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Em "Calambre", elogiado álbum de estreia, artista versa sobre questões femininas (Foto: Divulgação)

Entrevista: o hip hop “para nenas” de Nathy Peluso

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Em novembro de 2020, Nathy Peluso foi a única mulher argentina a se apresentar no Latin Grammy. Entrou em cena sozinha, caminhando pela cúpula vazia do Centro Cultural Kirchner (CCK), um dos mais tradicionais pontos turísticos da capital portenha.

Sucesso do disco “Calambre” (2020), “Buenos Aires”, a faixa, ecoa como uma espécie de afirmação da melancolia que envolve a cidade nos meses de inverno. Ao trazer ainda como acompanhante a lenda do rock Fito Páez, acaba sendo também um resgate de outras eras.

O número da vez, uma combinação de patrimônios nacionais como o rock, o tango e o teatro, comoveu entre outras pessoas seu pai, que assistia a cena de casa. “Me lembro da primeira vez que mostrei a música para ele. Acho que se emocionou porque despertou uma sensação parecida com a que tinha, na minha idade, ao escutar o rock clássico, nacional”, conta, em entrevista por ZOOM ao Papelpop. “E também porque é a música mais delicada e amável do álbum, claro”.

Começa a me incomodar o frio que faz na cidade/não paro de postergar alarmes no despertador“, diz um dos versos. Aos 26 anos e bem-humorada, a cantora revela que esta não é a única coisa capaz de lhe provocar inquietação. “Eu queria poder dormir mais, sinto muito sono, sabe? Mas não posso fazer isso sempre… É uma pendência que vou ter que resolver um dia, quando sair de férias”.

Ela faz por onde ser reconhecida como um dos maiores fenômenos artísticos dos últimos anos. Peluso, que despontou em 2017 com o single “CoraSHE” e aparições em festivais como o Primavera Sound, é uma compositora afiada. Como quem conta as próprias peripécias, brinca com as palavras para declarar insubordinação. Até mesmo na faixa “Agárrate”, uma mistura de beats e bandoneón, sua vulnerabilidade dura pouco.

Fã de João Gilberto, Atahualpa Yupanqui e Ella Fitzgerald, a artista se volta com frequência para os conterrâneos a fim de mostrar que é grata pelo que aprendeu, mas que, sobretudo, quer passar algo adiante. Seu hip hop para nenas (hip hop para meninas, em tradução direta) entrega rimas bem articuladas que soam como uma tentativa de se conectar com o agora.

“É verdade que houve um momento da minha vida em que não me sentia parte de nada. Não me entendia muito bem”, diz. “Depois fui me sentindo parte dessa geração, fui enxergando um grande aprendizado nisso de tentar comunicar algo. Foi assim que aprendi a equilibrar as coisas e deixar de me sentir tão atraída pelo passado. Inevitavelmente, tento reciclar aquilo que admiro vindo de gerações anteriores e da própria arte deixada por essas pessoas. Mas, sempre mirando em uma perspectiva atual”.

Prada + bobs

Dessa fusão interessante surge uma estética visual muito própria. O guarda-roupa de Peluso reserva um estilo que é, principalmente, pautado por tendências da moda urban e um estilo sportwear. Não faltam peças de jeans, mini shorts e moletons largos. Unhas extravagantes, bem como vestidos de lycra e blusas com mangas bufantes são presença certa.

Por último, mas não menos importante, ela também é adepta confessa de perucas – um símbolo de poder no hip hop. Cuidadosa com os fios, diz manter uma rede de cabeleireiros próximos por onde passa.

“As perucas tomam cada vez mais espaço no meu trabalho porque me dão o poder de me transformar em várias outras mulheres. Tenho bastante cuidado com elas, alguns cabeleireiros já são até meio que melhores amigos, me mimam por onde passo. Fui criando uma rede nômade, de gente que me ensina coisas novas pelas cidades em que fico. Barcelona, Buenos Aires, Miami”. 

