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Álbum tem produção musical de Fabrício Almeida (Divulgação)

Entrevista: Gabeu constrói imaginário queer em diferentes vertentes do sertanejo em “Agropoc”, disco de estreia

Nesta terça-feira (10), o cantor e compositor Gabeu começou uma nova fase da carreira com “Agropoc“, disco de estreia. O álbum chegou nas plataformas digitais na madrugada de hoje. Durante a semana passada, o Papelpop realizou uma entrevista com o artista sobre seu novo projeto, que tem produção musical assinada por Fabrício Almeida. Entre as dez faixas, nove são composições autorais. Na tracklist, há uma releitura de “Cowboy”, da Banda Uó, e parcerias com Reddy Allor e Bemti nas canções “Queda D’Água” e “Bem Te Vi”, respectivamente.

Ao sintonizar a primeira canção do projeto, o ouvinte é inserido na Rádio Agropoc, “a programação sertaneja mais ouvida do país”. “Você vai curtir agora o som que vem do interior”, avisa o artista. É fazendo um paralelo com o rádio, meio de comunicação em que o sertanejo ainda detém força singular, que Gabeu dá início a seleção de músicas escolhidas para integrar o seu primeiro disco. Além da expressão midiática, o rádio também é fonte de muita nostalgia para o artista, algo que o leva diretamente para os tempos de infância em que ouvia e cantava músicas com seu pai, Solimões.

“Meu pai sempre sintonizava na rádio sertaneja ou colocava os CDs que ele escutava, e eu gostava muito. Tem músicas dessa época da minha infância que me marcaram muito, que eu lembro até hoje da gente dentro do carro e eu pequenininho no banco de trás escutando e cantando”, relembra. “Inclusive, uma dessas [canções] é ‘Telefone Chora’, da dupla Lourenço & Lourival, uma música que ficou marcada na minha mente esses anos todos. Então tem esse valor sentimental, sabe? Quando eu falo de rádio eu lembro desse momento, de tudo que eu escutava com meu pai, com a minha família. […] É fazer esse resgate cultural e musical, mas também resgatar essas memórias afetivas.”

 O novo trabalho realiza um passeio por diversas vertentes do sertanejo, como uma espécie de estudo e homenagem ao gênero, em que Gabeu imprime sua assinatura em cada faixa. “Foi um processo bem interessante. Eu gosto muito de pesquisar sobre a música sertaneja, sobre as diferentes vertentes, as diferentes influências de outros gêneros, de outros estilos.”

Desde 2019, quando lançou ‘Amor Rural’, o artista vem fazendo um mergulho sobre os estilos e a própria história do sertanejo. “Gosto muito de pensar como esse gênero é diverso no sentido musical, ele foi muito diverso, explorou muitas coisas ao longo desses anos todos. Então, eu tentei pegar um pouquinho de cada coisa, um pouquinho de cada uma dessas vertentes. […] Tentei beber de todas as fontes que me encantam dentro do sertanejo”, relata o artista.

“Tem uma música no álbum, por exemplo, que tem uma pegada super country, de filme de faroeste. Essa é parte da influência da música country sobre a música sertaneja. Tem uma outra que é super latina, tem uma pegada mariachi, mexicana, e é sobre a influência latina na música sertaneja”, continua o cantor sobre os ritmos que influenciaram a obra. “Foi um processo muito gostoso brincar com todas essas misturas, com todos esses estilos. Muito enriquecedor também porque eu acho que isso aqui me deu essa bagagem de entender um pouquinho de cada momento da música sertaneja.”

Entre as faixas, a multiplicidade não é quesito apenas no traço musical, temas diversos são tratados durante toda a narrativa de “Agropoc”. Da festiva “Bailão”, que vai lembrar a muitos de uma boa comemoração de São João e Santo Antônio, até “Filho”, que apresenta uma delicada história fraternal. São assuntos plurais que integram esse disco. Para Gabeu, a ideia sempre foi tocar o ouvinte, fazê-lo sentir-se emocionado e tomado por alguma lembrança, que essas canções possam se conectar com a história de cada um.

Um dos vanguardistas do queernejo, movimento musical LGBTQIA+ do sertanejo, o artista também encara seu primeiro álbum como o ponto de chegada de uma batalha pessoal. “Toda a minha relação com o sertanejo foi pautada muito no amor e no ódio. É uma coisa muito louca porque tem toda essa questão de eu não me enxergar no espaço sertanejo durante muito tempo. De olhar e pensar ‘esse lugar não condiz comigo, não me cabe, eu acho que não é ali que eu devo estar’, então acabei migrando para outros espaços também, como o pop”, explica o cantor sobre o início de sua carreira. “Eu amo muito a musicalidade, eu amo a riqueza do sertanejo, mas também tem essa esse lado conturbado que permaneceu em mim durante muitos anos”.

