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Atração vai ao ar sempre aos domingos, às 22h (Foto: Divulgação/HBO)

“In Treatment”: Anthony Ramos fala ao Papelpop sobre Uzo Aduba, desafios de atuação e retorno da série dez anos depois

No piloto de “In Treatment“, série clássica da HBO, o psicoterapeuta Paul Weston encara sessões exaustivas com seus pacientes – embora nada se compare ao que acontece paralelamente em sua vida pessoal, que desmoronando pouco a pouco em meio aos acontecimentos profissionais. Sucesso dos anos 2000, a produção retorna dez anos depois para um “reboot” exibido nas noites de domingo.

Com algumas mudanças, a protagonista da temporada é a atriz Uzo Aduba, aclamada por suas interpretações em “Mrs. America” e “Orange is the New Black”. Na pele da Dra. Brooke Taylor e dona de um consultório em Los Angeles, ela trabalha junto a três pacientes no enfrentamento de diversos aspectos da vida moderna – entre eles, a pandemia.

No elenco também está o ator Anthony Ramos, que dá vida a Eladio – rapaz que trabalha como assistente de saúde na casa para uma família rica, enquanto também luta com os limites de seu trabalho e o medo do abandono.

No ar desde o último domingo (23), a nova temporada promete captar a atenção do público ao lado de outras estreias como “Mare of Easttown” e “The Nevers”. A fim de entender um pouco mais sobre este novo capítulo e os desafios de sua personagem, o Papelpop conversou com Ramos por e-mail. Os principais trechos desta conversa você confere abaixo.

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O que o atraiu no projeto e o que você sentiu ao ler o roteiro?

Anthony Ramos: Eu achei o roteiro muito profundo. Adoro a série e adoro esse personagem porque logo senti que havia muita conversa entre duas pessoas. Eu faço terapia há dois anos, é uma parte importante da minha vida e também estou fazendo virtualmente. Foi uma coisa forte que o meu personagem fosse o único com sessões virtuais. Adorei o desafio desse papel e dessa série porque é o próximo passo que quero dar para realmente me posicionar de uma maneira diferente. Este personagem tem vários aspectos, ele lida com a insônia e o abandono. Mora em uma casa com uma família que não gosta muito dele, mas nunca conheceu uma realidade melhor, então pensa algo como “ganhei um prêmio e não posso estragar isso”. A maneira como ele fala… ele também lê, que é algo que eu adoro.

Como foi trabalhar com a Uzo? Os personagens de vocês têm o vínculo mais forte, mas é tudo pelo computador.

A Uzo e eu nos conhecíamos de vista. Nós dois somos do mundo do teatro de Nova York, temos amigos em comum, então já estávamos familiarizados um com o outro. Isso era um fator de conforto, estava muito agradecido de poder contracenar com ela. A Uzo tem um grande coração, é sempre maravilhoso que a estrela da série pergunte como você está. Ela estava liderando a ação e tinha muito trabalho, e simplesmente fez tudo com graça e muito profissionalismo. Ela é fera, é inacreditável. Nós estávamos fazendo as sessões virtuais por um lado, mas quando eu estava no set com ela sentia aquela energia, era genial, em tempo real e na pele. Eu me lembro de ter dito em intervalos: “a sua força é inacreditável”. Uma coisa é fazer do jeito que estávamos fazendo, pela tela; outra era estar no mesmo espaço. Era uma loucura.

Você tem origem porto-riquenha, certo? Qual foi a importância para você de levar essa herança para a série?

Isso foi bom. O meu personagem foi escrito como colombiano. Existem muitas semelhanças entre as várias culturas latinas, mas ao mesmo tempo existem diferenças. Com o Eladio, eu interpreto um personagem parecido com as pessoas com as quais cresci em Nova York e isso foi demais para mim. Uma amiga que estava me ajudando a memorizar as falas dizia: “Ei, mano, parece que essa parte foi escrita para você”. Não foi, mas o papel me calçou como uma luva. Era importante que ele fosse latino e eu sentia que o vocabulário dele era legal. Às vezes ouvimos personagens com um jeito de falar parecido, mas autores que não são de onde eu sou vão escrevê-los “menores”, por exemplo, de modo geral ele não seria tão inteligente quanto outro personagem, ou tão culto. Mas o Eladio é cool. Ele é muito articulado. Eu adoro que esta série destaque e mostre ao mundo que não é porque viemos de fora que não podemos nos expressar.

