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Entrevista com Rita Lee: “Eis-me aqui, uma velhinha porreta e feliz”

Nas manhãs de domingo, durante o banho de sol, o desejo de ser como Rita Lee se intensifica. Repetir versos como os de “Baila Comigo” ou “Nave Terra” não significa apenas ser saudoso em relação a uma das discografias mais geniais da música brasileira. É também entoar um mantra de paz e sabedoria, agarrando-se ao sonho de, quem sabe um dia, viver feliz no meio da natureza.

Quando decidiu deixar os palcos há 8 anos e dar início a um isolamento autoimposto, Rita e o amor, Roberto de Carvalho, deram início a uma rotina de cuidados com a casa, a horta e os muitos bichos que tem. Diz-se hoje uma velhinha “porreta e feliz”, que ora se assemelha à figura da avó contadora de histórias, ora à feiticeira loving the alien.

O que não muda nunca na Mãe do rock é o fato de que segue firme na tarefa de transformar as próprias criações em um portal para a felicidade. Está vivo também o desejo de conduzir fãs de todas as idades à chave de um conhecimento fantástico contido em canções, contos e histórias.

Um desses casos é a saga do ratinho cientista Dr. Alex. A série infantil que leva o nome do personagem ganha em setembro a reedição de mais dois volumes – um prato cheio aos olhos dos pequenos. Os livros chegam pelo selo Globinho, da Globo Livros, e trazem de volta a Vovó Ritinha, importante figura de “Amiga Ursa” (2019). Aliás, é com eles, os animais, que a autora mais diz se conectar. “Com meus bichos, aprendo o amor desinteressado, levamos altas conversas telepaticamente”.

Quem pauta as histórias mais uma vez é a temática ambiental, presente em seu discurso desde os anos 1970. Em “Dr. Alex e o Phantom“, Rita se alia às ilustrações de Guilherme Francini para narrar a odisseia de um cristal mágico, único no mundo. É em torno de seu desaparecimento que a aventura se desenrola.

No volume seguinte, “Dr. Alex e os Reis de Angra“, os personagens mergulham no universo da princesa Angra, sequestrada por seres perversos que desejam acabar com a natureza. Surge aí uma luta para barrar a construção de perigosas usinas nucleares no reino destronado. Trazendo entre outras referências James Dean e David Bowie, ídolos da autora, Quihoma Isaac é quem assina as ilustrações.

Na internet, os trabalhos são recebidos com alegria. Ao ganhar novos contornos, a obra de Rita faz com que os fãs se reciclem e uma porção de tributos surja pelas mãos de gente jovem, gente do futuro. Basta abrir as redes sociais para encontrar vídeos raros, compilações de tuítes ou mesmo textos emocionados sobre alguma pérola de sua discografia – muitas delas, aliás, lançadas quando a maioria sequer era nascida. Pergunto a ela por que acha que isso acontece. “Talvez por eu não ter sido fabricada em série”, diverte-se.

Sobre o presente, bichos e por que não, discos voadores, ela fala na entrevista a seguir, feita por e-mail from sua Nave Mãe.

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Papelpop: Como é para você falar sobre assuntos tão sérios e necessários, na série “Dr. Alex”, e deixar tão interessante para a criançada?

RITA LEE: Guilherme, querido… Eu, como avó sou um misto de Dona Benta com Dercy Gonçalves e quando invento historinhas para os meu netos (nos anos 80 era para meus filhos pequenos) procuro falar sobre a mágica do reino mineral, vegetal e animal, que vem sendo destruída por gente que só pensa em dinheiro. Eles depredam a Natureza e deixam a Nave Mãe Terra doente.

No livro “Dr. Alex e o Phantom”, você fala de um cristal mágico… O cristal Phantom existe de verdade? Ele fica com você?

Na verdade, tenho vários Phantoms. Mas um é especial: dentro dele dá para ver três almas holográficas, uma emergindo da outra, é emocionante. Da minha coleção, dei um Phantom para David Bowie no início dos anos 90 e um para a Brigitte Bardot no ano passado.

“Phantom” tem participação dos “primos das estrelas”. Você avistou discos voadores durante esse tempo de pandemia?

