apresentação de “I Rise”. “Ninguém nunca quis ser realmente livre. O mundo só caminha bem por conta do amor e da paixão de pouquíssimas pessoas”.

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Conforme prometido, o áudio da apresentação também está disponível nas plataformas de streaming. Ouça já!

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