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"Cafachorragem" abre alas para os trabalhos de Du Black neste ano (Reprodução / Youtube)

MC Du Black fala sobre parceria com Kevin O Chris, planos musicais e futuro do funk ao Papelpop

Em 2019, os versos de “Gaiola é o Troco” estavam na boca do povo, nos virais das redes sociais e no topo do Spotify Brasil. Foi com essa música que Carlos Eduardo – ou melhor, MC Du Black – se tornou uma das grandes revelações do funk daquele ano e seu jeito cantante ficou conhecido nacionalmente.

Diante do sucesso, ele começou a receber pedidos de uma colaboração com outro famoso nome do funk carioca: Kevin O Chris. Os dois já se conheciam, mas preferiram esperar a ocasião ideal para o lançamento do feat ideal. Afinal, seria necessária uma disponibilidade de ambos os lados e o próprio Du Black estava tirando alguns meses para cuidar de sua vida pessoal. Mas, na última sexta-feira (07), o momento chegou.

O MC lançou uma música de título atrevido, que mistura de cafajeste com cachorragem: “Cafachorragem”. Em parceria com Kevin O Chris, Du Black levou um funk 150 bpm às plataformas digitais – enquanto não pode tocá-lo em festas – e a um clipe de pura curtição pelo Rio de Janeiro. Assim, o artista carioca abriu alas para os trabalhos deste ano.

Em entrevista ao Papelpop, MC Du Black entrou nos detalhes do novo lançamento. Ele também compartilhou alguns de seus planos futuros, falou sobre os processos criativos em tempos pandêmicos e refletiu sobre a internacionalização do funk.

“Cafachorragem” marca sua primeira parceria com Kevin O Chris. Vocês já se conheciam antes? Como foi esse processo colaborativo?
Conheço Kevin há muito tempo. Esbarrei com ele no estúdio quando ele tinha acabado de estourar seu primeiro hit, mas a gente ficou um tempo sem se ver depois disso. Quando lancei “Gaiola é o Troco” e comecei a engajar mesmo no mercado da música, o pessoal começou a pedir um feat entre eu e Kevin pela nossa forma de cantar e pelo nosso estilo de música. Então a gente só ficou esperando a música certa, o momento certo. “Cafachorragem” está pronta desde o ano passado, mas Kevin estava com o lançamento de seu DVD e precisávamos de disponibilidade. Além disso, nesta pandemia, tudo ficou um pouco mais lento. Mas, quando a gente conseguiu concluir o clipe e a gravação de voz, chegou nosso momento. Kevin, que é minha referência e um cara que leva o funk a nível mundial, trouxe um potencial enorme para a música e eu dei tudo de mim também. É a minha vibe e a vibe dele, com aquela melodia que todo mundo já conhece. A gente espera que seja mais um hit.

É muito comum encontrar parcerias na cena do funk, não é? Como você disse, o próprio público pede por isso. Você acha que essas colaborações são positivas para os artistas?
A gente já observa os MCs fazendo duetos, colaborações há muito tempo. Na época, não tinha internet, mas a gente ouvia bastante na rádio. Naldo fazia muito isso. No pagode, Belo até chamava artistas de funk para cantar junto com ele. E funcionou! Nessa era digital dos streamings, os artistas têm que fazer seu nome sozinho primeiro. Quando eles começam a ter uma carreira mais concreta e firme, colaborações caem no gosto do público. Acho que isso vem para acrescentar, para somar, porque os públicos que são divididos passam a ficar juntos. Meu público vai juntar com o do Kevin e meus seguidores que não seguem o Kevin vão passar a seguir não só no Instagram, mas em todas as plataformas digitais. Por isso que o feat só vem para agregar.

E a parceria de “Cafachorragem” já ficou marcada com um clipe estrelado por você e O Chris curtindo alguns lugares do Rio de Janeiro. Isso deve ter sido um verdadeiro respiro nestes tempos difíceis de pandemia. Quais foram os desafios de gravar esse vídeo nas atuais circunstâncias?
A gente precisava das locações e passar confiança para seus donos de que todo mundo estaria usando máscaras. Os próprios artistas e a equipe de gravação tinham medo de contrair a Covid-19. Isso dificulta demais. Por exemplo, a gente teve que ver um dia de céu aberto porque se chovesse, teríamos que ficar em um lugar [fechado] juntos. Graças a Deus, o tempo colaborou: a gente estava com um dia meio ensolarado, meio nublado, mas sem risco de chuva. Optamos por gravar em um local aberto, em uma praia, não só pela paisagem, que tem a ver com a música, mas também por causa do risco. Na boate, mantivemos o espaçamento, chamamos poucas pessoas, nos higienizamos o tempo todo. No final, deu tudo certo. O que mais atrapalha nesse momento de pandemia é justamente esse grau de confiança e segurança que a gente tem que ter para sair de casa e se arriscar. Mas a gente não pode deixar de fazer o nosso trabalho.

A canção traz uma ideia de um romance sem compromisso e apego, de apenas curtir o momento. Na “vida real”, diferente de “Cafachorragem”, você está casado e com bebês em casa. Meus parabéns, inclusive! Mas, me conta, como é essa relação entre suas experiências reais e suas composições?
São dois mundos totalmente distintos. Carlos Eduardo é uma pessoa totalmente diferente do MC Du Black [risos]. Eu sou um cara mais tímido e sempre fui muito família. Conheço minha esposa há 12 anos – ou seja, eu a tenho ao meu lado durante a metade da minha vida. Esse tema de relacionamento aberto e de não se apegar surgiu, na verdade, por ver que o público jovem é muito intenso. Às vezes, a gente vê que algo deu certo entre um homem e uma mulher e já quer alguma coisa mais profunda, mas um dos lados sempre acaba se machucando. Eu não quis levar ao público que é proibido se envolver com sentimento, como eu digo na “Gaiola é o Troco” [risos], mas que é para lançar o papo reto à sua parceria ou parceiro. Tipo: “eu sei que está dando certo, mas vamos dar um passo de cada vez e se tiver de ser, vai ser, e se não for, a gente parte para a próxima”. Acabei lançando muitas músicas sobre pega e não se apega [risos], mas eu estou totalmente entregue ao meu relacionamento, sou um cara caseiro e amo ser casado. Eu até me divirto com essa diferença.

