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Jup do Bairro lança o potente EP de estreia “Corpo Sem Juízo”; leia nossas impressões

Finalmente! Jup do Bairro entregou nas primeiras horas desta quinta-feira (11) o EP “Corpo Sem Juízo”, trabalho que marca sua estreia oficial com trabalhos de estúdio. Gestado ao longo dos últimos anos, o projeto conta com 5 faixas que nos conduzem por uma viagem imersiva e intensa ao universo criativo da artista.

Antes de dar à luz as canções que chegam, a artista criou uma fiel comunidade de fãs ao lado da também cantora e atriz Linn da Quebrada, com quem colaborou no álbum “Pajubá”. As duas também apresentam juntas um programa no Canal Brasil chamado “Transmissão”, no qual entrevistam diversas personalidades. Glória Groove, Paolla Carosella e Nátaly Neri já passaram por lá.

Entre os palcos do Brasil e da Europa, onde costuma se apresentar ao lado da amiga Linn em festivais importantes da cena alternativa, Jup foi trilhando uma jornada de amadurecimento. Foram a comunhão ímpar de referências, estudo da própria arte e da sociedade a qual está inserida os responsáveis pelo que chegar neste 12 de junho de 2020. A data marca o nascimento daquele que é, sem dúvida, um dos trabalhos mais consistentes já lançados no ano.

São mergulhos longos e densos nas reflexões da cantora, que fala sobre vivências, liberdade sexual e seus mais íntimos sentimentos. “Corpo Sem Juízo” tem produção de Badsista, artista reconhecida na cena eletrônica internacional, e colaboração de Felipa Damasco e Pininga. Estamos dando play agora!

As nossas impressões, faixa a faixa, você lê abaixo.

“Transgressão”

Para tudo o que você tá fazendo e só sente. Esta é a introdução ao universo etéreo de Jup, que logo de cara nos apresenta uma percussão com texturas eletrônicas. A letra brada a frase “Me deixa voar”, expressando a vontade da artista em encontrar os próprios meios de viver. Mais do que isso, colocar em prática sua transgressão. No fim da música somos tomados por uma paisagem sonora que mescla vozes. Poderoso.

“O Que Pode Um Corpo Sem Juízo?”

Jup é uma artista potente. Quando está no palco nossos olhos se fixam apenas em sua presença. No estúdio o foco se direciona para as letras, que nos pegam de maneira grudenta – no melhor sentido da expressão. Em “O que pode um corpo sem juízo?” a composição é recitada e apresenta rimas e artifícios de poesia concreta, como o jogo entre as palavras “abjeto”  e “objeto”. Fala sobre como nos construímos a partir de elementos e influências dos respectivos contexto social. É bem um manifesto, um grito pelas liberdades individuais e do corpo.

“Pelo amor de Deize”, com Deize Tigrona

A musa do funk Deize Tigrona é uma referência. Fez história nos anos 2000 e agora retorna, mais bárbara do que nunca. Ao lado de Jup, Deize se mostra ainda mais ousada porque ao invés de entregar um funk como a maioria esperava (ou mesmo um proibidão), acaba se jogando no ROCK! “Pelo Amor de Deize” é agressiva, tal qual a essência do heavy metal.

Junto à letra, soa como um empurrão motivacional sobre achar forças pra vencer todos os obstáculos. É um despertar. Conta com um áudio real trocado entre as duas, marcado pela vulnerabilidade. É uma música honesta, de fácil identificação. Dá esperança.

“All You Need Is Love”, com Rico Dalasam e Linn da Quebrada

Essa já conhecíamos. Foi lançada como o primeiro single do EP e veio de forma muito certeira. É uma ótima espiada no universo do trabalho como um todo, tanto em termos de som, quanto em temática. A faixa, que é a primeira colaboração do trio, fala abertamente sobre desejo. Sobre querer ser percebida como mais do que um corpo objetificado. Levanta um questionamento sobre as vivências marginais de corpos pretos e gordos no amor, que diante dos padrões sociais pré-estipulados ficam à margem, sendo dificilmente considerados como opções para o amor e o afeto.

As referências são sensacionais. A letra flerta abertamente com SampaCrew, Bjork, Lana, Slipknot e Mc Lan. Não é só uma música sexy pra pegação, é também uma reflexão sobre como construímos nossas atrações. É um funk de texturas eletrônicas que faz imergir, assim como acontece no clipe, dirigido por Rodrigo de Carvalho, velho colaborador de nomes como Mc Tha e Jaloo.

Pode botar tudo, bota”. São com versos diretos assim (e, honestamente, gatilhos enormes em meio a uma quarentena hahaha) que Rico Dalasam, de uma forma que só ele mesmo poderia, marca presença no trabalho. Ele brinca construindo uma ponte entre o rap e o pop, algo que sabe fazer muito bem desde 2016, quando chegou às plataformas “Orgunga”, trabalho que o deixou mais conhecido na cena queer. Os vocais da Linn, por sua vez, preenchem a canção com uma suavidade única, que se soma a camadas e dobras de voz. Não tem como não se apaixonar por essa música.

“O Corre”

Vibe anos 90. A gente AMA! “O Corre” fala sobre as dificuldades de uma vida pobre e periférica. Traz uma personagem que realmente precisa fazer o rolê acontecer pra ter o prazer de dizer que conquistou o que precisava e o que queria. Muita gente vai se ver aqui, especialmente porque há muita entrega de Jup nos vocais e nas letras, que transitam entre o um lado mais dramático e o cômico de uma forma muito fluida. É bom lembrar com orgulho de todo o perrengue que foi vivido, né?

“Luta Por Mim”, com Mulambo

Chegamos ao fim. É a canção mais forte e imersiva do disco. O início soa como andar de carro à noite, com as janelas abertas e rumo ao ponto final da viagem. Tomada por versos emocionais e um rap com pegada anos 80 na produção, “Luta Por Mim” é um misto de beleza e tristeza. Retrata a recorrente comoção midiática pela morte e assassinato da juventude preta no Brasil, questionando o respeito que temos com as vítimas e as famílias, além das mudanças que pessoas brancas e privilegiadas que constituem uma pequena parcela da população estão dispostas a tomar. “Mais um corpo preto no chão e não muda porra nenhuma”. Impossível ouvir essa frase e não se sentir rasgado em dois.

***

O que achamos, em resumo? O EP traz um universo sonoro e temático muito coeso! É uma jornada com início, meio e fim, que oferece a chance de entrar em contato com as potentes percepções e leituras de Jup sobre a realidade. Uma realidade que precisa ser explorada e você, certamente, está pronto pra isso.

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