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Em 2020, série deu destaque à produção fonográfica de países hispano-americanos (Foto: Reprodução)

Lido Pimienta, Mon Laferte, Natalia Lafourcade: os melhores shows latinos da série Tiny Desk

Em 1984, Mercedes Sosa transformou em música as dores e incertezas do continente sul-americano. No LP “Será Posible el Sur?” a cantora usa o tema como fio para tecer uma colcha de provocações. Na faixa título, por exemplo, diz:

Minha terra
que uma vez gira na escuridão
desta pergunta
Será possível o Sul? Será possível?
Se se visse no espelho, seria capaz de se reconhecer?“.

Livre de questões de ordem sócio-política que, em uma análise superficial, tornam o continente tão particular, nossa música revela desde sempre não apenas o que há de mais visceral em vivências, mas também a força de sonhos e utopias.

Resilientes e inventivos, os artistas desta geração têm investido em suas raízes, que muito contrastam diante de uma supremacia criada pela indústria. Uma bela resposta prática aos questionamentos de Sosa.

Neste ano, durante o Mês da Herança Hispânica, tradicional festividade norte-americana que celebra a cultura, a tradição e as contribuições de latinos aos Estados Unidos, a série Tiny Desk caprichou na curadoria, dando espaço para jovens talentos e nomes já consagrados.

Em outras palavras, uma expansão do já tradicional histórico de excelentes apresentações com foco no espanhol. Abaixo, você confere um ranking com os melhores Tiny Desk do gênero. Pra conhecer, revisitar e mergulhar em uma riqueza ímpar.

10. Mariachi Flor de Toloache

Já ouviu falar de ranchera e mariachi? Entre os gêneros mais tradicionais do México, esse dois expoentes da música popular e do folclore regional tem destaque em meio às categorias do Latin Grammy. Em 2017, durante a 18ª cerimônia de entrega da honraria, quem venceu o troféu de Melhor Álbum de Música Ranchera/Mariachi foi o grupo Flor de Toloache.

Formado apenas por mulheres, o conjunto tocou para o Tiny Desk, em 2016, uma seleção de faixas que oferecem ao ouvinte uma boa dimensão do que encontrará em uma eventual apresentação ao vivo. Atuais, sem deixar de honrar as próprias raízes, as integrantes capturam por meio de vocais harmonizados e instrumentos típicos um poder e uma emoção únicos.

9. Jorge Drexler

Dono de um charme imbatível, o uruguaio Jorge Drexler, cinco vezes vencedor do Latin Grammy, levou para o Tiny Desk as canções do disco “Salvavidas de Hielo” (2017). Sem o apoio de instrumentos de percussão e focado na criação de uma aura de delicadeza propícia a apresentações acústicas, promoveu ao lado de seus músicos um momento ímpar de intimidade.

Entre os destaques está sua interpretação do single “Asilo”, originalmente uma parceria com a chilena Mon Laferte.

8. Bomba Estéreo

Uma mistura bastante peculiar forma a identidade do grupo bogotano Bomba Estéreo. Seu Tiny Desk é um dos mais curtos em termos de duração – o que não lhe confere um valor inferior aos demais, pelo contrário! Aumente o volume!

Ao passar pelo estúdio em 2017, a vocalista Li Saumet e seu parceiro Simón Mejia mandaram ver em uma ode à música afro-colombiana e à cumbia. Deixaram no palco a assinatura de um som único, marcado por arranjos complexos e, claro, a força de composições que reafirmam as próprias origens.

7. Ibeyi

Ainda no embalo da música eletrônica, o duo Ibeyi foi convidado a apresentar, em 2018, 5 canções do repertório. Entre a introspecção e a alta celebração da vida, temas recorrentes em suas composições, as irmãs franco-cubanas Lisa-Kaindé e Naomi Díaz transformaram os próprios vocais em um canal direto para o que há de mais sublime na música pop afro-americana. Potente e sensível.

6. Julieta Venegas

A mais antiga apresentação desta lista é da mexicana Julieta Venegas e foi gravada em 2011. Como a grande dama da música latina que é, não houve a necessidade de grandes aparatos pra que o show pudesse ser realizado. Munida apenas de violão, acordeón e clarinete, a artista ofereceu um número carregado de afeto e ternura.

