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“O riso solidário é uma manifestação de cumplicidade”, diz Laerte em entrevista ao Papelpop

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Laerte Coutinho faz parte do panteão de artistas mais genais que este país já viu nascer. O adjetivo, aliás, lhe cai bem e é compartilhado por outros de seus admiradores – tanto que, em tempos de Instagram, foi criado um perfil na rede social em sua homenagem com o endereço @LaerteGenial. Lá são compartilhadas algumas de suas tiras e charges políticas.

Sua criação, entretanto, não está restrita ao âmbito de jornais, revistas e livros. Nesta quinta-feira (31), por exemplo, estreia em uma sessão especial em São Paulo, às 20h no Itaú Augusta, o longa “A Cidade dos Piratas“. Na presença de seu criador, Otto Guerra, e de sua musa inspiradora, Laerte, estarão ainda os atores Matheus Nachtergaele e Marco Ricca, que permitirão por meio de suas atuações que o público tenha acesso a uma mistura underground e um tanto anárquica de vidas particulares, centradas em temas como sexo, arte, cultura pop e política.

Construído por meio de referências obtidas a partir de quadrinhos da cartunista, o filme vem sendo trabalhado desde 1993 e surgiu a partir de um desejo de Guerra em produzir longas inspirados nas obras de Angeli, Glauco, Laerte e Adão (trupe apelidada a princípio de “Los Tres Amigos” – mas que na verdade seriam quatro). Deste modo a narrativa tem licença para resgatar uma série de personagens épicos, entre eles os Piratas do Tietê, clássicos nos anos 1980.

Agora, há dez anos se reconhecendo como mulher trans, Laerte rejeita o machismo contido em algumas das tiras. Ao invés de empregá-los como únicos protagonistas e apelar para uma versão atualizada, ela também está lá por meio de entrevistas e traz consigo um novo universo. Por meio de Ivan, um rapaz que esconde da mulher que gosta de se travestir, e Azevedo, político que prega uma “revolução conservadora”, mas é constantemente perturbado por genitálias em seus sonhos, ela denuncia a homofobia e mostra uma necessidade de mudança.

Conversei com ela por telefone na última quarta-feira (30) e, conforme o combinado, liguei pontualmente às 15h. Assim foi feito, ao passo que fui atendido por uma Laerte que respondeu aos meus questionamentos direto de sua casa, em São Paulo. Serena, falou sobre uma infinidade de temas – com algumas interrupções, diga-se de passagem. O carteiro desatou a bater em sua porta assim que começamos. Ao voltar, se desculpou em tom de brincadeira: “Só porque eu estava te esperando”.

Embora mantenha o bom humor, ela se diz convicta de que a política brasileira passa por um momento perigoso e de que o riso é uma espécie de contrato entre criador e leitor pra dizer que há companheirismo. A artista também explicou o papel político da charge em tempos de obscurantismo e comentou novos projetos – há um romance gráfico a caminho.

Se o senso transgressor da literatura beat foi algum dia uma inspiração? “Os hippies e o underground, esses sim”. O nosso papo você lê abaixo, na íntegra:

Papelpop: Laerte, como foi trabalhar nas ilustrações desse filme?

Laerte: A minha participação física na feitura desse longa é muito pequena, entrei com o meu trabalho e referências, com o meu acervo, vamos dizer. Participei de alguns momentos desse processo a partir de alguns desenhos que serviram de orientação pra uma cena ou outra, foi pouca coisa. Foi um grande trabalho que coletou na minha produção algum material e o arranjou, depois de muitos anos, de forma livre e tal. E foi assim que nasceu o roteiro desse filme. 

Certa vez eu li que você adora cinema. Com o lançamento de “A Cidade dos Piratas” fiquei curioso sobre o que tem assistido agora…

Mmmm, eu não sou tão cinéfila, sabe? Já gostei mais. Hoje eu vejo filmes e séries na Netflix e bem de vez em quando eu vou ao cinema. Não tem sido muito frequente, tem acontecido de dormir durante a sessão, por cansaço absoluto. Quando consigo um tempo, eu chego e durmo no começo. O que é espantoso porque… a altura do volume do som é grande, como a gente consegue? (risos). 

O longa conta ainda com a presença de Matheus Nachtergaele e Marco Ricca, dois atores incríveis… 

Sim! Eu fiquei muito satisfeita porque eu adoro o Matheus, admiro muito o trabalho dele. O Ricca também, embora eu não o conheça pessoalmente. O Otto [Guerra], que fez a escolha de elenco, merece os parabéns. 

