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Entrevista: Luana Carvalho celebra a mãe, Beth Carvalho, com EP em clima de pós-Carnaval

Neste mundo de incerteza e desamor total / Cada samba de tristeza é mais um Carnaval”, diz a letra de “Meu Escudo”, samba lançado em 1976. A faixa, um clássico do cancioneiro popular brasileiro, foi resgatada pela cantora carioca Luana Carvalho e integra o EP “Baile de Máscara”. O projeto foi lançado no início do mês de junho.

Quando o concebeu Luana trabalhava em um segundo álbum de estúdio, previsto pra chegar às plataformas no segundo semestre de 2020. Decidiu parar e criar algo menor, mais representativo do momento, enquanto tentava sair de uma enxurrada de sentimentos agridoces. Cá entre nós, um mal-estar enfrentado por todos desde o fim de fevereiro. Foi neste exato momento que demos adeus aos confetes do Carnaval para nos rendermos ao cárcere iminente da pandemia.

“Fiquei muito impactada com esse contraste entre o fim da festa e a quarentena. O que havia ali reverberou por vários dias na minha cabeça”, conta, por telefone. Filha da lendária Beth Carvalho, falecida em abril de 2019, a cantora aproveitou a oportunidade pra fazer uma homenagem à mãe, sua maior referência.

A nossa conversa com Luana, que além de comentar a gênesis do projeto, também falou sobre arte popular, sua paixão por Salvador e a atual conjuntura sócio-política do Brasil, você lê na íntegra abaixo:

Papelpop: “Baile de Máscaras”, o seu novo EP, foi idealizado e nasceu durante a quarentena… Mas foi esse o ponto de partida?

Luana Carvalho: Houve alguns gatilhos. Primeiro, completava-se naquele momento o primeiro aniversário de morte da minha mãe. Alguma coisa certamente seria feita por mim, eu só não sabia exatamente o quê. Esse primeiro ano transcorrido após a morte de uma pessoa tão importante como ela era pra mim, imagine. Éramos uma família quase que formada apenas por dois membros… ela foi sempre minha grande referência na vida. Perder isso nos leva a um estado de quase entorpecência. No primeiro ano ficamos meio que “fora”, como se não conseguíssemos nos responsabilizar por nada que aconteceu nesse período, a não ser, claro, pela criação da minha filha. O que aconteceu nesse meio tempo foi que eu escrevo muito… vinha escrevendo, antes até de começar a quarentena, sobre prisões. Tenho desenvolvido um trabalho de pesquisa sobre o cárcere em suas mais amplas representações, no casamento, na amizade e por processo criminal. Quando começou o isolamento e revisitei meus escritos, me dei conta de que vinha falando sobre o que vivemos de alguma forma. Fiquei muito impactada com esse contraste entre o Carnaval e a quarentena e o que havia ali reverberou por vários dias na minha cabeça. Até que eu conseguisse encontrar caminhos de semelhança, entre o que significa hoje o tradicional desfile das escolas e o desfile dos entregadores. O trânsito daqueles que precisam estar nas ruas pra que possamos nos manter em camarotes, que são as nossas casas. Fiquei viajando nesse lugar e nesse mesmo período também ouvindo a obra da minha mãe pra lançar, no dia 30 de abril, no dia em que ela faleceu, uma playlist de músicas que amo. Essas 5 músicas, antes de visuais [a última a ser selecionada para o projeto], me fizeram ter vontade de fazer um disco. São faixas que falam sobre o Carnaval de uma maneira muito especial e que tem um discurso muito próximo de uma discussão sobre o que vivemos hoje. Sobre o que fazer com a desilusão, sobre entregar ou não o próprio coração aos sentimentos. Tudo casou, eu quis fazer essa homenagem e havia um propósito que ia além. Não havia necessidade de regravações porque ela já as havia interpretado primorosamente, em versões excepcionais. Mas eu tinha algo a dizer e creio que só faria sentido assim. Fiz do meu jeito. O disco surgiu de um desejo inusitado, no meio da pandemia. Virou um projeto especial, tava gravando meu disco de composições próprias. Foi muito bom, tudo funcionou. 

