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“Madame X” de Madonna não é apenas seu melhor álbum desde “Confessions”, mas um dos cinco melhores da carreira 

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[Colaborou James Cimino]
Especial para o Papel Pop, em Nova York

A expectativa para a chegada de “Madame X”, 14º álbum de estúdio de Madonna, era grande. Depois de três álbuns que não foram necessariamente inesquecíveis (“Hard Candy”, “MDNA” e “Rebel Heart”), muita gente pensou que a rainha do pop tinha, senão perdido a mão, perdido o timing. Ela, que sempre esteve alguns passos à frente das novas tendências, estava agora correndo atrás do hip hop e da EDM que se tornaram os standards da música pop americana.

Mas aí aconteceu o improvável: o futebol salvou Madonna quando ela decidiu se mudar para Lisboa. Seu terceiro filho, David Banda, queria treinar o esporte, mas jamais encontraria espaço nos Estados Unidos.

Nessa incursão descobriu algo que talvez tenha passado despercebido pelo resto do mundo: Portugal colhe hoje, culturalmente, o resultado de seu colonialismo. Lisboa é destino de músicos imigrantes de suas ex-colônias africanas, do Brasil e também da América espanhola.

E ao contrário do que seus detratores pensam, o tempo não está contra Madonna, mas sim a seu favor. Ela e Portugal têm em comum o pioneirismo na exploração de novos mundos e a apropriação de sua cultura. Mas em “Madame X”, como em Portugal, é Madonna quem está sendo apropriada e conquistada pelos imigrantes de outros ritmos. Neste álbum, ela se coloca muitas vezes como espectadora, coadjuvante, mas principalmente como produtora. E até quando se coloca atrás da cortina, sua presença é aterradora.

Como disse o produtor musical Nego Mozambique: “Parece mais um álbum que ela produziu. E o melhor: não parece disco de ‘véia’ tentando fazer a ‘novinha’. É um disco contemporâneo, que tem todos os beats ‘comerciais’ sem soar comercial. ‘Batuka’ eu achei fodassa. Tipo de coisa de quem trabalha com música há séculos. Na primeira faixa, a presença dela é bem sutil. Ela deixa o Maluma cantar, mas mesmo com o menino cantando, a sombra dela por trás das músicas é muito forte, mas em um nível superior aos últimos álbuns”

O disco, como quase todos os críticos classificaram, é ousado, diferente de tudo o que ela já fez e bizarro. Portanto, talvez a melhor maneira de se falar de “Madame X” é classificando suas músicas em categorias totalmente aleatórias.

Exemplo: as faixas que eu acho que ficaram ainda melhores no álbum são “Future” e “Crave”. A maioria da comunidade LGBT meio que torce o nariz pra reggae, mas eu não apenas adoro “Future”, como acho que super combina com o clima de praia, sol e muita sensualização de “Medellín”. Acho ainda que o legal dessa música são aqueles trompetes e a letra, que meio que dá aquele recadinho aos que criticam o experimentalismo do álbum: “Nem todo mundo é bem-vindo ao futuro/Nem todo mundo aprende com o passado”.

Já “Crave”, que eu amei desde a primeira audição, fez todo sentido no álbum com a crítica elogiosa que a revista inglesa “NME” fez, dizendo que a Madonna tinha captado o espírito do fado nesta faixa, que é na verdade um hip hop. Mas, encaixada entre dois fados (ou duas versões de Madonna para o ritmo português), que são “Killers Who Are Partying” e “Crazy”, “Crave” vira um diamante.

Essa sequência, aliás, eu diria que é a categoria filé mignon de “Madame X”. “Crazy” começa com um acordeom super fofo e nos brinda com Madonna falando português com um sotaque mais fofo ainda (“eu tchi amo, maix não deixo você me destruir”). Ao mesmo tempo, eu tive que procurar na internet as letras para entender que ela diz “você me põe tão louca” e “você não vai me por tão louca”. Deve fazer sentido em Portugal.

Já antes de “Crave” vem talvez a faixa mais linda do álbum todo, que é “Killers Who Are Partying”. A crítica caiu de pau nessa música porque onde já se viu uma branca milionária “roubar o lugar de fala das minorias”? Nas últimas quatro décadas essa branca milionária adotou quatro órfãos da Aids, construiu 15 escolas para meninas e um hospital infantil com centro cirúrgico no país mais pobre da África, combateu a discriminação e investiu na cura da Aids, deu voz a mulheres, LGBTs, mas, se nada disso for suficiente para acreditar em sua empatia pelos oprimidos, tem a linda melodia e um simples verso em português que expressa a maior verdade sobre qualquer pessoa que tenha sofrido preconceito e discriminação: “o mundo é selvagem/o caminho é solitário”.

