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Todas as vezes em que Dona Onete mostrou ser a rainha do carimbó

O Brasil, sendo um país de proporções continentais e palco de tantas misturas, só poderia ser dono de uma cultura que enche os olhos, deixando-os tanto marejados, quanto curiosos. A emoção de vivenciar na prática as produções que aqui nasceram é única e, desprendendo-se do que se cria na rota Rio-São Paulo, outras regiões sempre estão prontas pra nos surpreender e encantar.

Pra quem sempre buscou conhecer um pouco mais do Norte e ter acesso a um trabalho consistente, que entrega novas cores, sons e visões de mundo, saiba! Todas as chaves pra resolver este enigma e lançar luz sobre um Brasil pouco explorado estão nas mãos de uma só mulher: Dona Onete.

Cantora, compositora e poetisa, ela nasceu no finzinho da década de 1930 em Cachoeira do Arari, região de Marajó – um dos lugares mais fabulosos e místicos deste país. Hoje, aos 80 anos, a artista ostenta com orgulho o título de rainha do carimbó, ritmo mais marcante do Estado do Pará.

Para entender todos os motivos que a elevam a um dos mais altos posto do estrelato, não só como grande revelação, mas também como ícone permanente, é preciso mergulhar no passado. Por isso decidimos enumerar todas as vezes em que a artista se mostrou embaixadora de sua cultura. Permita-se conhecê-la!

Dona Onete foi professora de Estudos Amazônicos

Batizada originalmente como Ionete, a musa passou boa parte da vida se dedicando ao ofício de professora. Durante 25 anos ela lecionou História e Estudos Amazônicos em pequeno município chamado Igarapé-Miri, sempre alimentando o sonho de viver de música e preservar suas raízes. Nas palavras dela, os tempos em que lecionou foram uma oportunidade de resgatar acontecimentos importantes do passado:

“Eu falava da invasões que o Pará sofreu com navios, daqueles que não aceitavam a nossa independência e morreram sufocados pela maldade dos portugueses… falava da nossa história indígena. A história que vem do Rio [de Janeiro] e de sei lá onde fazem os livros, não conta o que é da gente. Cada estado deveria ter o seu livro de história. Eu, quando professora, colocava sementinhas na cabeça dos meus alunos. Até hoje falo da história, dou um sabor diferente”.

Dona Onete mergulhou de cabeça nos ritmos paraenses

Foi também em Igarapé-Miri que a musa, como membro da Secretaria de Cultura local, criou grupos de dança e música regional até os 62 anos, quando se aposentou. Certo dia, em casa, tranquila, ela ouviu um grupo de Carimbó ensaiando do outro lado da rua. Foi então sentiu vontade de cantar e atraiu imediatamente os olhares dos jovens que ali estavam. Algum tempo depois, foi convidada pra se juntar a eles e aí… sua vida ganharia novos rumos.

Na posição de vocalista, passou pelos grupos “Raízes do Cafezal” e “Coletivo Radio Cipó”, projetos que a colocaram na vitrine de jovens talentos da região e fizeram com que brotassem convites não só para shows, mas também para atuar.

Alçou o carimbó rumo ao cinema

Nas telas, Dona Onete interpretou uma cantadora de carimbó em “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, trama estrelada por Camila Pitanga. Lançado em 2011, o filme serviu como um divisor de águas em sua carreira e a gente adoraria destacar nessa produção uma das cenas, quando Dona Onete se apresenta pra uma plateia lotada ao som da faixa “Amor Brejeiro”. A canção, apesar de carregar uma essência pop, traz na base instrumentos bem específicos da música regional.

Consciente ou não do que vinha fazendo, a musa se firmou como porta-voz do Pará e no ano seguinte chegaria às lojas “Feitiço Caboclo”, seu primeiro álbum de estúdio. O trabalho é lindo, poético e dá as boas-vindas ao público com a faixa “Poder da Sedução” – um título que diz muito e serve como indicativo de seu espírito denso, tocante, mas que não deixa de ser serelepe e cheio de malícia.

Se revelou uma super compositora…

Foi também a partir deste trabalho que surgiram hits como “Jamburana”, faixa inspirada no jambú, erva típica da região (dotada de várias propriedades, entre elas antisséptica, diurética, bactericida e afrodisíaca). Em uma entrevista para a TV Brasil em 2018, Dona Onete contou como surgiu a composição, inspirada livremente em um acontecimento do cotidiano:

“Miranda [produtor] estava almoçando no Remanso do Peixe [restaurante de Belém]. Havia uma menina gestante e veio muito jambu e tucupi no prato dela. Foi aí que alguém disse: ‘Não come, pode te fazer mal”. Eu disse “Jambu não faz mal, é bom. Eu tô até fazendo uma música sobre ele, que é pra me levar pra Virada Cultural’. Duvidaram de mim, mas saí e cheguei em casa, terminei a letra. Cantei e fui a São Paulo”.

Com um interesse crescente por seu trabalho e, claro, por suas mensagens regadas à veia de poetisa, não seria difícil ultrapassar a marca de 300 composições. De lá pra cá, Onete teve faixas gravadas por conterrâneos seus como Aíla e Gaby Amarantos – artistas que, aliás, despontaram na cena nacional comungando o mesmo desejo de levar o Pará para o mundo. Por falar em Gaby, no ano passado elas se encontraram nos palcos, ainda na companhia de Pitty. “No Meio do Pitiú”, clássico de seu repertório. Repare só na beleza desse visual escolhido para a ocasião:

Levou as cores e a singularidade do Pará para o mundo

Foi justamente a partir desta explosão que Dona Onete percorreu o mundo, originando assim a turnê que deu nome ao seu primeiro álbum ao vivo, “Flor da Lua”, lançado em 2018. Para este show específico, a artista caprichou no figurino. Espia só essa foto tomada durante as filmagens do projeto. Nela, a artista aparece usando um vestido com a tradicional saia rodada e ornada da cabeça aos pés em tons de vermelho e azul turquesa.

No estúdio, ela retornou outras duas vezes para maratonas intensas de gravação que originaram os discos “Banzeiro” (2016) e “Rebujo” (2019), este último que acaba de sair do forno como um dos contemplados pelo edital Natura Musical. Além de ter mergulhado fundo na folia paraense quando se fala de ritmo, Dona Onete também trouxe no título do projeto uma boa dose de cultura ao emprega uma gíria popular.

O tal rebujo, nada mais é do que um nome alternativo para as correntes do Rio Amazonas, que transportam lodo e nutrientes acumulados em seu leito para a água. Isso alimenta os habitantes ribeirinhos e dá ao rio uma cor lamacenta. O movimento também é forte e é capaz de levar consigo até o nadador mais esperto – uma analogia muito feliz à organicidade, a grandeza e a fúria deste trabalho.

Se você também se rendeu aos encantos desta voz, aqui vai um lembrete: Dona Onete abre os trabalhos da próxima edição do Coala Festival, que acontece em São Paulo entre os dias 07 e 08 de setembro no Memorial da América Latina. Na ocasião, ela faz as honras da casa e a nossa dica é: corra! Ainda há ingressos disponíveis e você pode adquiri-los clicando aqui.

Já comprou o seu? Então se joga nessa playlist exclusiva criada pela Natura Musical, a fim de fazer um esquenta pra essa festa.

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