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Jesse y Joy comentam disco de inéditas: “É como uma enciclopédia de nossas vidas”

Em 2017, o duo mexicano Jesse y Joy disputou um Grammy norte-americano ao lado de nomes como Laura Pausini, Diego Torres e Gaby Moreno. Os concorrentes eram os favoritos, mas não foram páreos o suficiente para desbancá-los. Levaram para casa o troféu de Melhor Álbum Pop Latino com “Un Besito Más”, trabalho que os estabeleceu como uma força natural da música mexicana.

Os ânimos não era os melhores quando os irmãos conceberam o projeto, visto que viviam uma reconfiguração familiar provocada pela perda do pai, o pastor Eduardo Huerta. Falecido em 2013, Huerta foi o grande incentivador da carreira dos filhos, sendo inclusive parceiro em composições. “Foi muito difícil enfrentar a partida dele, foi algo que impactou a família inteira”, diz Joy.

O tempo ajudou a cicatrizar as feridas e fez brotar a vida. Nesse meio tempo Jesse y Joy, que conheceram a fama ainda jovens, não só amadureceram como também se tornaram pais. Ela, mais recentemente, deu à luz uma garotinha, nascida em maio do ano passado. Já ele é pai de duas meninas, Hanna e Abby. “Encontramos refúgios em nossa família, nos nossos respectivos filhos. Passado esse tempo, nada mais justo do que empregar amor, alegria, gozo, novos ares a novas canções”.

Na contramão de “Un Besito Más”, “Aire”, disco que chegou às lojas em maio deste ano, apresenta uma linha narrativa mais otimista. Jesse explica. “Queríamos ir a fundo em questões ligadas à origem da vida, bem como desenvolver conceitos como dualidade, liberdade e individualidade. Colocamos elementos que formam parte da nossa vida, que vão desde fragmentos de canções feitas pela minha filha Hanna, até o emprego de novos instrumentos.”

Com 15 anos de carreira, completados em 2020, eles reconhecem uma evolução, mas dizem se sentir os mesmos desde que lançaram o álbum “Esta Es Mi Vida” (2006). “Brigamos igual quando éramos crianças”, brinca Jesse. “Agora estamos indo a outro lugar, emocional e mentalmente, promovendo uma celebração do presente, do que se vive. Foi importante que cada um de nós respeitasse o que era sentido e transformasse isso em arte. Buscamos representar etapas em nossos discos, logo eles são como enciclopédias de nossa vida”.

Gravado na ponte aérea Londres-Ciudad de México no início de 2019, o disco ficou em stand-by por cerca de um ano, enquanto pequenas amostras eram dadas ao público em shows ou mesmo a partir do lançamento esporádico de singles. Com a promessa de ganhar uma edição especial com novos arranjos, versões em inglês e faixas inéditas, “Aire” explora por enquanto uma estética sonora minimalista. Entre baladas como “Te Esperé” e “Fuego”, há também espaço para o som pegajoso do reggaeton. J Balvin e Luís Fonsi, que cantam em uma frequência mais suave, são os únicos convidados.

“Existe muita liberdade nesse trabalho. Gostamos de coisas diferentes, mas claro que há intersecções. Digo por mim e por Joy, nossas diferenças nos fazem mais fortes, há força na diversidade”, diz Jesse. “Por isso você vai encontrar aqui influências de folk, rock, gospel. Há canções inspiradas na estética de Kanye West, mas que também dialogam com Johnny Cash. Canções que ainda assim seguem sendo 100% Jesse y Joy.”

Mañana es too late

Lançar um disco em meio a uma pandemia não é tarefa fácil. A maioria esmagadora das estreias programadas foi adiada em virtude da impossibilidade de realizar as extensas e já costumeiras agendas de divulgação. Nomes como Lady Gaga, Alanis Morissette e Sam Smith, por exemplo, que lidam com uma esfera midiática gigantesca, decidiram prontamente postergar seus álbuns. Em massa, convites para shows, entrevistas presenciais e participações em programas de TV foram por água abaixo. “Não imaginamos que o disco sairia desse jeito”, diz Joy, séria. “E me comove muito saber que todos vocês tenham o escutado assim, em casa”.

A decisão de não adiar o lançamento de “Aire” foi tomada em respeito aos fãs. Bastou olhar para dentro de casa, reparando velhos hábitos, para saber a importância da música. “Aqui colocamos canções pra tocar desde que despertamos, antes mesmo de ligar a cafeteira”, conta Joy. “Os fãs pediam muito nas redes sociais, e não pudemos fazer outra coisa senão atender. Não é só um disco que fala de canções de amor e de casais, estamos convidando as pessoas a pensar de forma coletiva, que todos se vejam como sociedade e era importante ir mais além do entretenimento”.

Da mesma forma com que outras figuras da música latina tem se posicionado a respeito das mazelas da pandemia na América Latina, a artista cobrou mais união e paciência por parte do público no enfrentamento da crise. As autoridades do continente ainda consideram baixos os índices do isolamento social, o que faz com que o número de casos do novo coronavírus não pare de subir. No último domingo, de acordo com dados publicados pelo jornal argentino Clarín, países como Brasil, México e Perú já somavam mais de 1,3 milhão de pacientes infectados.

“Vivemos realidades distintas em que alguns tem bem mais dinheiro que outros. É emocionalmente muito difícil saber que estamos em nossas casas, que são refúgios, enquanto outros tem que sair pra trabalhar”, diz. “O novo normal, que tanto dizem por aí, deve acontecer também com a garantia de mais direitos básicos, o que inclui proteção para mulheres e crianças maltratadas”.

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“Aire”, o novo disco de Jesse y Joy, está disponível em todas as plataformas.

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