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Gravar um disco de outro artista é homenagem ou jogada de marketing?

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Por qual razão um artista brecaria uma sequência de trabalhos autorais para lançar um disco repleto de releituras de um outro artista? O trabalho mais recente do Silva traz esta pergunta. O projeto que começou no estúdio no ano passado, amadureceu com uma turnê com casas lotadas, desembocou num trabalho ao vivo e demonstra o furor do público em receber as composições de Marisa Monte. Bloqueio criativo? Jogada de marketing? Homenagem ainda em vida para o seu ídolo?

Silva tem uma discografia concisa e bem amarrada. São dois EPs, dois discos ao vivo e quatro discos de estúdio. Bastante trabalho lançado para meia década, não?

Desde o começo, em 2012, o cantor capixaba entrega canções em português de alto teor pop com flertes de música eletrônica. O seu último disco autoral, “Júpiter” (2014), é um trabalho gostoso de ouvir e atual.

Após algo tão fechado e que conversava com o que estava sendo executado no mercado estrangeiro, o que o público e crítica poderia esperar dele? Acho muito difícil alguém ter chutado um disco de covers. Foi uma baita surpresa. Aquele que seguia uma cartilha de Frank Ocean e Massive Attack, lançar um apanhado de músicas populares?

O Silva vivia numa linha tênue dentro do mercado brasileiro. Muito pop para quem curte indie, muito indie para quem curte pop. Tiago Iorc também esteve neste balaio até lançar “Troco Likes”. As cantigas de Marisa Monte está sendo um divisor de águas para o artista.

Não é fácil botar a cara (voz) em uma entidade como a Marisa Monte. A cada faixa do recorte ao vivo de Silva, me remeteu a uma fase de minha vida. Para quem viveu os anos 90, a cantora esteve presente em muitos lares.

Mesmo sem ser fã, qualquer cidadão consegue cantar e até tocar no violão algo do disco “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor”, que tem alguns hits como “Amor I Love You”, “O que me Importa”, “Não é Fácil” ou “Não Vá Embora”. A escolha do repertório foi certeira e agrada a qualquer fã da cantora.

Se uma pequena parcela do público da Marisa, ouvir um bocadinho das outras músicas do Silva e acompanhar o cantor, já está valendo. A releitura das músicas foram feitas dentro do universo do cantor.

Os beats eletrônicos, a voz meio com vergonha e namoro com o R&B estão ali. Para quem for ouvir a discografia depois deste registro tem uma boa chance de gostar do rapaz.

Ter uma pausa em sua discografia autoral e ficar imerso num trabalho tão rico e importante para a música brasileira, pode ser benéfico para o Silva. Beber em outra fontes e ficar num projeto como cantar músicas da Marisa Monte pode levar as composições dele para outro patamar. Por exemplo, Marcelo D2 homenageou o seu mentor Bezerra da Silva e, na sequência, entregou um disco autoral importante em sua carreira, o “Nada Pode Me Parar”, em 2013.

O mais interessante deste disco é o intercâmbio de sons. Fãs da Marisa Monte descobrirem o trabalho do Silva e vice-versa. Por mais que dê um trabalho árduo e seja arriscado, releituras são necessárias no mercado que vivemos.

Com um volume absurdo que chega semanalmente, ter artistas novos revirando o passado é uma oportunidade para conhecer cantores(as) incríveis. Imaginem ter uma sequência assim com outros nomes? Zaac e Jerry cantando Claudinho e Buchecha. Jorge e Mateus revivendo Milionário e José Rico. Pitty mandando Rita Lee. Eu gosto desta ideia.

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O jornalista paulistano, produtor musical e marketeiro Brunno Constante analisa, pondera, escreve e traz novidades sobre música no Papelpop todas as terças-feiras.

Fita Cassete é o alterego de Brunno quando ele fala sobre o assunto.

Quer falar com ele? Twitter: @brunno.


* A opinião do colunista Brunno Constante não necessariamente representa a opinião do Papelpop. No entanto, por aqui, todas as opiniões são bem-vindas. :)

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