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Artista é grande admiradora da música popular brasileira (Foto: Divulgação)

Entrevista: Melody Gardot explora novas vertentes da sensibilidade em novo álbum, “Sunset in the Blue”

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O novo álbum “Sunset in the Blue”, da cantora americana Melody Gardot, já está entre nós. Dias antes da estreia tivemos a oportunidade de conversar com a artista, que é referência no jazz contemporâneo. Além de apresentar ao público uma colaboração com o lendário Sting, o projeto entrega a faixa “To Paris With Love”, que contou com mais de quarenta músicos do mundo inteiro, entre eles o vionilista Lucas Lima, que representa o Brasil.

O objetivo foi arrecadar fundos para profissionais parisienses de saúde, que trabalham na linha de frente do combate à pandemia. 

Dona de uma relação muito pessoal com a música, uma vez que o início de sua jornada musical foi marcada por um acidente que sofreu aos 18 anos, a cantora teve como ponto de partida de seu processo a musicoterapia. Hoje, madura e mais do que nunca segura do que compartilha com os fãs, ela fala sobre a importância das artes – dando destaque, inclusive, para produções brasileiras. Confira a entrevista na íntegra: 

PAPEL POP: Primeiramente parabéns pelo álbum! Ele traz uma calma e uma paz que significa muito nos dias caóticos de ultimamente. Como tem lidado com o ano de 2020 como artista? O quão desafiador é promover um disco durante a pandemia? 

MELODY GARDOT: Obrigada! É claro que é bastante complicado agora, é para todos ao redor do mundo, mas precisamos nos lembrar de permanecer positivos e ser gratos pelas pequenas coisas. Claro que é um desafio agora, já que as apresentações estão fora da mesa para mim, mas estamos fazendo o que podemos para continuar nos conectando e ansiosos para podermos nos reunir novamente em breve!

Não posso deixar de te perguntar como foi colaborar com Sting. Como foi em estúdio, o que essa parceria te proporcionou de mais interessante? 

Durante um momento em que todos somos gratos por colaborar apesar de nossa distância, veio uma música. Recebi a faixa de Jen Jis, uma produtora musical de Paris, fiz uma demo e depois nós (Sting e eu) gravamos nossas respectivas partes separadamente. Nunca nos conhecemos pessoalmente. Não é tradicional, em termos de como normalmente gravamos, mas, novamente, nada é neste momento sem precedentes. Temos que continuar criando!

O título do seu álbum, “Sunset in the Blue”, dialoga com a beleza das canções e mostra um pouco dessa natureza idílica do momento em que o sol se põe. Me conta um pouco mais sobre a escolha, como você chegou até isso. 

Todas as canções de Sunset in the Blue falam sobre o amor e todas as suas formas. A faixa-título “Sunset in the Blue”, escrita com Jesse Harris, é uma bela visão do final de um capítulo de uma história de amor. Sentimos quando entramos no período azul de Picasso e nos afastamos da imagem dizendo “o que podemos fazer?”, perguntando o que podemos fazer para evitar o fim inevitável de algo. A página vira e o capítulo acabou. Assim é a vida – diz Sinatra…

A iniciativa que você teve de selecionar músicos do mundo todo para performar “To Paris With Love” com você foi incrível! Você poderia contar um pouco do processo, como isso aconteceu? 

Foi incrível ver que nos conectamos e colaboramos com músicos e pessoas de todo o mundo. Uma orquestra digital verdadeiramente global! Músicos de mais de 20 países, incluindo o brasileiro Lucas Lima. Fiquei maravilhada com esta bela resposta a uma bela mensagem: com amor de Paris e com amor de todo o mundo; Juntos, apesar de nossa distância. A mensagem era forte: vamos apoiar os artistas e tentar quebrar o silêncio ensurdecedor nas artes. E com isso, vamos encontrar uma maneira de apoiar uma instituição de caridade. Como era o início da quarentena, minha equipe e eu ficamos muito preocupados com a situação. Procuramos a maneira de fazer o maior bem e, junto com a Universal Records, concordamos em doar ambas as nossas ações de todos os royalties para a Protege Ton Soignant (uma organização de profissionais de saúde em Paris) para ajudar os profissionais de saúde durante o início da pandemia.

O que foi mais desafiador na hora de organizar o projeto, de colocar em prática?

Os maiores heróis aqui no processo de mixagem foram Steve Genewick e Al Schmidt. Foram eles que organizaram tudo isso. Da seleção inicial ao resultado final foi uma tarefa gigantesca, mas eles conseguiram fazer com que soasse brilhante.

E na faixa temos a participação de um famoso violinista brasileiro, o Lucas Lima! Como foi trabalhar com ele? O que mais gostou da experiência?

Lucas é maravilhoso. Ele até concordou em dar uma pequena entrevista de si mesmo para o Instagram que ficamos muito felizes em compartilhar com nossos ouvintes enquanto criamos “retratos” dos artistas envolvidos neste projeto. Adorei a descoberta de tantos músicos talentosos ao redor do globo. Senti que tinha tido a enorme chance de conhecer pessoas que nunca conheceria de outra forma e de repente estávamos todos conectados, mais de 40 países ao redor do mundo, tocando a mesma música. Simplesmente lindo e inacreditável.

A sua música é muito sensível e temos vários exemplos de artistas internacionais que gostam do que vem do Brasil. Björk é fã de Milton Nascimento e Elis Regina, Madonna adora João Gilberto, Shakira é fã de Caetano Veloso… Você tem algum ídolo brasileiro? Como se relaciona com a música produzida aqui? 

Tenho uma longa história de amor com o Brasil. Desde o início da minha recuperação e introdução à musicoterapia, me apaixonei pela música brasileira. Foi graças a cantores como Astrid Gilberto, Caetano Veloso, Elis Regina, Nelson Gonçalves e Orlando Silva com Noel Rosa (um pouco equivalente a Carlos Gardel da Argentina, para mim) que adquiri uma noção do que a música de fato significava através da cultura brasileira. No começo, apegava-me apenas às palavras. Adorei as sílabas e o “som” da língua. Fiquei encantada com o ataque amolecido, essa natureza aveludada de palavras como “coração”, o jogo da poesia para rimar, e como a língua, mesmo falando, era de alguma forma “cantada”. Eu não me cansava disso, realmente, estava encantada. Como estrangeira (e uma espécie de “gringa” na época) era o som mais suntuoso que eu já tinha escutado! A linguagem e a música com certeza eram algo que me atraia, mas eu não tinha formação, não tinha professor e estava em um hospital me recuperando nos EUA. Então, naquela época, eu apenas ouvia atentamente as músicas, olhava as letras e tentava repeti-las, imitando foneticamente as palavras sem saber exatamente o que significavam. Mas, na realidade, esses artistas e essas músicas foram meus primeiros professores e ainda estou aprendendo com eles agora cada vez que ouço…

Sua participação no Rock In Rio de 2017 com a Maria Rita foi emocionante e poderosa. Como foi se apresentar, mesmo que rapidamente, pra uma multidão daquelas? Guarda boas memórias dessa ocasião?

Eu aproveitei cada segundo. Maria é simplesmente fantástica e o público foi incrível. Eu faria de novo, mesmo que fosse apenas para cantar os vocais de fundo! Ela é uma grande querida e uma artista fabulosa. Quando recebi a notícia, não pude acreditar que tivemos a chance de fazer algo tão maravilhoso! É uma das minhas lembranças favoritas do Brasil.

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Ouça o novo trabalho de Melody Gardot no streaming.

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