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Entrevista: MC Zaac fala sobre “Desce Pro Play”, feat. com Anitta e Tyga que acaba de ganhar clipe

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Sextou! MC Zaac se uniu a Anitta e o rapper Tyga pra uma colaboração quente. O trio lança nesta sexta-feira (26) a faixa “Desce Pro Play (Pa Pa Pa)”, mais um single que promete te fazer dançar em casa durante essa quarentena (saudade de uma aglomeração na pista de dança né, minha filha?).

Gravado durante o isolamento social, o clipe consegue a proeza de unir o trio virtualmente. Com a pandemia, Anitta segue no Rio, Zaac em São Paulo e Tyga nos Estados Unidos. Mesmo assim não há desculpa pra se esquivar dessa fusão contagiante de funk e hip hop.

Por telefone, Zaac falou com o Papelpop dias antes da estreia. Ele comentou não apenas detalhes pontuais da parceria, como também foi a fundo em questões de racismo e expansão do movimento funk. Leia:

Papelpop: Zaac, você lança nesta sexta-feira o clipe de “Desce Pro Play”, mais uma parceria sua com Anitta, agora também com a participação do Tyga. Tá com frio na barriga?

MC Zaac: A expectativa pra esse lançamento foi grande, não foi diferente das outras faixas que produzi ao lado da Anitta. Apesar de que desta vez também teve algo de realização porque sou muito fã do Tyga, sempre tive essa vontade de trabalhar com ele. Mas é isto, vamo que vamo! Mais uma! (risos).

Vocês gravaram o clipe à distância, obviamente, por conta das restrições impostas pela pandemia. Foi divertido?

Ah, foi! Foi um desafio também justamente por isso, porque ninguém se encontrou. Cada um fez no seu ambiente, eu tô em São Paulo… Mas o diretor teve uma visão muito boa de conseguir juntar os três no take final. Apesar desse empecilho, foi algo bem descontraído. As 3 partes, o público vai ver, dançamos como se fôssemos deixados levar pela vibe da música, que é muito contagiante. Da mesma forma que os outros feats. meus, automaticamente dá vontade de cair na pista, seguimos as normas certinho e ainda bem, deu super certo.

Essa é uma faixa produzida pelo pessoal da Brabo Music e vem inspirada no hip hop dos anos 2000, que sei que você curte muito. Rolou uma pesquisa sonora muito legal, que referenciou outros artistas. Qual é a sua relação com o gênero, o que você costuma ouvir?

Apesar de cantar funk, gosto de colocar e envolver outros ritmos. Acho bacana levar o funk adiante através da minha voz, mas mesclando a outros ritmos sempre que possível. Essa onda do hip hop eu curto muito, ouço muito 50 cent, gosto da vibe das músicas do Chris Brown e isso mostra novas referências. Quando a galera da Brabo Music me mostrou já fiquei empolgado porque era um novo espaço pra conhecer e, claro, mostrar pro público. Fico muito feliz em poder me desprender, não gosto de algemas. A galera tem que estar onde a gente pode ir. Acredito pela minha vontade, pelos sons, acredito que mais uma oportunidade pra galera sintonizar nas batidas do funk.

As suas letras sempre trazem uma narrativa, seja ela parte do seu universo ou do outro. Como funciona o seu processo de composição? Você é daqueles observa tudo ao seu redor, um cronista da experiência alheia? (risos)

Ah, eu tento usar uma linguagem que as pessoas conseguem se identificar. Gosto da onda do duplo sentido, de fazer brincadeiras nas minhas letras. Quero que tentem decifrar o que digo, pra além de dançarem. Estou sempre usando esse esquema de trazer enredos com trocadilhos, desde “Bumbum Granada”. Queremos que a galera que curte o baile se jogue, mas também ao mesmo tempo entre no movimento, decifrem o som. Nessa letra usamos um termos mais levados pra brincadeira. Os versos “Cheguei pra gente brincar/Então desce pro play, você vai gostar” são um exemplo. Aqui, novamente, curtimos fazer isso.

