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Bea Miller fala ao Papelpop sobre novo EP, criatividade na pandemia e anseios pro futuro

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Em julho de 2019, a cantora estadunidense Bea Miller lançou o single “feel something”. A faixa a alçou ao mesmo patamar de nomes fortes no streaming como Halsey e Melanie Martinez. Sempre se destacando pela honestidade contida nas letras, ela versa sobre dramas adolescentes que vão desde uma simples curtição com os amigos a acenos para uma atitude feminista que dialoga com ideais feministas.

À época do lançamento de “feel something” não dava pra imaginar o quanto a letra poderia tomar novos significados após a expansão da pandemia. “A gente não tem recebido estímulos pra além de nós mesmos, então fica difícil de se sentir muito feliz, ou até muito triste”, diz. A nossa entrevista com a artista você lê abaixo.

PAPELPOP – Muita coisa tem acontecido, né? Como você vê sua cabeça agora em comparação a quando escreveu “Feel Something”?

BEA MILLER – Hm… é bem interessante que “Feel Something” esteja tendo esse sucesso do nada, um ano depois do lançamento. Acho que ela é bem certeira sobre o que muitos de nós tem sentido por agora. A gente não tem recebido estímulos pra além de nós mesmos, então fica difícil de se sentir muito feliz, ou até muito triste. Sinto que muitos de nós está preso nesse lugar estranho ultimamente, sem muita coisa realmente acontecendo, então não temos como nos conectar com nada emocionalmente. O doido é que escrevi essa música muito antes de saber que tudo isso aconteceria. Então eu diria que é um tanto frustrante o fato de que quando escrevi a música, já há uns dois anos, pensei que não me sentiria assim de novo tão cedo. Porque sempre fui uma pessoa bem emotiva. Me senti muito desconectada vivendo essa longa fase na qual não se sinto feliz nem triste. Eu via gente rindo ou chorando, qualquer coisa, e eu só não entendia. Me sentia muito longe. Não sei o motivo, mas aí escrevi essa música pensando que logo tudo passaria e eu não me sentiria assim de novo tão cedo. Mas agora, claro, estando trancada em minha casa sozinha por tanto tempo, comecei a passar por isso de novo. Acho que já tenho experimentado isso já faz alguns meses agora. No começo da quarentena, tentei entender o que estava acontecendo e me senti muito triste, assustada e estressada. Mas com o tempo me adaptei e comecei a me sentir mais “hm”, neutra. Como a música do nada começou a ir tão bem, imagino que todo mundo também esteja se sentindo assim, essa falta de emoção. Então pelo menos não estou sozinha!

Nesses últimos meses, você sentiu a pressão de criar coisas que tivessem uma mensagem pra ajudar os outros?

Interessante você perguntar isso! Tenho me sentido pressionada a criar, em geral ultimamente. Porque parece que não tem uma desculpa pra eu não estar criando, se não tenho mais nada pra fazer. Mas o problema é que só sei fazer as coisas direito se eu tiver algo que está me pressionando, me inspirando e me fazendo querer criar. E ultimamente não tenho me sentido inspirada porque não tem nada de novo na minha vida. Não tenho visto meus amigos ou minha família, ou feito shows, ou experiências românticas… nada. Não aconteceu nada. Então só poderia escrever sobre como tenho me sentido pelo mundo, mas acho que as pessoas não precisam ouvir mais disso por agora. Estranhamente, acho que estamos todos expostos às notícias, às notícias ruins, e elas têm me feito sentir muito pior. É muito frustrante estar ciente de tudo. É bom saber o que está acontecendo e é negativo, mas também é cansativo e triste. Então se eu escrevesse músicas nesses últimos meses, seria mais uma coisa sobre isso e não acho que ajudaria alguém, honestamente. Aí ao mesmo tempo que tenho essa pressão em criar algo nesse tempo livre, também sei que o que eu poderia dizer são coisas que já sabemos. Não acho que ninguém precisa saber mais sobre isso.

Por onde você te estado nesse momento de quarentena?

Estou em Los Angeles, então no início nos saímos bem e entrar em quarentena logo antes de outros estados dos EUA, mas agora nossos números estão crescendo muito rápido. E fico “por favor, não quero ficar doente”, trancada na minha casa. Não tem sido divertido.

“That Bitch” é TUDO. Você sente que, como essa, as próximas canções vão ter mais atitude, ou vão por um caminho mais introspectivo?

É um pouco dos dois. É importante, pra mim, expressar tudo que eu estou sentindo no momento que estou componho. E estou constantemente sentindo coisas novas quando posso sair por aí e viver a vida. Sempre que vou ao estúdio, tento focar em algo diferente do que foquei na vez anterior. Em alguns dias, me sinto mais “That Bitch” e em outros estou mais “Feel Something”, então depende do meu humor de toda vez que vou ao estúdio. Acho que duas [das novas] músicas são mais introspectivas e quase tristes, bem reflexivas sobre mim mesma e meus sentimentos. Mas também tem outras que são sobre minha interpretação do mundo e de outras pessoas, do que vejo ao meu redor. Não tem uma música que seja realmente de amor, porque só senti que esse não era um tema importante na minha vida enquanto escrevia. E também porque sinto que não é necessário falar sobre isso agora. Tem tantas outras coisas acontecendo que a gente devia estar discutindo e é nossa responsabilidade, como compositores e músicos, falar sobre essas questões que vemos no mundo. Então as músicas vão ser bem introspectivas ou sobre como vejo o que está acontecendo ao meu redor.