É sob essas várias personalidades que “Calambre” se mostra um disco incomum. Com produção de Rafa Arcaute (15 vezes vencedor do Grammy, colaborador frequente de artistas como Aterciopelados, Calle 13 e Jorge Drexler), as novas faixas acabam não tendo muita liga entre si, mais parecem singles reunidos. Por outro lado, é graças a essa diversidade que se serve uma salada inesperada de latinidades.

Aqui, o ouvinte tem acesso a um mix que passeia pelo trap, R&B, reggaeton, salsa e tango. Do rap, que lhe dá papel e caneta para criar um discurso combativo e dono de si, Nathy aproveita a oportunidade pra dizer, entre outras coisas, que não há problema em ter um corpo natural, livre de artifícios.

“Para mim é uma benção enorme ser o ponto de fuga de alguém. Sobretudo, por inspirar as mulheres que, afinal, são minhas companheiras. Sinto que, enxergando-nos comunidade, todas nós aprendemos um bocado”, explica. “Essas abordagens não foram planejadas, fui encontrando isso na hora de escrever minhas letras, de me comunicar com o outro. Não é super lindo o exercício de aprender?”.

Por falar em aprendizado, apesar de ter abandonado no segundo ano o curso de Teatro na Universidade Rei Juan Carlos, em Madrid, a cantora alimenta uma relação muito saudável com a dança e as artes visuais. Isso se vê de forma clara nos clipes, marcados por coreografias intensas, bem elaboradas. “Delito”, fruto de uma história de amor que mais parece um toma lá, dá cá, é o mais recente.

Sem falsa modéstia, destaca a importância de reconhecer o quanto é boa naquilo que faz. “Eu acho que tem gente que não consegue expressar sentimentos, outros vão fazer isso com exagero. Às vezes as pessoas confundem ser autoconfiante com ser competitiva, egocêntrica, são coisas distintas. Você tem que conviver bem com a ideia de que está tudo certo gostar de si mesma, se cuidar e se admirar. Está tudo bem em reconhecer o que sabe fazer. Se você é uma garota, vá explorar isso, se supere”.

Para Nathy, mulheres formando uma frente ampla seriam a receita mais eficaz para conquistar o sucesso e vencer o machismo. “Nós temos que ser melhores amigas. Se não apoiarmos umas às outras, se não dermos as mãos, será difícil que alguém o faça. Acho que a confiança, a fé, e a esperança são necessárias para triunfar consigo mesma. Caso contrário, esse mesmo triunfo se mostra pesado, severo”.

CoraSHE

Nas redes sociais não é difícil encontrar fãs que façam comparações entre Peluso e colegas como Rosalía e Selena Quintanilla (1971-1995). Enquanto fala, a artista não faz questão de esconder os trejeitos, característica de um sotaque típico da região do Río de la Plata. Ela diz ter seus mecanismos para lidar com os haters e que a ideia de encarnar uma personagem dentro e fora do palco, como muitas vezes a acusam, não parece fazer muito sentido.

“A verdade é que nunca senti medo dos estereótipos, nem mesmo me vejo como uma mulher estereotipada”, afirma. “De fato, romantizo um pouco essa coisa de ‘quebrar’ estereótipos, mas é mais no sentido de começar novos ciclos, de brincar com as ironias existentes. Eu me deixo levar enquanto criadora e a vida vai colocando essas coisas em ordem de prioridade. É genuíno e eu acho que faço meu trabalho dando mais peso ao que há no coração do que o que deseja a cabeça”.

Conto sobre o Big Brother Brasil e a incursão de celebridades nas edições mais recentes. Pergunto ainda se não tem medo da cultura do cancelamento. “As redes sociais, embora sejam muito inspiradoras, não são lá amáveis com o ser-humano, não são empáticas”, diz. “Eu me mantenho agarrada aos meus princípios, ligada na minha intuição, ao que posso manter intacto, porque isso não deixo manchar com o ódio. É preciso se colocar no lugar do outro também, me parece que os artistas tem que permanecer puros hoje em dia. Isso não significa que não possamos aprender com nossos erros”.

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