O processo que o levou até o momento presente é descrito como “fazer as pazes com essa minha veia caipira”. “Eu acho que é um processo também de cicatrização de uma coisa que me fez mal durante muito tempo”, diz o artista ao encarar a trajetória de cura. “Acho que eu tenho tentado pegar coisas que funcionam pra mim, que fazem sentido nesse universo, na música sertaneja, na cultura caipira e nesse contexto todo, interiorano, rural, sabe? Eu tenho tentado pegar aquilo que eu acho que realmente faz sentido, que condiz com o que eu acho, com o que eu penso, com a minha visão de mundo. Acredito que a palavra ‘mistura’ define muito bem o que eu faço em todos os aspectos. Misturar toda essa minha bagagem de cultura pop que eu adquiri nesses anos fugindo do sertanejo. Então pego tudo isso que eu tirei sendo little monster, sendo fã da Lady Gaga, fã de música pop, e misturo com Milionário e José Rico.”

 

Apesar da aura radiofônica que o projeto contempla, o artista reconhece que o espaço para inserção na programação das emissoras de rádio é limitado. Para isso, há também um ritmo de vanguarda que segue os artistas do gênero. Sobre tal dificuldade, ele declara: “Tem essa parada de também fazermos a nossa programação, de criar os nossos espaços. Já que não existem rádios de queernejo, vamos inventar essa rádio. Se não tem um festival de queernejo, vamos fazer como foi o Fivela Fest. As casas de shows de sertanejo não querem nos chamar, vamos pra outros lugares onde as pessoas querem nos ouvir. Se um dia eles quiserem nos chamar, quiserem tocar as nossas músicas nas rádios, a gente também está aberto a isso.”

Mesmo com  batalhas a serem travadas no campo mercadológico, a criatividade e a fluidez são pontos fortes que cercam os artistas deste novo gênero. “A gente do queernejo tá num momento muito bom, de total liberdade para experimentar, criar, inventar, para testar coisas, sabe? A gente não tem vínculo com ninguém, não precisamos ficar nos explicando demais, a gente pode realmente jogar no que a gente quer fazer. Então, acho que o queernejo tem muito dessa coisa cravada da liberdade de poder ousar”, afirma Gabeu sobre a maneira como constrói suas canções e a própria identidade artística.

(Divulgação)

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Em termos de narrativa, o humor está presente na maior parte de “Agropoc”, que já tem um nome que atrai atenção pelo jogo de palavras. De acordo com Gabeu, existe um desejo de criar uma atmosfera que flerte com o teatro através de seus versos tragicômicos. “Eu também venho do teatro. Teve uma época da minha vida que fiz teatro amador, com amigos, nada muito profissional. Não era um desejo meu virar ator, mas tive esse momento que fez muito bem também pra eu chegar até aqui”, conta o artista. “Toda essa veia cômica e esse desejo de brincar nos clipes e nos palcos vem desse lugar do teatro. Eu tenho muita vontade de fazer uma turnê desse álbum, por exemplo, uma coisa super teatral com encenações, recitação de poemas e causos que tenham a ver com a atmosfera do disco, das músicas. A Letrux e a Linn da Quebrada são pessoas que me inspiram muito nesse sentido. Não tem nada a ver com o queernejo, mas o show da Linn, por exemplo, é excepcional na forma como ela se coloca no palco. Me inspira muito. Acho super que cabe uma coisa mais teatral para esse projeto.”

Apesar do cenário conturbado que vivemos hoje, o cantor enxerga mudanças positivas em sua trajetória desde a última vez que conversou com o Papelpop, há dois anos. A pandemia o impediu de realizar shows e encontrar o público, mas no período algumas parcerias foram lançadas, além da produção de “Agropoc”. “Acho que o fato de termos nos fortalecido enquanto movimento, termos nos encontrado e feito essa rede de apoio, ajudou muito. O Fivela Fest não teria acontecido se não fosse essa união. Por a gente estar fazendo algo muito diferente, ao mesmo tempo que é empolgante, às vezes é muito assustador”, conta. “Criar essa rede de apoio fez com que a gente não desistisse e persistisse, que olhássemos para coisas que a gente vem conquistando aos poucos. […] Podemos olhar isso tudo com muito carinho e falar ‘a gente tá indo pelo caminho certo! Não vamos brecar, não.'”

Ouça “Agropoc” nas plataformas digitais:

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