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Criadores de “O Escolhido” falam ao Papelpop sobre a riqueza cultural e os mitos do Brasil

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A Netflix tem investido pesado no lançamento de produções nacionais, especialmente se o objetivo delas for explorar novas e curiosas faces do Brasil. Na próxima sexta-feira (28), por exemplo, chega à plataforma sua primeira série de suspense sobrenatural.

Adaptada a partir de uma outra produção, a mexicana “Niño Santo”, “O Escolhido” narra a história de um grupo de médicos enviados a Águazul, um vilarejo isolado no Pantanal. Sua missão é vacinar o maior número de pessoas possível e protegê-lo de uma nova mutação do vírus da Zika, altamente fatal.

Ao finalmente chegar neste local cercado por uma aura macabra, sua presença é refutada com todas as forças por cada um de seus moradores – o que os deixa profundamente intrigados. Afinal, por que ninguém iria querer receber atendimento médico? Após muita teimosia, a determinada Lúcia, médica que comanda a ação, descobre que a comunidade é devota de um líder misterioso que, sem qualquer explicação científica, livra seu povo de eventuais enfermidades.

Produzida pela Mixer Films, esta história que mescla realidade e fantasia tem como protagonistas os atores Paloma Bernardi, Pedro Caetano, Gutto Szuster. Assista ao trailer:

Deu pra sentir a tensão, né? Escrita pelos respeitados Raphael Draccon e Carolina Munhóz, esta tem tudo pra ser uma daquelas aventuras que nos prendem do início ao fim – mas que, acima de qualquer coisa, também nos fazem refletir a respeito de várias questões. Para entender melhor quais foram as referências escolhidas para enredar esta trama e, claro, mergulhar um pouco mais a fundo no universo fantasioso que a cerca, batemos um papo com ambos os criadores por telefone.

Nessa conversa super produtiva, falamos sobre a complexidade das intrigas presentes na narrativa, a riqueza cultural da América Latina e suas expectativas para o lançamento.

Papelpop: O Escolhido é o primeiro suspense sobrenatural brasileiro da Netflix. Como está a expectativa, faltando poucos dias para a estreia?

Carolina: Nossa, verdade! Estamos muito felizes, porque foi um processo super intenso. Mergulhamos nessa história e estamos literalmente dando a luz a um projeto que nos orgulha muito e que nos deixa extremamente satisfeitos com o resultado. Somos muito críticos, talvez por termos trabalhado com crítica literária e a própria literatura, então estar numa serie em que temos a oportunidade de produzir conteúdo e poder olhar para um resultado como tal… é algo que nos deixa muito felizes. Não vemos a hora de que isso chegue até vocês!

A trama de “O Escolhido” surge como uma adaptação da série mexicana “Niño Santo”. Como surgiu o interesse de vocês em resgatar essa história?

Raphael: O interesse partiu da propria Netflix e aí a gente fez um clipe sobre como seria a nossa visão da história, usando referências de Guilhermo Del Toro, M. Night Shyamalan e Ryan Murphy, sempre mesclando-as a este estilo repleto de brasilidades, encontrado a partir do resgate aos mitos, lendas e das próprias regiões do país que não são mostradas no audiovisual brasileiro. Eles adoraram a roupagem, entenderam a nossa proposta e notaram que existia algo de “Keep Watching”, o que atrairia também o público. É uma serie com teorias pra serem debatidas e que nos deu uma liberdade criativa muito grande e um material rico que pudesse ser trabalhado. Tem a nossa cara, é brasileira e explora o lado fantástico, lindo e místico que existe no Brasil e nas nossas florestas.

Nós temos uma cultura muito vasta e rica em várias regiões do país, mas fiquei curioso. Por que a escolha do Pantanal como pano de fundo pra essa trama?

Carolina: Justamente pela parte mística que existe. Nós, como brasileiros, temos essa curiosidade e como era um local isolado por água, seria perfeito para a ambientação também. A Amazônia também foi cogitada, mas o pantanal é menor e temos um carinho especial com as bichos, os sons, os animais…

Raphael: Isso mesmo. Por exemplo, tem uma espécie de macaco, o chamado “Macaco Bugio”, que está presente só no pantanal. Se você escuta o grito dele, parece um espírito (risos). Todas essas particularidades nos chamavam muito a atenção e quando você olha de cima é algo ainda mais fantástico. Tem algo de sobrenatural, de místico e encontrar locais como Natividade, município no Tocantins em que parte das filmagens foi feita, traz até nós aquela impressão de que o local talvez esteja mesmo parado no tempo. Existe uma sensação de ligação com a própria história em que você enxerga nas pessoas e nas construções algo único. É isso que vamos mostrar para os brasileiros, que de alguma forma já tem seu contato com esta realidade e estão acostumados, bem como para os americanos, que só conhecem uma realidade de praias e espaços clássicos. Agora todos poderão imergir neste Brasil.

Vocês gravaram em uma cidade muito antiga e eu não pude deixar de sentir na criação dessa narrativa uma forte presença das tradições e da cultura oral. Estou certo?

Raphael: Totalmente! Foi justamente isso que nos aproximou tanto do resultado que queríamos, permitindo que trouxéssemos, por exemplo, a lenda do Minhocuçu, o cabelo da nossa senhora e até o simbolismo das próprias igrejas antigas. Os próprios figurantes, que interpretam os moradores, deram uma verdade que foi alem da arte de atuar.

Vocês acham que esse universo enigmático, fantástico, pode existir em algum lugar na vida real?

Carolina: Olha, como escritores de literatura fantástica, nós acreditamos. O sobrenatural é comum em nossos dias e adoro pesquisar, ouvir historias, buscar por detalhes… Eu mesma tenho pai mineiro e passei minha infância ouvindo causos como a Dama de Branco… Isso acontece em tantos lugares do Brasil, por que não explorar essas histórias no audiovisual? Agora é a vez da plataforma nos dar a oportunidade.

