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Com sonoridade glam, trabalho apresenta experimentos com funk, low tempo, 117bpm e poesia moderna (Foto: Aruan Viola)

Entrevista: NoPorn faz provocações e festa a portas fechadas em “SIM”, novo álbum

A elegância e o brilho já característicos do NoPorn marcam presença outra vez em “SIM”, terceiro disco da carreira lançado nesta sexta-feira (16). Trancado em casa, o duo formado por Liana Padilha e Lucas Freire abraçou as limitações de espaço e companhia virando do avesso conceitos como liberdade, desejo e fantasia. O que era caloroso e expansivo saiu de cena para dar lugar a uma introspectiva festa íntima, restrita ao próprio quarto.

Com 11 faixas inéditas, entre elas as já conhecidas “Geleia de Morango” e “Pérola Suja”, eles soam levemente melancólicos, ainda que sem deixar de sustentar as provocações de sempre. Ao pé do ouvido, fazem convites ousados, contam histórias e experimentam os sons da ditas “novas noites”, vividas em um país “quente e desgraçado”. São minicrônicas de amor e estranheza que exigem dançar desacelerado, lembrando a cada passo a necessidade de celebrar os muitos sabores da vida.

No ano em que completa 15 anos de estrada, o NoPorn falou ao Papelpop por e-mail sobre sonhos, pioneirismo e a esperança de poder querer mais. Sem temer.

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Papelpop: Já ouvi muita gente dizer que vocês fazem um som futurista e o futuro está, de fato, na última faixa (“Noites longe do Mar”), que fala sobre os anseios do corpo. O que queriam que esse disco significasse?

Liana: Jura? Que legal! Adoro que as pessoas achem futurista, porque é uma forma de dizer que acham atual, mas que não conseguem colocar o NoPorn numa categoria musical específica. Quando cadastramos as músicas, às vezes, também não sabemos qual tipo de som é e sempre marcamos vários. É electro, ainda, é triphop, que eu amo, é house, é música brasileira? Mas também é funk, indie, jazz, soul e um monte de outras refs que sem saber ficam na gente. E é para dançar. Desde o início eu vejo cada álbum do NoPorn como um livro com histórias do nosso tempo. Histórias íntimas de amor, de sexo, embaladas num som que faça com que você se mova, dance ou transe. O que a gente quer que esse disco cause? Que cause! (risos) “Noites Longe do Mar” é uma música de amor ao Rio de Janeiro, tanto eu quanto o Lucas Freire, viemos do Rio de Janeiro e somos embalados por maresia e sons de violão. O violão dessa faixa foi criado pelo músico e amigo Eduardo Verdeja numa visita dele aqui em casa.

Lucas: O disco significa a vida do NoPorn nos últimos 3 anos. Depois que eu entrei no grupo o processo de composição e as referências mudaram. Mas nos mantivemos tocando nas festas e festivais e em contato com o público, inclusive, trazendo material novo para os sets e sentindo a reação da pista. Juntamos esse contexto com o contexto que nós vivemos aqui em casa, cariocas no estúdio caseiro, na região central de São Paulo, procurando um lugar para fazer seu som e vivendo um dia de cada vez. O álbum aborda a nossa trajetória pelas noites, mas não só das noites de festa.

“SIM” também apresenta boas doses do que vocês chamam de “otimismo hedonista”. É um luxo ou uma necessidade se permitir sentir isso agora?

Liana: É um luxo necessário? Talvez a gente precise de uma dose de escape e “otimismo hedonista” para continuar criando. Eu sou escapista, ainda acredito na liberdade e acho que todos nós temos que buscar algum tipo de sonho, pra amadurecer sem ficar amargo. Principalmente agora nesse filme B que a gente vive. Do contrário a gente fica triste e apagado, e com raiva de quem tenta. E eu vou continuar tentando e me arriscando.

Lucas: Cada vida é uma vida, as pessoas ouvem música e se afetam por ela pelos motivos mais diversos. Se a nossa música transportar alguém para esse mundo do “otimismo hedonista”, eu ficaria feliz também.

Foto: Divulgação

O lance do romantismo urbano também está aqui. Desde que a pandemia estourou usa-se muito o termo “o amor nos tempos da Covid”. Ficou mais difícil amar nesses tempos?

Liana: Acho que vivemos tempos muito românticos, vírus mortais, governos opressores, tudo isso é muito romântico. Sair, amar, fazer sexo, ir numa festa hoje são coisas perigosas. Viver é perigoso e seguimos. Uma hora vai passar. A gente vai se reinventar e continuar amando porque é pra isso que existimos.