“Cafachorragem” é seu primeiro lançamento em 2021, depois de alguns meses sem música inédita. Podemos esperar mais trabalhos de MC Du Black? O que você está planejando para este ano?
Eu realmente senti que precisava parar porque não tinha cabeça e não estava em uma vibe boa para continuar. É a gente que tem que passar a felicidade pela música e se eu não posso passar isso para o público com verdade e sinceridade, acho melhor dar uma segurada até estar tudo tranquilo dentro de mim. Então eu precisei tirar esse tempo, mas, graças a Deus, as coisas estão voltando ao normal na minha vida particular e “Cafachorragem” é uma música muito animada. Sinto que posso passar essa animação para o público. Feliz ano novo para mim! [risos] Meu ano está começando a partir dessa música e eu não vou parar mais. Depois de “Cafachorragem”, a gente tem duas músicas para lançar: um feat com Sodré, que é um remix do single “Coração na Porta”, e o funk “Fogo Contra Fogo”, que ainda não posso contar detalhes. Só estamos definindo datas para entregar tudo neste ano. Também não quero ficar preso só no funk, então o que tiver de diferente para eu gravar, eu farei. Sempre quis testar e colaborar com pessoas de outros gêneros [musicais]. O que eu puder levar de entretenimento para todo mundo que está em casa neste momento, eu vou levar com alegria para a festa particular de cada um em sua casa, dentro de seu quarto, lavando sua louça, em seu fone de ouvido, que seja [risos].

E quais são os ritmos você gostaria ou planeja explorar de agora em diante?
A minha base para composição sempre foi R&B. Sempre que eu mostro as minhas composições, como a própria “Gaiola é o Troco” e “50 Tons”, para meu empresário e para minha esposa, eles perguntam: “e isso é funk?” [risos]. Aí eu falo: “a gente vai botar uma batida em cima disso e vai ficar um funk, pode acreditar” [risos]. Uma colaboração que eu quero muito fazer é com o pessoal do R&B, do lovesong, do rap, do trap. Eu sei que a pisadinha, por exemplo, está muito estourada, mas eu ainda não me vejo [fazendo músicas desse gênero]. Talvez eu possa me reinventar, jogar alguma coisa ali, já que está muito forte em todo o Brasil.

Com milhões de ouvintes mensais nas plataformas digitais, você e Kevin O Chris já emplacaram hits e dominaram playlists. Você chegou a ser considerado como a revelação do funk em 2019. Como tem sido essa experiência com o público e o que esse reconhecimento significa para você?
É sempre uma experiência muito boa, é o que segura a gente no nosso trabalho, é o que faz a gente não desanimar de compor e lançar coisas novas, é o que faz a gente querer colaborações com outros gêneros. Todo o calor do público que a gente perdeu por conta da pandemia, a gente recebe virtualmente. A gente está sempre mirando em vários públicos para fazer um trabalho que torne os dias deles mais felizes. Espero que este momento de pandemia passe para a gente poder receber logo isso pessoalmente.

Está sentindo saudades dos palcos?
Demais! Lembro que quando estava trabalhando com shows, eu só conseguia ficar dois dias em casa e falava: “ô, Deus, quatro diazinhos em casa, por favor, é tudo que eu te peço” [risos]. Aí acabamos entrando nesta pandemia e agora estou louco para voltar aos palcos. Mas eu sei que aproveitei tudo que pude, passei por estados que nunca imaginei pisar. Estou aproveitando bastante minha família, que era uma coisa que eu estava desejando, mas é claro que a gente morre de saudades e quer ter o melhor dos dois mundos. A gente quer poder estar em casa e estar na rua, trabalhando sem essa maldita doença espalhada.

Antes e durante a pandemia, o funk tem vivido um momento muito próspero em que artistas como o próprio Kevin O Chris e Anitta têm levado o gênero para fora do Brasil. Como você observa esse movimento de exportação? Você vê com bons olhos essa projeção internacional?
Acho que o Brasil é internacional. Os países ficam de olho em tudo que a gente faz aqui. Esse é um país referência e vitrine de muitas coisas, principalmente de música. A gente tem músicos aqui que são renomados lá fora, como a própria Anitta que você acabou de citar. No esporte, a gente tem Pelé, que o mundo todo conhece. Então eu acho que junto com isso vem o funk, como a gente acabou de ver no Grammy. Uma artista do tamanho da Cardi B está botando um funk nosso, de 150 bpm, para tocar. Então capacidade para isso… a gente tem de sobra. A gente tem um monte de camisa 10 no funk, mesmo jogando em posições diferentes. Acho que é questão de se juntar para fazer um trabalho bem legal e ter pensamento positivo, levando o funk a sério. Assim, a gente vai levando o nome do nosso país, do nosso estado, da bandeira do funk. Eu costumo dizer que essas coisas costumam acontecer organicamente. Cardi B ter dançado a música no Grammy? Pode ter certeza de que foi orgânico: ela sentiu vontade de fazer e fez. O funk tem muito disso. É claro que a gente tem que levar a sério, é claro que a gente tem que ter isso como meta, mas acho que vale trabalhar bem e deixar acontecer.

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