Por falar nisso… O quanto de si mesmo você vê no personagem que interpretou?

Muito. Existe um estigma em torno da terapia, em especial na comunidade latina, especificamente entre os hispânicos. Foi engraçado quando eu disse a pessoas da minha família que estava fazendo terapia. Eles perguntaram: “O que está errado?”. Tem muita coisa errada… Mas acontece isso com a terapia: quando você vai, as pessoas fazem você sentir que tem alguma coisa errada “com você”. Mas não tem algo errado com todos nós? Sou grato por esse estigma estar diminuindo. Esta série pode realmente mostrar que, na verdade, terapia é para todo mundo.

O que mais gosta de “In Treatment”?

Sinceramente… da Uzo. Ela é incrivelmente fantástica e cria um clima muito confortável no set. Só boas vibrações. Nós sabemos que vamos fazer aquilo e que vai ser ótimo. Outro aspecto que eu adoro é poder entrar no diálogo como fazemos nesta série. Meus monólogos favoritos são os do segundo episódio, quando o Eladio tem um estalo. Ele entende o que a terapeuta está fazendo, não é idiota. Ele pensa: “Eu sou o apoio nessa casa, você acha que eu não sei? Não quero ficar limpando a piscina, estou aqui para cuidar do Jeremy. Eles me pagam apenas 12 dólares por hora, mas eu só sou bom nisso”. Adorei poder mergulhar nesse personagem, ir retirando realmente as camadas e fazendo descobertas ao longo da filmagem.

E como foi a sua preparação para viver o personagem?

Acho que a preparação foi na verdade o que eu já tinha vivido. Às vezes o Eladio faz referência a escritores importantes, então eu pesquisava quem eles eram. Também pesquisei o que as pessoas com insônia fazem, e aí comecei a pensar: “espera aí, eu tenho insônia?”. Acho que o principal foi me lembrar que esse cara não é uma pessoa, ele é “comunicativo” e até certo ponto muito bom. É quase como um quadro, e ele coloca esse quadro incrível nessa fachada para distrair do fato de que atrás dela há coisas profundas sobre as quais ele não quer falar. Mas você fica tão envolvido com as imagens e com como ele é articulado que nem pensa que por trás dessa fachada existem outras coisas que estão acontecendo com ele.

Esta série aborda diversos temas incríveis e amplos, como racismo, privilégios dos brancos, ignorância, dor, sexualidade e sexismo. Por que falar sobre isso é importante?

Acho que é importante porque são questões sobre as quais não queremos falar, principalmente em casa. Eu adoro quando a Quintessa aparece com a avó. A avó dela está explodindo e você pode ver o conflito da Quintessa e a relutância dela em falar porque já sabe que encontrará alguém que vai julgá-la. Mas ao mesmo tempo você vê a dor que alguém sente quando não pode se expressar plenamente, com honestidade e sinceridade. As pessoas sentem que serão julgadas, 1.000% antes até de terem terminado a frase. Acho que todos esses assuntos, o sexismo, o racismo, são abordados na série. Gosto muito disso porque é real. Por isso acho tão importante que as pessoas fiquem frente a frente, o mais desarmadas que puderem.

O que espera que as pessoas sintam assistindo à série? Por que devem assistir?

Espero que as pessoas se sintam encorajadas a buscar um terapeuta e a trabalhar nisso. É difícil, o primeiro terapeuta pode não ser a pessoa certa. Quando você vai a uma academia, por exemplo, você pode não gostar daquela, mas um dia encontrará a academia certa para você. Aqui é a mesma coisa. Às vezes você precisa conhecer dois, três profissionais até encontrar a pessoa com quem você terá sintonia. Mas, quando você começar a se aprofundar e a trabalhar realmente, vá em frente. A segunda coisa importante é se permitir ficar vulnerável o suficiente para de fato descobrir o que está acontecendo com você. Eu adoro isso nesta série. Há quatro personagens e a personagem principal, que está ajudando os pacientes, também será ajudada no quarto episódio – em geral não pensamos que essa pessoa precisa de ajuda. Espero que as pessoas encontrem um sistema de apoio onde possam falar sobre as coisas difíceis que enfrentam nas suas vidas e descobrir a coragem e a capacidade para trabalhar nisso, o que exige esforço e machuca.

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Os episódios de “In Treatment” vão ar sempre aos domingos, às 22h, mas também estão disponíveis na HBO GO.

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