Lucas: É curioso que já tenham nos passado essa associação do álbum com o momento da pandemia algumas vezes. As músicas foram compostas antes do estouro da pandemia, mas elas têm uma infusão de sentimentos de isolamento, de intimidade e de uma nostalgia com o amanhã. São sentimentos que estão muito à tona para muita gente agora, mas não são novos e tampouco irão embora por completo.

Na faixa de abertura vocês fazem um questionamento, um convite para o ouvinte (Vou te chamar pra uma festa/será que você vem?). Quem vão chamar pra primeira festa pós pandemia?

Liana: Eu até evito pensar nisso, não sei qual vai ser a minha reação ou a das pessoas, acho que vai ser estranho.  Se é pra sonhar, queria fazer um show numa festa, tipo último episódio de novela, com todos os amigos felizes, dançando juntos. Não sei quanto tempo esse trauma vai durar. Nem as consequências, mesmo depois que todos estiverem vacinados. O futuro é agora e teremos que nos adaptar. Acho que a noite como conhecemos acabou, vamos ter que recriar tudo. O que menos importa agora é entretenimento, e o que nos salva é a arte. A noite morreu! Viva a nova noite, e que ela venha logo!

Lucas: Para essa primeira festa do futuro chamaremos todo o público do NoPorn e os nossos amigos.

O conceito de noites estranhas, mais até do que em relação aos dias, é expandido na ambientação do disco. Ele também aparece no clipe de “Pérola Suja”, que é uma homenagem à cultura clubber de São Paulo. O que há de mais encantador, o que mais atrai nessa ambientação?

Liana: A noite é estranha. Cheia de segredos, seres, histórias e mistérios. E sempre acaba, todo dia. Amo que a noite acaba e recomeça. Você pode ser quem quiser numa noite. Eu amo festas estranhas, no sentido plástico/divertido. A festa é uma obra de arte. A ideia da noite ser um filme em que tudo pode acontecer. Pérola foi criada porque em 2019 a gente fez uma série de shows nas noites do Coletivo Azagatcha na Casa da Luz em SP, o ambiente, o clima, as músicas, tudo lá era estranho e incrível. São Paulo já foi uma cidade com noites underground, mas no começo dos anos 2000 quando eu comecei a tocar, diziam que o underground tinha acabado e tudo tinha virado Mainstream. O NoPorn sempre foi do underground, do escuro, da fumaça e das luzes vermelhas. As Azagatchas são completamente esse espírito da noite estranha que é super SP. A gente amou tocar com elas e eu misturei a letra do Jackson Araujo com referências delas. Essa música é pras Azagatchas, mas é também pra Renata Bastos, Ebony Pinup, Bianca Exótica, Alma Negrot, João Tapioca, Pejana Rebu, Pandora, Carminha Gina, Marcelona, Aretha Sadik, Cláudia Wonder, Charlote Maluf e tantas outras que me acolheram, me ensinaram a me montar e fazer os outros felizes mesmo quando tristes. Somos Pérolas Sujas.

A própria “Pérola Suja” e “Leis da Física” podem ser vistas como sínteses de “SIM” por conta das experimentações. Vocês usam 117 BPMs, 124 BPMs, low tempo, reverbs… Lucas, como foi a pesquisa de som feita pra esse trabalho, o encontro das minúcias, as particularidades e a produção em geral?

Lucas: Nós usamos uma mistura dos sons que a gente normalmente associa à música eletrônica e às pistas com sons de um universo mais intimista e de recursos simples. Muitas músicas nasceram de jams em bateria eletrônica e teclado, outras de loops de baixo e melodias que a gente criava aqui no estúdio, estudando e experimentando. Algumas músicas surgiram instantaneamente, outras foram mais lapidadas, até refeitas. Nos permitimos testar vários sons e efeitos em cada música, algumas delas com sonoridades um pouco fora do repertório anterior do NoPorn. Mesmo assim abraçamos os novos caminhos e resolvemos nos entregar às dores e às delícias disso. Depois tivemos a etapa da mixagem das músicas, etapa em que convocamos o talentoso Gabriel Guerra (DJ Guerrinha, 40% Foda/Maneiríssimo) para participar. Ele trabalhou nas músicas sentindo o que cada uma pedia e conversando conosco, sugerindo ajustes em termos de compressão e reverbs, vocais, cortes, repetições, etc. Foi muito bom, ele captou a nossa intenção e nos devolveu um álbum muito próprio.

A Liana canta de um jeito falado muito característico. Como foi encontrar esse lugar, essa forma de cantar? É também uma forma de reverenciar a poesia declamada, não?

