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“Meu show é um oásis, mas também uma provocação”, diz Mika

O clima no Brasil é de ressaca. O Carnaval acabou há poucos dias e há quem diga que o ano novo só se fez valer agora, após a quarta-feira de cinzas. Todos parecem despertar e ainda há glitter espalhado por todas as partes. No chão, nos próprios corpos… mas as cores dessa que é a nossa festa mais tradicional, presentes em fantasias e adornos de cabeça, fazem parte mesmo é da essência do Brasil. Estão vivas até no imaginário do libanês Mika. Quando toco no assunto, ele prontamente diz: “Adoraria curtir isso no Rio, é algo que nunca fiz antes. Mas se o fizer um dia será fantasiado de robô”.

Ele responde minhas perguntas enquanto come sua sobremesa em um hotel de Luxemburgo, um pequeno país localizado ao leste da Alemanha, onde se apresentaria naquela noite. O interesse pela Cidade Maravilhosa, que abriu a pauta, não é novidade. No disco “No Place In Heaven” (2015) há uma canção que leva seu nome. Em junho de 2018, o cantor chegou a voltar, mas foi apenas um aceno. Veio a passeio, sem alarme e acompanhado por amigos. “Gosto de observar os viadutos daí. Sou um grande fã de [Oscar] Niemeyer e de arquitetura”. 

De repente, questiona de onde falo. Mika foge ao estereótipo clássico da estrela gringa que possui uma visão simplista da América do Sul. “Sou obcecado pela ideia de estar com vocês. As pessoas aí são felizes, apesar de tudo. Sei que não é fácil e que não é seguro em qualquer lugar, em um segundo as coisas se tornam perigosas, mas você se sente vivo”, diz. “Odeio quando tudo é muito certinho”. Um bom exemplo do que diz é o single “Ice Cream”, um dos mais recentes. No clipe, o duplo sentido da letra faz com que ele conduza sem medo um carrinho de sorvetes, dançando pelas ruas da cidade.

Conforme avança, torna o verão a mais deliciosa das estações. 

Quando tocou aqui pela última vez, em 2010, o cantor já era uma sensação. Fez aproximadamente 20 mil pessoas pularem feito pipoca ao abrir o set com “Relax (Take it Easy)” na terceira edição do extinto Festival Planeta Terra. Hoje, mais maduro, retorna na primeira semana de abril para aquela que será sua primeira turnê na América Latina em uma década. No Brasil serão três shows: dois em São Paulo, como parte do Festival Lollapalooza, e outro no Rio de Janeiro, no Circo Voador. Conta que está feliz e que o retorno só aconteceu depois que sua equipe foi renovada. “É muito louco quando penso como isso se desenrolou. Eu disse a eles ‘Estou fazendo mudanças aqui e quero uma nova equipe. Quero mais América do Sul, quero Brasil, quero festivais lá. Deem um jeito de conseguir isso’”.

E funcionou. Exatas cinco semanas depois chegaram convites para tocar nas edições brasileira, argentina e chilena do evento. “Tenho zero expectativas para o que vou encontrar aí agora”, diz rindo. “Esta é a regra para fazer o que eu faço. O show geralmente se adapta conforme o que vejo diante de mim. Se a vibração pede algo mais extravagante, mais suado, ou mesmo mais canções… tudo fica mais bonito. Então por que não fazer isso?”. Seu negócio é mesmo surpreender. À frente do The Voice França e do The X-Factor Italia como técnico ele não só ensinou jovens talentos a alcançarem suas mais belas notas musicais, como também reforçou sua habilidade com as línguas.

Além do francês, que arrisco em alguns momentos da entrevista e sou prontamente respondido, ele também fala (e canta) em inglês e italiano. Lembro de uma publicação feita em seu perfil no Instagram no fim do ano passado em que interagia com uma assistente durante uma visita ao México. Mika falava um espanhol quase perfeito – a deixa para saber: não sente vontade de cantar em português também? “Estive trabalhando em um projeto com a Mariza, uma cantora portuguesa de fado. Você a conhece? Estávamos pensando em fazer um mix de canções em português, francês e inglês. O seu idioma é uma língua linda para se cantar, acho que não teria dificuldade. Acho bem próximo do italiano, gosto da ideia.”

Tiny Love

Se quando lançou seu álbum de estreia, “Life in Cartoon Motion” (2007) Mika cantava temas centrados na busca da própria identidade, bem como traçava paralelos entre si mesmo e as figuras de Freddie Mercury e Grace Kelly (princesa de Mônaco que lhe rendeu o título de seu maior hit), hoje as coisas fluem em uma frequência bem diferente. Desde que se assumiu gay em 2012, ele diz estar mais confortável consigo mesmo – ao ponto de dar ao seu novo disco o nome “My Name is Michael Holbrook”. É isto o que consta em seus documentos.