Com todas essas faixas ficando prontas, a gente pode esperar um álbum novo?

Vai ser para um EP. No início queria lançar um álbum, mas com o passar desse tempo percebi que as coisas que eu queria dizer mudaram. Então algumas das canções que tinha escrito para o álbum do nada começaram a não me interessar mais. Não senti que era importante ter a mensagem delas e dizer aquelas coisas, especialmente agora com tudo que está acontecendo. Não sinto que as coisas que queria dizer originalmente com esse álbum são apropriadas ou necessárias. Então decidi escolher aquelas que ainda tinham relevância pra mim e provavelmente para todo mundo neste momento. E essas são as que entrarão [no projeto].

Você tem estado na indústria da música há oito anos agora, desde quando tinha 13 anos. Você consegue ver quais são as melhores e as piores partes de estar nesse metiê desde tão cedo?

Diria que a parte boa é que a este ponto já cometi muitos erros e fico feliz de já tê-los tirado do meu caminho, sabe? Se eu tivesse começado há dois anos, eu ainda estaria cometendo esses erros. E é claro que a gente consistentemente erra provavelmente durante toda nossa vida, mas sinto que já aprendi muita coisa do jeito mais difícil e me sinto aliviada de que isso já tenha passado, não tenho que me preocupar mais com isso. E também estou numa idade na qual estou observando meus amigos, porque no passado eu tinha inveja deles. Eles ainda tinham que ir pra escola, ter vidas normais e podia se divertir, enquanto eu estava trabalhando o tempo todo. Isso me deixava meio brava quando eu era mais nova, até sentia um pouco de ressentimento com eles. Mas agora muitos deles estão terminando a faculdade e tentando achar empregos, ou estão voltando pra casa dos pais, e eu fico “haha!”. Agora me sinto muito bem pelo fato de que tenho trabalho tão duro por tanto tempo, que posso ter meu próprio apartamento numa idade jovem, posso me sustentar e cuidar de mim mesma sem me preocupar com tentar descobrir o que quero fazer da minha vida, que é o que meus amigos estão tentando fazer por agora. Acho que essa é a parte boa. Já a ruim, acho que também entra no que acabei de falar, porque sinto que perdi muitas experiências de seres humanos normais. Não fiz o ensino médio ou uma faculdade… não fiz muitas coisas estúpidas que queria ter feito, porque tive que ficar responsável muito cedo e tomar conta da minha família e de mim mesma. Queria ter feito as bobagens que os adolescentes podem fazer. Eu não cheguei a ter os erros, como humana, que as crianças e adolescentes geralmente comentem, porque me sentia muito responsável o tempo todo. Às vezes, ainda fico chateada com isso. Ouço meus amigos contarem histórias de coisas muito estúpidas que eles fizeram, mas parecia divertido, uma parte de estar crescendo. Então às vezes penso sobre como uma parte da normalidade de estar crescendo foi tomada de mim, mas também tento focar nas partes positivas. Pelo menos me sinto feliz com como e onde estou agora. Tinha coisas no meio do caminho que eu queria que tivessem umas pausas, mas tudo bem.

Aliás, você fez 21 anos esse ano, né? Deve estar sendo meio complicado finalmente poder sair pra beber e não poder!

SIM!!! EU SEI! Penso nisso a todo momento! Eu sou a mais nova de todos meus amigos e eu realmente nunca tive um RG falso, porque achava meio estúpido e também sou uma mentirosa muito ruim. Então eu ficava “se eu disser pra alguém que tenho 21, eles vão saber que estou mentindo”, então nunca fiz isso ou saí. Todos meus amigos são uns anos mais velhos que eu, então eles têm saído há anos e eu estava muito animada que, como a bebê do grupo de amigos, eu iria fazer 21 anos e ia poder sair com eles nos finais de semana, fazer umas coisas doidas, mas aí… um mês depois de eu fazer 21, o mundo inteiro se isolou! Hahaha é muito frustrante.

E o que você tem ouvido enquanto fica em casa?
Tenho escutado Oliver Tree muito! “Ugly is Beautiful” é o disco do ano, estou muito animada com ele. Tenho escutado quase todo dia. Ou até o álbum mais recente do Harry Styles [“Fine Line”], eu ainda escuto muito mesmo já tendo passado todos esses meses. E também estou voltando pra muitas das músicas que ouvia quando era mais nova, tipo The Neighbourhood, o álbum “I Love You” deles é um dos meus preferidos da vida e voltei e ouvir muito recentemente… estou escutando umas coisas mais devagar e menos animadas na maior parte do tempo, porque é meio como tenho me sentido. Estou tentando ficar mais animada com os lançamentos de agora, mas também fico nesse lugar meio estranho de estar sem energia pra investir nas coisas, tipo assistir a novos filmes. Tenho visto muita coisa que já vi, ou escutado coisas que já conheço, porque estou nessa sensação meio estranha. Tem umas coisas novas, tipo o disco do Oliver Tree, mas na maior parte do tempo, estou voltando pro passado e ouvindo as coisas que sempre gostei!

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