Interessante observar como de lá pra cá o cenário e o próprio formato evoluíram, mas, mais do que isso, como as canções do LP “Otra Cosa” (2010) amadureceram bem.

5. Lila Downs

Nome conhecido na cena do dito “Global Music”, Lila Downs Sánchez, ou só Lila Downs, reverencia por meio de suas criações a raízes da própria mãe, de ascendência Mixteca.

É na cultura desse povo ameríndio da família lingüística Otomanque, habitante do atual território do México, que a cantora busca inspiração para canções viscerais, muitas vezes dispostas em formato de poema, em outras praticantes do chamado storytelling. O Tiny Desk concert realizado em 2017 é perfeito pra quem quer se emocionar.

4. Mon Laferte + Juanes

Antes de ser uma das estrelas do Coachella Festival, em 2019, Mon Laferte já havia iniciado uma jornada de sucesso entre os yankees. Um ano antes, durante uma breve passagem pelos Estados Unidos, ela foi convidada junto ao parceiro de estúdio Juanes para uma apresentação especial.

À época divulgando o disco “La Trenza” (2017), a artista abriu o show com “Pa’ Donde Se Fué”, um poema musicado sobre abandono parental. Drama e sensibilidade, como poucas!

Como uma primavera interrompida
Eu me vi pela metade
Hoje me sinto sozinha
Buscando em milhares, em pessoas
Buscando em homens, em tantos homens
A sua humanidade, a sua paternidade

Uma pena que ambos não tenham ganhado especiais separados, mas, ainda que com um set reduzido, vale a pena o registro. Logo depois, juntos, os artistas engatam “Amárrame”, parceria bem sucedida não apenas entre os fãs, mas também nas rádios latino-americanas que a tocaram à exaustão. Um casamento vocal perfeito.

3. Carlos Vives

O colombiano Carlos Vives, autor do emblemático disco “La Tierra del Olvido”, recebeu o convite para o Tiny Desk concert em 2020. Na ocasião, reuniu os músicos na sala de casa e cantou de pés descalços, como a amiga e compatriota Shakira.

O set abre com uma explosão de latinidade, refrescando na memória do público a riqueza sonora de seu país por meio de ritmos como a champeta, tradicional da costa caribenha, e o denso vallenato – um dos gêneros favoritos do escritor Gabriel García Márquez, bem como condutor do sucesso “La Bicicleta”. Perfeito pra levantar o astral.

2. Natalia Lafourcade

Embaixadora da música folclórica latino-americana, a cantora mexicana Natalia Lafourcade subverte o significado do dito realismo maravilhoso. À época divulgando o projeto “Musas”, que consiste em dois volumes com interpretações de canções canônicas do folk regional, a artista entregou um show que é, do início ao fim, uma ode à mágica contida na cultura popular mexicana.

Não à toa venceu o troféu de Álbum do Ano no Latin Grammy 2020. É pra reviver em cada nota e cada instrumento as particularidades e emoções contidas em sua arte.

1. Lido Pimienta

Em 17 de abril de 2020 o mundo conheceu “Miss Colombia”, elogiado trabalho da colombo-canadense Lido Pimienta. É dela a primeira posição neste ranking porque, além de dominar vocais únicos, a artista ainda capricha na parte estética exaltando as cores vibrantes da América Latina.

Ao cantar uma melancolia adocicada e abrir um leque de referências pouco óbvias para um mercado acostumado com sons convencionais, Lido acaba criando um espectro de representatividade, que também é responsável por quebrar estereótipos ligados à mulher latina.

O título da obra, você já deve imaginar, vem do fatídico concurso Miss Universo 2015 quando, por um erro do apresentador, a modelo Ariadna Gutierrez, já com a coroa na cabeça e um buquê de flores nos braços, foi vítima de um erro de anúncio. A vitória ficou com a filipina Pia Alonzo Wurtzbach.

Respeitada na cena internacional, Pimienta venceu em 2017 o Polaris Music Prize, respeitado prêmio concedido anualmente ao melhor álbum canadense.

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