Outro dia avistei um aqui onde moro, no meio do mato. Ficou parado no céu olhando e num milésimo de segundo, vupt, sumiu. Em outros tempos, ocasiões e lugares, cheguei a ver três deles em perfeita formação triangular. Uma vez, avistei vários dançando no céu da Chapada dos Veadeiros. Na região de Brasília há muitos (avistamentos). Você já notou a enormidade de avistamentos durante essa pandemia? Very interesting

No “Phantom”, você termina o livro se transformando numa fada (a cena é maravilhosa!). Vem um spin-off por aí? Podemos esperar um livro da Fada Ritinha & Dr. Alex?

Certamente dariam boas aventuras… Gracias pela dica.

Aliás, os livros estão bem cuidados, com ilustrações lindas…

O mérito das ilustrações é todo de Guilherme Francini e de Quihoma Isaac, cada um com seu estilo de desenhar. Francini é o clássico fofo e Quihoma é o psicodélico.

Em Dr. Alex e os Reis de Angra, você fala de um reino com uma princesa que representa a natureza, com sereias douradas… esse reino é desrespeitado pelo bando sinistro. É uma ótima maneira de colocar, para as crianças, o que acontece com a natureza, com tanto desrespeito.

É um tremendo mau gosto e um perigo construir usinas nucleares ao lado daquele paraíso. E crianças aprendem a respeitar os animais com o exemplo dos adultos. Então, contem às crianças que bichos em zoológicos estão confinados, não por meses, mas por toda a vida a viverem presos, longe de seus habitats naturais. Contem também que os bichos são seres vivos como nós, sentem dor e medo, e não podem ser tratados como objetos. Criança se parece com bicho, temos que dar voz a eles. Crianças e bichos são constantemente vítimas de abusos por gente que deveria estar presa.

Esperava tanto sucesso com o “Amiga Ursa”?

Crianças gostam e se comovem com histórias verdadeiras. E o livro traz uma história real. Elas não são bobas e veem o que acontece com os bichos. Tenho a esperança de que a garotada de hoje sejam adultos que tratem com respeito e carinho os animais.

Sinto muito pela perda da sua gata Sophia… Ela tem uma linda aparição no “Phantom”, numa ilustração em que aparecem apenas você e ela…

Eu ainda estou chorando pelos cantos e vendo os lugares onde Sophia costumava ficar. Sinto falta principalmente quando me sento e ela pulava no meu colo no ato. Sophia foi minha guardiã e companheira durante 25 anos. Foi, até o fim, uma figura sagrada e amada. Nosso plano era sermos enterradas juntas, igual faraó.

O que recebe de ensinamento de seus bichos?

Com meus bichos, aprendo o amor desinteressado, levamos altas conversas telepaticamente. Eles entendem na hora se estou triste ou se estou contando sobre o que me preocupa. Se estou escrevendo ou tocando, eles nunca me deixam só. Com animais, em geral, sinto e vejo a presença do Divino.

Como seria a vida/a quarentena sem eles?

Pior do que esse maldito vírus.

Você é uma artista muito atual, seu público se recicla naturalmente e os jovens sempre acabam se conectando com sua música. Por que acha que isso acontece?

Talvez por eu não ter sido fabricada em série (risos).

Como é a vida da Rita Lee, hoje?

No meio do mato, cercada de plantas e de bichos. Quando fazia shows, eu adorava a agitação de Sampa, o cheiro de gasolina, as pichações, a vida noturna, bundar no planetário do Ibirapuera, ver vitrines, visitar amigos esquisitões… Nunca fui um bom exemplo, mas sou gente fina da turma da luz.

É verdade que você não compra roupas há tempos?

Meu sótão é praticamente um brechó, quando quero aparecer com estilo, vou lá fuçar e acabo encontrando roupas que saíram de moda e voltaram com tudo. Ou uma peça que usei num show e que agora visto no dia a dia por pura brincadeira.

Uma gravação de Perto do Fogo, ao vivo, de 1991, ganhou a internet e acabou se tornando viral. Você fala de 2020 em um cenário caminhando para um planeta sem florestas, sem índios, se questiona até se a gente vai sobreviver… Os internautas veem nisso uma premonição. O que acha de ter acertado a “profecia”?

Acho que foi um sopro do meu anjo da guarda, o santo que baixa quando a gente está compondo. Aliás, meu anjo da guarda é competentíssimo. Basta ver que depois de tantas ousadias perigosas em que me meti durante minha vida toda, eis-me aqui, uma velhinha porreta e feliz.

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