Preso dentro dessas músicas

A essa altura do dia todo mundo já colocou alguma música de “Madame X” no repeat e está morando lá dentro dela. No meu caso são “Come Alive”, “Bitch I’m Loca”, “God Control” e “I Don’t Search, I Find”.

“Come Alive” é aquela faixa do filme que nunca fizeram chamado “se minha vida fosse um videoclipe”. Neste caso, eu descendo a Serra do Mar de carro no meio da garoa e quando já no final da descida as nuvens se abrem, vem o sol, um arco-íris, eu vejo o mar e o coro vai cantando “come alive/come alive/come alive”. Sobem os créditos.

“Bitch I’m Loca” é aquela música inapropriadíssima para se ouvir quando se entra no metrô lotado e tem um boy magia do seu lado, porque a química sexual entre Maluma e Madonna escorre pelo fone de ouvido, especialmente quando ela fala “I like to be on top” e dá aquele gemido que coloca a gente dentro do clipe de “Erotica”

E aí tem aquelas duas jóias para nós cacuras viúvas de “Erotica” e “Confessions on a Dance Floor”. “I Don’t Search, I Find” é pra derreter na pista e podia fazer sequência com “Deeper and Deeper” facilmente. E “God Control”, que eu chamaria de “American Life on a Dance Floor”, pois começa com Madonna jogando a real do capitalismo (“Todo mundo sabe que eles não têm chance de conseguir um trabalho decente e de ter uma vida normal”), ao fundo um coro “Like a Prayer”, tudo embalado em uma disco music. Brilhante!

Hinário

É um adjetivo bom pra “Madame X”, como vi no Twitter. Além do coro de “God Control”, tem “Batuka”, com as Batukadeiras de Cabo Verde, que talvez eu goste mais ao vivo, tem o “one-two-two-cha-cha” de “Medellín” que já grudou que nem chiclete e tem o dueto com Anitta que, goste-se ou não dela, foi a faixa mais bombada no Twitter (já ganhou petição para um videoclipe), sendo a mais tocada no mundo na Last FM.

Mas hino mesmo é “Dark Ballet”. Não apenas porque ela podia ser apenas um video single como foi “Justify My Love”, mas porque funciona sozinha, em vídeo e no álbum. Também porque aqui Madonna novamente tira o protagonismo de si e dá lugar de fala às Joanas D’Arc contemporâneas.

O que dá mais status de obra de arte a esse vídeo, no entanto, são os diversos comentários negativos recebidos no YouTube, que acusam a cantora e sua obra de fazer apologia ao satanismo. Foi exatamente esse tipo de acusação que levou Joana D’Arc à fogueira, vinda de gente que se diz cristã, mas que estaria no primeiro lugar da fila para tocar fogo na santa francesa. E se a temática soa repetitiva, talvez fosse o caso de direcionar as reclamações às Damares, Malafaias e Bolsonaros que insistem em querer ressuscitar a santa inquisição.

Posto isso, devo dizer que pela primeira vez eu gostei mais da versão standard que da versão deluxe de um álbum da Madonna. Exatamente porque na standard não estão as duas músicas que eu menos gostei: “Extreme Occident” e “Looking for Mercy”. No entanto, a versão super deluxe, que vem com três faixas extras, me agradou muito.

Começa com “Funana”, um música em que Madonna diz que precisamos de mais Bowie, Whitney, George Michael, Prince, Aretha Franklin e outros grandes artistas que recentemente nos deixaram.  Depois vem uma versão eletrônica de “Back that Up”, aquela demo incrível de “Rebel Heart”, que soava como um funk tocado no programa “Soul Train” e que neste remix ficou foda. Mas a melhor das faixas bônus se chama “Bella Ciao”. Seis minutos de um house progressivo pra deixar qualquer EDM humilhada.

Enfim. É sim o melhor álbum desde de “Confessions”, eu diria que até melhor que “Confession”, por ser mais inusitado e experimental. Na verdade, no meu ranking eu colocaria “Madame X” ao lado de “Like a Prayer”, “Erotica”, “Ray of Light” e “Music”.

E, para não dizer que não falei da idade de Madonna, nada melhor que, aos 60 anos, estrear um álbum em primeiro lugar nas paradas de 60 países. Como ela diz em “I Rise”, a faixa que fecha o álbum: “I rise up above it all”.

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