A nova safra de canções é deliciosa. Seus versos, que continuam sendo agridoces, fazem dançar na mesma proporção em que tocam o coração. Falam sobre ciúmes e o desabrochar das paixões. Narram a dor do fim, mas sem se esquecer da simplicidade se se encontrar e viver um grande amor. “Tiny Love”, a canção mais atrevida do disco, é um bom exemplo disso. Além de uma letra que passeia pelos jardins do Central Park, sua estrutura, sem nenhum exagero, acena para a ousadia da clássica “Bohemian Rhapsody”, do Queen. Mika não tem medo de apostar.

Entre o gozo e as lágrimas que cercam este ofício de contador de histórias, “My Name is Michael Holbrook” parece ser seu trabalho mais pessoal até então. Comento isso e Mika discorda. “Eu diria que é o mais libertador. Minha única regra quando comecei a trabalhar nestas músicas era transformá-las em algo que fosse livre, completamente sem vergonha. Tentei ser fiel a mim mesmo ao máximo e quando delimitei o que gostaria de falar os temas acabaram se mostrando mais pessoais. Precisei me sentir mais seguro para ir mais a fundo em mim mesmo”. Apesar de fazer música para o grande público, seu senso criativo bate de frente com a lógica da indústria. “Estamos vendo o mercado ser dominado pelo urban e meninas cantando canções escritas por, sei lá, sete pessoas. Os jovens consomem, dançam isso. Não quero repetir a mesma fórmula”, explica.

The Origin of Love

Com o crescimento do repertório fica difícil selecionar o que deixar de fora e o que obrigatoriamente precisar estar no set. Há clássicos como “Grace Kelly”, “Lollipop” e “Origin of Love” que cativam o público logo nos primeiros acordes, mas as novas também têm conquistado seu espaço. “Dear Jealously”, por exemplo, uma canção com base eletrônica e uma letra frenética, fez a plateia do Brooklyn Steel, em Nova York, saltar logo nos shows da turnê. O registro, que oferece uma prévia do que o artista apresenta no Brasil em abril, pode ser conferido no álbum ao vivo “MIKA: Live From Brooklyn Steel”. Nos dois concertos que originaram o material, filmado em setembro de 2019, vê-se uma profusão de cores, alegria e amor.

Afinal, o quão desafiador é colocar balões, cortinas, luzes e instrumentos na estrada? “Nem um pouco. Não é porque os fãs precisam desse momento e o querem muito. Estamos circulando há 6 meses e já entendi que este show é um oásis, mas também uma provocação. Eu canto sobre sentimentos e eles precisam ser provocados, você não pode simplesmente dispor coisas soltas no palco e cantar. Acho que é por isso que tenho gostado tanto desta turnê, porque estamos transportando um circo cheio de significados”. Mas para acompanhar Mika, veja bem, é preciso mais do que se entregar. Haja fôlego! Ele dança sem parar, não desafina um segundo sequer. Toca piano, termina a noite com sua camisa Dior cheia de babados encharcada de suor.

Brinca que não há tempo para interagir. O silêncio, em suas palavras, capta a atenção da plateia. “Quando estou no palco uso meu corpo e meus pés para me comunicar e isso é incrível porque me dá a ideia de que posso fazê-lo de formas diferentes. As pessoas realmente te ouvem quando você não fala. É a minha revelação”. A um mês do show que faz em São Paulo, no Cine Joia, os ingressos estão quase esgotados. Já no fim de nossa conversa volto no tempo e penso em quando, ainda adolescente, ouvia suas composições e me reconhecia nelas.

Conto essa história e menciono a importância da representatividade LGBTQ+ na música, lembrando dos milhares de fãs que o esperam no Brasil. Em resposta, Mika agradece e destaca o poder da emoção, uma das ferramentas mais eficazes no que diz respeito à promoção de empatia e resiliência. “Há pouco disso por aí e quando buscamos o conceito de comunidade é preciso pensar ainda que elas não existem sem emoção. É o que conecta as pessoas.” Para ele, precisamos entrar em um consenso sobre o fato de que há muito mais do que um pedido de tolerância envolvido na questão. “Nós somos uma necessidade e o feito de se permitir empoderar é muito importante nessa luta. Algumas das nossas maiores mentes, pensadores e inventores, eram gays. Somos uma grande fonte de excelência”.

Mika no Brasil

[Atualizado em 13 de março, às 17h33] Após a publicação deste texto, o cantor optou por cancelar a série de espetáculos que faria nas Américas do Norte e do Sul. A decisão vem em respeito às medidas de segurança adotadas pelas autoridades por conta do aumento de casos do novo coronavírus. Não há novas datas definidas por enquanto e o reembolso poderá ser feito nos pontos de venda oficiais. Em nota, Mika lamentou o ocorrido e disse esperar um rápido retorno.

“É com uma dor extrema no coração que nos vimos forçados a cancelar, diante dos riscos impostos pela COVID-19, as datas de nossa turnê na América do Norte e do Sul. Nossa prioridade aqui, para todos, é sempre nos mantermos seguros e, dado o influxo de informações que mudam rapidamente todos os dias, não nos restou escolha. O ressarcimento está disponível nos pontos de venda. Fiquem seguros e espero vê-los em breve”.

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