Por falar em parabéns, “A Cidade dos Piratas” recebeu elogios em praticamente todos os locais em que foi exibido. Venceu vários prêmios, inclusive internacionais… Qual a sensação de receber esse retorno positivo?

Nossa… Eu acho que é muito bom! Fico feliz e eu acho que é um mérito do filme. Quer dizer, o filme e o meu trabalho, embora ligados pelo umbigo, são coisas diferentes, são polos e propostas diferentes. É bom saber que ele alcançou um resultado tão bom e venha mexendo com a cabeça das pessoas a partir dessa obra.

Existem no longa algumas referências à série “Piratas do Tietê”, que é sem dúvida um dos seus trabalhos mais conhecidos. A gente tem falado muito sobre o “politicamente correto” no humor… Trazer isso foi uma maneira de atualizar o discurso dos personagens?

Não… não foi. Eu não pretendo trabalhar com eles mais. Acho que é algo que pertence a um tempo e a uma determinada Laerte que produzia nos anos 1990, começo dos anos 2000. O fato é que eu não trabalho com personagem continuada… O teor das histórias e o tipo de roteiro e de humor com os quais eu trabalhava também mudou. Não é tanto mais por questões de “politicamente correto”. A realidade, eu, tudo muda. Eu acho que não me vi muito na pele de alguém ou mantive um determinado nome ou produção ativa. Certas coisas podem ser deixadas de lado, dadas por encerradas.

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Temos visto uma série de transformações na forma de fazer humor… O que mudou e o que ainda precisa mudar nas charges?

Olha, charges são cartoons políticos. Eu me recuso a usar o termo “politicamente correto” porque é meio que uma armadilha. Quando perguntam se eu concordo com isso eu já começo a discordar do uso dessa expressão e reconheço nos processos que aconteceram a emergência de novas situações, onde populações que eram maltratadas, humilhadas e colocadas em ridículo, do ponto de vista humorístico, passaram a ter voz. Isto é, uma contraposição ao discurso de opressão. O reconhecimento de uma nova realidade é obrigatório. Não tem porque você fingir que algo pode e aquilo não pode. É estúpido, criminoso, e você não pode, enquanto membro de uma comunidade, organização ou igreja, hostilizar, recriminar uma população inteira, como católicos e cristãos fizeram com judeus e negros durante séculos invocando a Bíblia pra justificar a escravidão. Ou entendem que a história anda, caminha e coloca situações diante de nós, ou ficam bancando salmos. Se a pessoa diz que o mundo ficou chato e não pode fazer piada sobre determinado assunto, eu desvio, bloqueio e mando à merda. Nao é argumento.

Eu captei várias referências à literatura beat a partir do comportamento dos personagens de “A Cidade , que estão de forma direta ou indireta questionando algo. Essa geração de autores influenciou vários artistas… existe algum nome específico que te marcou, que você leu e impactou sua obra?

Particularmente a geração beat veio um pouquinho antes da minha turma (risos). Eu tenho 68 anos, quando eu era jovem, aos meus 16, 17 anos, no final dos anos 1960, eles já eram ultrapassados. Já se desenhava uma cultura hippie, que posso claramente dizer que me influenciou. Então o pessoal do underground, como Sergei, ou o pessoal do Pasquim, Quino, alguns europeus… esses, sim, fazem parte do meu acervo de influências. 

Em 2017 chegou “Laerte-se”, doc dirigido pela maravilhosa Eliane Brum, em que você mostra esse processo de investigação do que é ser uma mulher trans. A Muriel, que é uma personagem que levanta questões de representatividade, surge no campo ficcional… Agora este filme traz meio que um híbrido disso, a partir de vivências suas impressas ali. Há pouco falávamos sobre literatura beat que tem como uma de suas características essa mescla entre ficção e realidade. Como você enxerga isso?

Ah… não é de um jeito só que se dá essa fusão ou combinação de realidade e ficção. Por exemplo, pra mim, a consciência trans chegou através de um personagem meu, e parece algo absurdo de se dizer. Eu trabalhava o Hugo e volta e meia ele se travestia. Era sempre como alguma desculpa, ou fugindo da máfia (risos)… Enfim, de repente, aconteceu sem motivo nenhum! Ele fazia aquilo à minha revelia. Não era. Eu desenhava, mas pra não pra entrar numa questão… psicológica? O personagem tem uma independência em relação a seu criador que a certa altura se torna algo bom. Acho bom que tenha, é um ótimo sinal. O fato é que eu prestei atenção no que ele fazia quanto à transgeneridade a partir do vestir-se com roupas típicas do outro gênero. Não era uma fantasia, era uma coisa possível e eu desejava. Aí eu fiz contato com grupos de trans, chamados crossdressers à época, e comecei a transitar nesse universo, a trilhar esse movimento, a ter essa vivência que tenho até hoje. 