Existe um aparato tecnológico que ajuda, claro, mas acredito que não deixa de ser complicado gravar um álbum à distância, ainda mais nesse contexto. 

Essa questão remota é super difícil mesmo, Guilherme. O que eu achei mais bonito nesse processo é o fato de que não me lembro de tê-lo feito em casas e estúdios separados. É uma visualização só minha, obviamente, mas os feedbacks das pessoas, é como se soasse um trabalho único. Tenho certeza de que a única coisa que pode unir pessoas que estão distantes é o afeto, o amor. E aqui no disco acontece isso, sem dúvida.

Você disse que durante a produção de “Baile de Máscara” você revisitou a obra da sua mãe. Como foi essa imersão? Qual é a sua rotina de quarentena?

Cara, a minha rotina tem sido cuidar da minha filha e da minha casa (risos), mas agora nas duas últimas semanas… Eu tenho todo um legado pra cuidar. Estou sempre em contato com advogados pra resolver pendências, questões burocráticas. Minha mãe tem um catálogo enorme e tudo isso precisa ser revisto, repensado. Por exemplo, faz muito pouco tempo que consegui ter acesso às redes sociais dela. Agora eu consigo fazer um trabalho legal de arquivo, pra gente poder trabalhar esse catálogo e oferecer conteúdos a pessoas que amam e admiram o trabalho dela, que sentem falta, pessoas que querem informações. Também existem produtos inéditos que ainda não foram lançados, outros que não são inéditos, mas que ainda não foram digitalizados… é uma profissão que ganhei com o falecimento dela porque não quero deixar esse legado sem o melhor cuidado possível que ele merece. Fora isso, tenho um bebê pequeno e quero ser essa mãe, mãezona, que também é artista. Uma mãe que às vezes tem que ouvir uma master, mas que 10 minutos depois estará ali, brincando junto, porque sei o que é ser criada em uma situação de carreira em que não há tempo. Escolhi dar isso pra minha filha e não é algo tão simples de se conseguir. Pode parecer que não, mas estou começando o meu trabalho, a minha carreira. O segundo disco de composição vem no fim do ano, tenho apenas um álbum e esse projeto especial lançados… Logo, meu cotidiano se divide entre funções, cuidar de casa, criança e lançar um disco. (risos)

Você falou sobre o seu novo álbum que deve chegar no fim do ano. Em que pé está esse projeto?

Ainda não há muito o que dizer, mais tarde vou conseguir explicá-lo melhor. Por enquanto, o que posso adiantar é que é um disco de composições minhas, feito ao lado de compositoras mulheres, que tenho priorizado. A princípio seria lançado no fim do ano, mas acredito que as coisas, pensando que acabei de entregar um EP, também precisam ter um respiro. Então vamos entender o tempo que ele tem pra existir, uma coisa de cada vez, sabe?

As canções do EP seguem uma narrativa, fazem um percurso e isso é muito interessante porque enquanto você ouve você visualiza algo. E aí você fala sobre a dita “quarentena de cinzas”, que veio após o Carnaval ressignificando as coisas. Você tem ressignificado algo na sua vida?