Liana: Eu fui criada numa casa que a poesia tinha um lugar muito especial, meu pai é poeta e desde pequena eu decorava poesia e escrevia muito, mas sempre falei do meu jeito. Acho chato coisas muito declamadas, muito decoradas, não gosto de rimas fáceis, acho até que não gosto de rimas, acho mais sincero falar no jorro de emoção que declamar, é o jeito que eu ouço na minha cabeça, às vezes vem tudo pronto. Acho que eu falo/canto como penso, com cadência e flow. Quando leio um texto já tem uma melodia nas palavras também.

Em “Baba Bombom” vocês decidiram trabalhar aliterações, uma figura de linguagem bastante específica. Como é pra vocês usar esses recursos linguísticos, experimentar novas métricas, rimas…?

Liana: Essa letra é do Tuti Giorgi, ele é poeta e arquiteto, e colabora com o NoPorn desde o primeiro álbum.
Gosto dessa letra porque fala de coisas humanas, coisas lindas e coisas nojentas, coisas estranhas ,mas que fazem parte de qualquer corpo. E termina dizendo que “Tudo é amor”. É o meu grito de: “deixem as pessoas serem o que quiserem e amar quem quiserem. Tudo é amor. Você pode ter um pau ou uma buceta, todos tem cu, é tudo amor mesmo.”

“SIM” é um disco que fala muito sobre nostalgia, esperança e desejos – todos temas que conversam de certa forma com a fantasia, com o próprio inconsciente. Qual é a relação de ambos com os sonhos?

Liana: O desejo é soberano. O desejo move tudo, causa festas e guerras. Nós começamos a fazer esse álbum e a vida já era difícil antes da pandemia. Então, a festa no quarto era uma ideia de que quando a vida tá difícil, a gente faz uma festa, mesmo que para um convidado só e no quarto. Depois, quando começou a pandemia, ela fez outro sentido. A nostalgia é pelo perfume que tinha no ar quando ele foi criado. Num momento de isolamento, caos político, medo e crise sanitária. Sem querer estamos todos nostálgicos. Qualquer outro tempo parece melhor que o agora. Eu não tenho lembrado muito dos meus sonhos, às vezes parece que as noites são a continuação dos dias, sempre iguais e diferentes, longas e curtas ao mesmo tempo. Mas tenho dormido bem e acordado cedo.

Lucas: Eu costumo ter experiências vívidas nos sonhos, agora neste ano de pandemia mais ainda. A mente está sempre ativa, buscando vias de aproveitar o presente que temos e também conceber algum futuro. Acho que é o que sempre esteve em pauta na mente humana, mas agora este momento de crise aflora tudo. O que posso dizer com certeza é que o álbum tem nele uma coleção de sonhos, alguns sonhos que já vivemos, outros que estamos vivendo e outros que apenas sonhamos.

“Uns brilham/conheço desde o começo/tenho que passar/quero ser vista”, diz a letra de “Praia de Artista”. E, de fato, o NoPorn brilha e é visto. Nesses 15 anos eu vejo as criações de vocês espelhadas em vários artistas que surgiram no encalço. Como se sentem tendo aberto caminho pra tanta gente?

Liana: Sempre amei música, decorava a sequência dos álbuns, tenho bom ouvido e queria cantar de um outro jeito,  sempre falei muito e ao contrário de várias pessoas, adoro ouvir a minha voz. Ao mesmo tempo, sempre escrevi as coisas que não conseguia falar. Acho que encontrei uma forma particular de cantar que é falado, como o rap ou o repente nordestino. É uma história e tem um texto corrido, como uma notícia ou conto de fadas. Abrir caminhos é sempre bom, sempre fui mais musa que vampira. Às vezes as pessoas nem sabem que se inspiram em você. Às vezes disfarçam, “fingem que não te conhece”, como em “Praia de Artista”. Eu também me inspirei em artistas foda que falam nas suas músicas, Serge Gainsbourg, Julio Barroso, Laurie Anderson, Rita Lee, Marina Lima, já fizeram isso. Vinícius de Moraes, Caetano e Maria Bethânia, que meus pais ouviam em casa, também falavam sobre músicas. Mas o NoPorn começou realmente numa das noites loucas do começo deste século, a gente se sentia tão livre e hedonista que a festa que começamos lá, ecoa até agora. Começou comigo falando meus textos nas bases do Luca Lauri, quando a gente era DJ. É um canto falado, em português que é uma língua linda, não importa muito o jeito que você fala mas do que você fala. E o assunto do NoPorn, ao menos pra mim, é inesgotável.

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“SIM”, novo disco do NoPorn, está disponível em todos os tocadores. Ouça no seu favorito.

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