No primeiro episódio acontece uma revolta popular que está diretamente ligada a essa aura macabra, a eventos fantásticos ligados a’O Escolhido. Isso me remeteu de alguma forma ao realismo mágico latino-americano, principalmente as narrativas de Gabriel García Márquez. Vocês acreditam o lançamento desta série seja uma oportunidade de trazer à tona mais uma vez esta parte mística e de crenças que é tão importante para a história da América Latina?

Raphael: Ótima pergunta, porque você foi direto ao ponto. García Márquez foi realmente foi uma referência e o realismo mágico, como você pode perceber, mostra também um certo drama, mas de repente também promove um movimento nessa narrativa… que é algo que não deixamos de usar em “O Escolhido”.

Carolina: Esta foi uma das coisas que mais nos seduziu quando a gente viu como esses autores abordaram esse universo. Seríamos capazes de transformar isso. Antes até, o Rapha teve a oportunidade de lançar uma série e notamos como mexicanos e brasileiros pensam igual sobre a espiritualidade. Com os demais países da América Latina isso também se passa. Claro, são diferentes, cada um tem sua própria crença, mas existe um respeito e uma convivência com opiniões que mesmo diferentes sempre tem um pézinho no mistico, no sobrenatural e por que não no divino. Essa conexão que vimos olhamos e dissemos isso é brasileiro e é mexicano, você vai perceber q a nossa conversa sobre fé é muito parecida com a mexicana.

 A Netflix também tem preparado uma adaptação de “Cem Anos de Solidão”. Vocês estão curiosos?

Carolina e Raphael: SIMMM! (risos).

Carolina: Estamos totalmente curiosos! Assim que saiu a notícia já fiquei pensando sobre o que virá.

Raphael: Exato. E é legal fazer esse caminho que sai das páginas impressas para o audio-visual. Tô curioso.

Em “O Escolhido” existem temas muito atuais, como a epidemia do vírus da Zika e o próprio machismo, evidenciado a partir de algumas cenas com a Lúcia, que é uma completa heroína. Por que o interesse em trazar essas temáticas?

Raphael: Antes de mais nada, o vírus da Zika a gente sabia que era uma temática de interesse internacional. Certo dia, antes de ir para os Estados Unidos, a Carol foi ao médico e tinha um poster explicando sobre a doença em inglês. “Se você está gravida, fique atenta aos cuidados necessários”, algo assim. Quando o medico perguntou o que ela fazia e mencionamos a série, ele ficou bastante feliz com a nossa escolha, ressaltando o quanto aquilo era importante, mesmo em se tratando de uma obra de ficção, e se mostrou super interessado, dizendo que indicaria pras pessoas…

Carolina: E é engraçado que a gente vê filmes que envolvem vírus e mutações produzidos no exterior, mas não há tantas adaptações para o Brasil. Foi justamente com o intuito de levar o nosso espectador a pensar que escolhemos isso. É legal imaginar. Suponhamos que uma mutação viral seja capaz de evoluir e matar em horas. Como o Brasil se portaria quanto a isso? Já o machismo foi algo que partiu da própria adaptação brasileira, quisemos deixar bem claro que uma mulher é capaz de conseguir seu emprego, ocupar cargos de liderança… A Lúcia é uma pantaneira de personalidade forte, que passou no vestibular de medicina com todas as suas limitações e que, agora, ao exercer sua profissão ao lado de dois médicos homens, e que também são líderes e têm opiniões concretas concretas, consegue ser respeitada, tendo consciência do valor do seu trabalho.

A Lúcia também passou por um drama familiar, que é a perda do pai, e agora ao entrar em Aguazul ela se depara com um novo conflito que envolve fé e ciência. Esse debate, apesar de antiquíssimo, tem entrado mais uma vez nas pautas da sociedade brasileira. Essa sobreposição de fé a ciência, e vice-versa, pode ser uma porta para um mundo mais opressor, com menos diálogo?

Carolina: Nós quisemos mostrar através da série o quanto é necessário que se tenha opiniões diferentes e, claro, o quanto o diálogo é um agente necessário para se ouvir e aprender mais, livrando as pessoas do extremismo. Mesmo a Lúcia sendo tão caxias e tendo passado por uma situação de perda provocada pela religião, ela é capaz de enxergar as particularidades dessa cidade tão devota, que vive sob regras tão diferentes das dela, buscando entender de que forma eles agem. Esse debate é muito saudável e foi o caminho.

É possível que ambas as coisas caminhem de mãos dadas?

Carolina: A gente espera né? É o desejo da humanidade. Como civilização, conversar e se entender mais. Enquanto sociedade, não tentar exprimir apenas as nossas opiniões sem nunca escutar. Se tudo for assim, não caminharemos. Como um projeto de ficção, tentamos mostrar que existem dois lados opostos que se enfrentam em um conflito inicial, mas que a certa altura deste embate permitem encontrar um ponto de intersecção para que o diálogo os salve.

Raphael: Até porque, em uma análise do mundo atual, as redes ampliaram a comunicação. Agora todo mundo pode ter voz, mas as pessoas se ouvem menos e discutem mais.

Carolina: Isso. Nada do que está dito ali está dito como verdade absoluta. Por isso gostamos de mostrar lados diferentes e quisemos produzir uma série em que você pode debater, sentar e conversar a respeito daquilo que acredita e que está impresso ali. Essa conversa, esse debate, é o nosso grande objetivo.

 

“O Escolhido”, é sempre válido reforçar, chega ao streaming no próximo dia 28, sexta-feira.

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