“A Cidade dos Piratas” é uma obra atualíssima, que traz muito da história recente do Brasil. Eu acho ótimo, mas volta e meia quando se lança alguma produção que se apoia alguém diz: “É o momento ideal de trazer questões do hoje? Não seria melhor pensar e absorver isso antes?”. Você concorda?

Sério? É uma animação, então não tem nada de audacioso demais pra época que a gente tá vivendo, seja em elaboração do roteiro, desenhos e cenas. O processo foi finalizado há uns dois anos. É aquilo, não foi feito ontem, nem no mês passado. Acho que o que acontece é que se mostrou previsível, não era preciso ser um vidente pra apontar a possibilidade de uma situação autoritária ou o acontecimento de uma coisa semelhante ao que que essa pessoa monstruosa acabou de dizer na Câmara, ameaçando o país e a sociedade com uma nova ditadura [referia-se à fala do deputado Eduardo Bolsonaro que durante sessão nesta terça-feira (30) afirmou que “a história vai se repetir”]. Um sujeito desses tem que ser absolutamente impedido e ter seu mandato cassado sumariamente. Bem, tudo isso tava sendo mais ou menos desenhado há alguns anos, quando começou a destruição das instituições do Brasil em nome de ideias equivocadas de combate à corrupção. O que a gente tá vivendo hoje é a concretização, uma situação muito perigosa, de muito risco.

Você sempre teve um olhar sensível e é uma das cartunistas mais importantes que temos. Hoje nós temos uma cultura muito forte de memes, a arte segue sendo atacada e há vários episódios envolvendo censura… Nesse contexto, o que a charge política representa?

As charges representam o que uma charge representa. Trata-se de um desenho satírico que procura de uma forma trazer reflexão política sobre a realidade. Eu procuro fazer com a charge, que é o espaço editorial de um jornal, um espaço ativo e vivo, embora o jornalismo impresso esteja vivendo uma crise e essa coisa seja detectável no Brasil inteiro. Porém, acho que existe esse espaço e eu fico contente de ocupar uma parte disso pra produzir. Eu não sei o que faz uma charge, é um pouco difícil de você prever, às vezes só o tempo é capaz de avaliar o quanto a charge ou o humor interferiram em determinada realidade. Enquanto você tá fazendo é difícil avaliar, sabe? Dizer “Ah, se você fizer, o efeito será a queda do juiz Sérgio Moro”… não dá.

E como você acha que a charge tem ajudado as pessoas a pensar sobre a situação política? 

Uma das coisas mais evidentes nesse processo é reforçar determinadas posições, de forma que se produz sentimentos e as pessoas podem pensar e jeito ou encarar as coisas de tal forma. É uma maneira de você dizer pra pessoa que lê: ‘Você está certo nisso que está pensando’. O riso solidário é uma manifestação de cumplicidade. A charge nesse ponto diz que é uma forma de reforço das posições similares e ela funciona também como um abalo pra convicções que são opostas. Então se você, através de um desenho satírico, consegue situar de forma ridícula algo que as outras pessoas têm como respeitável, é uma forma de contribuir pra um tipo de mudança – embora eu ache que seja a parte que menos acontece. É uma análise que leva tempo pra ser finalizada.

Pra fechar… soube que você está trabalhando em uma história longa. Dá pra me contar mais?

Sim! É um romance gráfico, vai ter não sei quantas páginas, pro meu padrão são muitas (risos). Não é uma autobiografia, mas usa material do meu memorial, das minhas vivências e gira em torno de experiências de sexo e política de pessoas da minha geração. Acabou se centrando anos 1960 e 1970, nessa passagem de décadas e acho que foi o âmbito em que se produziram grandes crises, conflitos e mudanças… Eu vivi isso, foi uma época em que a ditadura tava mudando de flexão. Tô construindo já há alguns anos e tá caminhando pra um arremate, tá perto do fim e depois disso começo a desenhar. Só não sei quanto tempo mais vai levar, porque digo que é mais difícil e complicado e demorado produzir essa primeira parte, do roteiro, do que a própria história visual em si. É minha experiência falando.

 

“A Cidade dos Piratas” estreia nos cinemas nesta quinta-feira (31).

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