Você tem alçando voos cada vez mais altos, essa faixa com certeza deve ser um hit internacional porque tem 3 nomes muito fortes. Vários artistas pop tem ido a fundo no funk. Madonna… até mesmo pessoas consideradas de uma vertente mais erudita como Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso. O que você pensa sobre essa abertura dada ao funk, que se funde a outros elementos sonoros, chega a novos públicos?

Acredito que o funk tem uma mensagem muito forte no sentido de contagiar as pessoas. Sinto que rola a mesma coisa em relação ao hip hop. Eu não falo inglês, muitas vezes não sei o que estão dizendo, o que significa aquela pronúncia, mas existe a questão da batida. O funk tem muito disso. É uma onda que você não precisa entender muito. Eu gosto de dizer que esse tipo de música tem como idioma a dança, a curtição. Você não precisa dizer muito… ou às vezes precisa. O funk tem muitas possibilidades, é muito amplo. Sei que a galera pode fazer bem mais, podemos fazer letras que falem de qualquer coisa. Batalhamos por espaço ao longo de muito tempo e hoje estamos conseguindo. É o momento ideal pra poder abraçar isso, e usando seu exemplo, acho muito foda ver a Adriana Calcanhotto trabalhando em canções que tenham essa essência, chegando a novos espaços. Fico muito contente com o que estamos fazendo. Se continuarmos nessa vibe, o funk ainda vai ser comentado demais por aí.

E tem sido mesmo. A sua aparição no Popload Festival 2019, por exemplo… Eu tava lá e as pessoas ficaram eufóricas quando você subiu ao palco pra cantar com a Tove Lo. 

Sim! Inclusive, quero deixar muito claro isso: foi muito especial pra mim a onda, confesso que não conhecia o trabalho dela [Tove] antes. Sou muito curioso pra música, tô sempre em busca de coisas novas e me apaixonei imediatamente. Me aprofundei muito e a música que fizemos deu super certo. A gente fez tudo por Skype, a gente compôs a letra… Tava muito funk aquele som, apesar de ser pop, o resultado foi ótimo, a energia de subir no palco… Fiquei louco com a galera cantando do início ao fim. Foi um dos melhores públicos que eu já tive, agradeço demais. A galera maluca, tenho muito o que agradecer.

Engraçado porque falando sobre esse momento especial do funk, a história da MPB nos últimos 30 anos, principalmente, está profundamente atrelada ao movimento, isso é indiscutível. Essa ascensão diz respeito também a um progresso na descriminalização do movimento, que ainda é periférico, mas tem caminhado positivamente…

Com certeza. O funk, na verdade, é uma coisa que diz respeito à trajetória das pessoas, que crescem na periferia e muitas vezes se agarram nisso como uma oportunidade. A molecada cresce e apesar de as pessoas terem um preconceito, seguem fazendo música. É uma onda ainda que a gente enfrenta, melhorou muito, musicalmente somos mais respeitados, mas enquanto país ainda é preciso compreender a dimensão disso. Lá fora estamos ficando mais conhecidos, é continuar indo cada vez mais longe. É um processo que vai aos poucos… você vê no Instagram quantos vídeos me marcam? Isso é um reflexo, é muito bom como artista se ver reconhecido.

Você tem uma trajetória muito foda. Veio da periferia e é um dos artistas mais bem sucedidos da sua geração. Isso é muito legal porque mostra a importância da representatividade, especialmente em tempos em que a desigualdade e o racismo estão escancarados. Como você tem reagido a tudo o que tem acontecido?

Pra mim é uma coisa que sempre existiu. A gente tá lutando pra que isso acabe e a gente possa viver uma era diferente há muito tempo. O racismo no Brasil ainda é muito maquiado. Veja bem, eu tenho uma casa, um apartamento muito bom, mas quando você desce a galera te olha com outros olhos. A gente sente uma energia pesada, você sente que estão te olhando diferente. O preconceito é uma coisa ridícula, é horrível e só nos distancia enquanto seres. Tudo o que tiver indo por esse lado não é legal. Não temos que lutar só por esses casos de agora, a gente não pode deixar a poeira abaixar. Temos que embarcar nessa luta com força total, pra impedir o racismo e discriminação de aparecer em qualquer situação. Tem que acabar, dar um basta nisso. É uma luta relevante, temos que continuar pensando formas de acabar com essa patifaria.

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