Tudo. Tudo… A começar pela casa que moro, que é a casa que eu traria minha mãe pra viver, mas ela acabou morrendo antes de se estabelecer aqui. É uma residência que carece de muitos cuidados, eu faço tudo só. Tudo exige manutenção, quanto mais coisas você tem, mais você precisa cuidar. Pra mim, ter esse lugar, um lugar muito bom e agora, é interessante. A vida inteira morei sozinha e cuidei da minha própria casa, não tinha gente trabalhando pra mim. Tô gostando muito de voltar a cuidar completamente das minhas coisas. É uma delicadeza boba do dia a dia. Mas também me vejo reconhecendo pontos muito tristes nesse processo de se dar conta de algo. É você, por exemplo, se perceber como uma mulher branca e de classe média alta e se sentir responsável pelo lugar que chegamos. O que está acontecendo, as pessoas que estão morrendo, tudo é uma responsabilidade minha. E o que a gente vai fazer pra mudar isso? O que deixamos de fazer no passado? Eu sinto que existe uma ignorância em termos de método de luta porque a gente tá numa situação em que muita coisa poderia ter sido feita, mas não é. Não foi. Existe uma convicção de certas questões que precisam ser mudadas e que não conseguimos mudar. Tem uma ferida na educação de cidadania do brasileiro que eu acho que é diferente dos outros países da América Latina e fica muito evidente. Me dá tristeza. Falta mesmo uma educação que faça com que o cidadão possa se sentir apto a lutar pelo que ele quer. Talvez estes sejam meus maiores aprendizados de quarentena. Como fazer? O que fazer? Vamos só postar? Quem tá fazendo mais? Quem tá doando? Quem tá fazendo arte, quem tá trabalhando na rua e dando conta de quem não pode, quem tá em casa…? São questões que estão por aí, parte de uma consciência.

Ao longo dos últimos anos tem ganhado força, até mesmo pelas redes sociais, como você bem colocou, debates sobre racismo, LGBTQfobia e agora o desamparo a pessoas em situação de vulnerabilidade. Enquanto artista, você acha que existe uma obrigatoriedade do posicionamento pra que essas discussões sejam impulsionadas? Porque os fãs cobram muito isso…

Eu acho delicado porque o posicionamento não é uma questão de escolha. Mesmo que você não fale, você já se posiciona. Mas não sei se falar é o suficiente, é o que me pergunto. Às vezes, o que acontece… Como a gente tem um mecanismo de redes sociais muito eficiente, muitas vezes a pessoa posta, fala e vai dormir. Satisfeito com o que fez. Mas não sei se basta. Será que aquela pessoa que não publicou nada, mas que organizou ações, que concretizou atos e se colocou de repente em risco em uma passeata, não concretiza uma mudança, uma ação no próprio entorno? O que me interessa sobre tudo isso não é dizer o que deve ser feito, é o fato de que a situação em que estamos nos coloca em um imenso questionamento, entende? A gente vai ter que aprender a ser cidadãos. O que a quarentena me ensina é que temos que aprender a sermos justos, democráticos, a sermos cidadãos que independente da desigualdade inerente que construímos até hoje começam a reconstruir uma sociedade sem desigualdade. Não é algo que você, a Zélia Duncan, o Paulo Freire, a Dilma Rousseff sabiam como… temos muito gênios na história do pensamento sócio-político, mas acho que não deram conta. Temos um monte de cidadãos ignorantes. O mais intelectual dos nossos cidadãos é ignorante, e o mais ignorante dos nossos cidadãos é tão importante quanto. Tem gente morrendo por toda parte e eu quero sofrer por cada morte, não por uma ou outra. O Brasil é um lugar comunitário e isso me faz pensar também no descaso e na destruição de tantas tribos indígenas, de pessoas que fazem parte da base da nossa árvore genealógica e que estão sendo maltratadas, roubadas e mortas, enquanto deveríamos aprender com eles o sentido da coletividade. O que mais nos faz falta é a comunidade, a rede. Acho que é um grande momento de se vergar ao que possa existir de mais profundo em nós, a nossa humildade. Sem julgamento.

Você está no Rio, mas também é muito ligada a Salvador, que é um dos espaços mais expressivos do Brasil, cultural e socialmente falando. Qual é a sua relação com a cidade?

Sou muito apaixonada por Salvador, acho que é uma das cidades mais realistas do Brasil. Claro que existe desigualdade social, existe também uma situação coronelista, como existe em qualquer lugar, mas em Salvador talvez seja uma metrópole em que você, no ato de se sentar em um restaurante, consegue ver mais igualdade entre negros e brancos naquele espaço. Ou você, estando no Farol da Barra, um dos pontos turísticos mais tradicionais da cidade, perceba que existe a mesma quantidade de pobres e ricos ali, circulando. Isso, além de todas as questões culturais, me comove muito. Outra coisa interessante também é o fato de que sempre quis passar meus verões em Salvador e quando minha mãe morreu me prometi isso. Cumpri e o que foi mais forte pra mim nesse momento foram os contrastes. Fiquei muito feliz de ter realizado esse desejo, por mim e pela minha filha, que saiu de um apartamento e foi conviver com todo tipo de gente, antes de ser enclausurada. Salvador é uma cidade de suor, de muita gente junta, de aglomerações o tempo todo. É o Carnaval eterno, palco de uma mistura profunda de raças que se vê melhor do que qualquer outro lugar do Brasil.

A gente falou muito da sua mãe ao longo dessa entrevista, ela é a grande inspiração pra esse novo EP. Queria saber se é possível elencar a maior lição artística que ela tenha te deixado.

A minha mãe é uma fedelha (risos). Estudou em Londres, frequentou as rodas de bossa nova de Copacabana e Ipanema e foi descobrir o que queria fazer da vida no Cacique de Ramos [bloco carnavalesco carioca]. Eu acho que não tem muito mais o que dizer, ela é uma gênia. Enquanto as pessoas estavam por aí idolatrando muitos outros gênios completamente eruditos ou mais elitistas, os ídolos dela eram Cartola e  Nelson Cavaquinho, muito antes de muitos artistas os considerarem. Ela era uma mulher branca, que você poderia chamar de rica também, dentro no padrão econômico brasileiro, mas que fugia à regra e tinha como ídolos esses caras. A vida toda dela foi pautada em lançar novos compositores, poderia dizer que ela foi uma boa compositora se tivesse investido nisso, mas ela tava muito mais interessada em lançar pessoas que vinham de zonas periféricas, pra que tivessem visibilidade para além de uma questão socioeconômica, política. Esse é o êxito dela, foi por amor, sem oportunismo. Hoje eu respeito qualquer crítica a qualquer posicionamento político dela, mas Beth passou a vida inteira querendo ser uma boa cidadã. Cada um acredita no que pode, mas ela nunca esqueceu dessa função e eu acho muito lindo. Quando morreu, deixei o título de eleitor nas mãos dela porque tenho certeza de que ia gostar muito. O dia de eleição era um dia de festa em casa. Ela amava votar e isso diz muito de uma pessoa porque é o ato de exercer a cidadania, um papel social. Você dá a sua opinião sobre algo que pode mudar o seu país, mesmo que ela não vingue. O que aconteceu com a nossa opinião? Onde foi parar? Temos que dar muita importância a coisa pequenas.

Eu tinha uma grande admiração pela Beth não só pela arte dela que é importantíssima, mas também pela forma com que ela nunca teve medo de se posicionar politicamente. Quando ela se foi a gente ainda não tava numa situação tão grave quanto a de agora. Como você acha que ela avaliaria o panorama sócio-político no qual estamos inseridos?

Digo sem medo que ou ela teria morrido por problemas de saúde, ou teria morrido pelos ideais que defendia. O que acontece neste país agora não a deixaria sobreviver, tá muito fora da órbita. Acho que ela já viu muita coisa muito triste acontecer, mas estamos sendo manipulados pela destruição da nossa autoestima. É o que sinto, se formos pensar em todas as estratégias nazistas, fascistas, em estratégias antigas, é muito bizarro. Vivemos um grande descaso com a nossa existência, nossos CPFs deveriam ser anulados e isso é muito fora de tudo que ela plantou e acreditou. Ainda bem que estamos fazendo discos, que o artistas estão lutando e batalhando pra oferecer arte. É muito lindo o quanto uma live de um artista como Tereza Cristina muda e salva a vida, a saúde mental das pessoas. Não é nada novo, mas é a arte e a ciência salvando um país que os despreza.

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