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Revelação do rap britânico, Little Simz lança EP gravado durante quarentena

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Uma das rappers mais elogiadas da atualidade, a britânica Little Simz também convive com os efeitos mais incômodos da pandemia. Vivendo em Londres, no Reino Unido, ela diz que começou o ano de 2020 com a certeza de que gostaria de lançar um EP. Mas até que “Drop 6” fosse lançado na manhã desta quarta-feira (6), em um paralelismo divertido com seu título, muita coisa aconteceu.

“Fiquei desanimada e comecei a me atrapalhar. Pensava ‘Isso não é bom o suficiente, as pessoas não gostam disso, que merda, a mixagem está um lixo”, conta em uma carta. Enquanto ouvia reclamações do vizinho sobre o som das gravações e era obrigada a trabalhar à noite, ela se viu afundando em descrença, tal qual tem acontecido com muitos de nós em isolamento social.

As notícias, de fato, não ajudam e por vezes é difícil manter a produtividade em dia. Com muita determinação ela decidiu parar de chorar e se levantar contra o que a impedia de criar. Conseguiu colocar mãos à obra mais uma vez e fez com que 5 faixas novas passassem a integrar seu repertório. No tempo certo.

“Drop 6” é um EP curtinho, com músicas que em média tem 2 minutos de duração. São menos densas do que as apresentadas no ano anterior no disco “GREY Area”. Por outro lado, surgem como um lembrete da capacidade ímpar da artista de criar algumas das melhores e mais inteligentes rimas da atualidade. Nem mesmo pra ela, que respira a arte e se divide em atividades como a atuação e a fotografia, tem sido fácil.

Em nota enviada à imprensa a artista fez o seguinte relato:

“Eu não me importo de ficar sozinha. Gosto bastante da minha própria companhia, na verdade. No entanto, escolher ficar sozinho é diferente de ser forçado a ficar sozinho e é aí que entra a dificuldade. Você fica preso consigo mesmo 24h por dia, 7 dias da semana. São inúmeros os cochilos que posso tirar em um dia. Então é isso que acontece quando o mundo para. 2018 foi um ano de merda, para dizer o mínimo. 2019 foi provavelmente o melhor ano da minha vida. Estava fazendo o que amo e em alta. Sou viciada em trabalho. Sempre fui, provavelmente sempre serei. Praticar a quietude é um desafio. Eu também sou uma criatura de hábitos. Se você me conhece, sabe que meu conforto está no meu cachecol vermelho e preto em volta do meu pescoço, minha garrafa de água quente, um sofá e um cobertor. Estou contente. Penso em como esse tempo isolada afetou minha saúde mental e trouxe à luz o quanto suprimo coisas que sinto super intensamente. Eu odeio chorar. Sinto-me fraca quando choro. Chorei muito no mês passado. Sentindo-me pra baixo e desapontada de alguma forma. Parece que não tenho nada valioso para oferecer, porque o estado do mundo está tão ruim, com o que realmente posso contribuir. Nada realmente importa e ninguém se importa. Toda essa merda de dúvida que eu nunca imaginei pensar. Penso na minha mãe e quanto quero fazer e dar a ela, mas não posso fazer isso se houver uma porra de uma pandemia e eu estiver trancada, poderia? Ela não pede muito. Tudo o que ela pede é que eu cuide de mim mesma e faça o que me faz feliz.

Comecei a trabalhar em um EP no início de abril, com um plano para finalizá-lo até o final do mês. Por volta de meados de abril, fiquei desanimada e comecei a me atrapalhar. Essa dúvida de merda novamente. ‘Isso não é bom o suficiente, as pessoas não gostam disso, que merda, a mixagem está um lixo’, tudo negativo sob o sol. Meu vizinho me disse para diminuir a música um dia, ele está trabalhando em casa. Ele claramente não é tão tolerante quanto era Mary. Nunca o vi antes, ele acabou de se mudar para a porta ao lado. Disse ok, perguntei quais eram as horas dele (tentando me comprometer). ‘Entre 9h30 e 18h30’, disse ele. Ele ficaria de boa com o barulho depois desse tempo. Eu disse ok. Ele perguntou se eu estava tocando bateria hahaha. Não, mano, é aquele baixo. (Osiris, eu estava usando no beat de uma das músicas, faixa 5). Expliquei no que estava trabalhando e ele disse ‘Ah, então esse também é o seu trabalho?’. Eu disse que sim, mas não estava com disposição para grandes conversas e então encerrei, desculpando-me novamente pelo barulho e, em seguida, educadamente me despedi. Bom, isso é chato. Eu gosto de trabalhar com música durante o dia, gosto da luz do sol. Especialmente o modo como ele bate pelas janelas da minha sala de estar, me faz sentir inspirada para ser produtiva. Isso não importa, porque eu já estava desistindo do EP de qualquer maneira.

Acordei uma manhã depois de alguns dias, me sentindo triste e deprimida. Verifiquei minha timeline do twitter e vi algumas fotografias bonitas que alguém havia tirado, retratos. Isso me atingiu instantaneamente. Eu sempre soube que minha criatividade não tem limites ou limitações e sempre vai muito além da música. A fotografia é outro meio e saída para eu me expressar. É uma forma de arte instantânea. Por isso é o que eu amo. Quando eu comecei, costumava revisar imediatamente cada foto que eu tirava, desejando a perfeição. Excluindo no local os que eu não gostei. Um amigo percebeu que eu continuava fazendo isso, ele é pintor e tira fotos também. Ele me disse para não me concentrar em excluir, mas me concentrar em tirar mais.

Após uma procrastinação séria, eu decidi parar de ser uma fresca e chorar como um bebê e finalizar o EP. Eu me desgastei, não há mais ninguém aqui, estou sozinha, precisava. Comecei a me sentir bem. Comecei a ficar muito animada, me levantando, trabalhando nisso. Eu precisava. Então eu o terminei. E quando? No fim do mês, como eu também havia estabelecido. As coisas terminam no final, não é? No meio se sente dores de crescimento, duvidar de si é uma merda e a única saída é acabar. Obrigado por ser a luz que você é. Você é necessário, valorizado e amado. Não apenas comigo, é claro, e tenho certeza de que posso falar em nome de todos que você ama em suas vidas próximas a você.

Esse é um momento turbulento, mas não desistimos. Nós não viemos disso. Nós sempre ficaremos bem.

Um beijo, Simbi”

Simz, que foi atração do Popload Festival 2019, teve seu mais recente álbum aclamado pela crítica internacional. O trabalho, que traz singles como “Selfish” e “Flowers”, esta última uma belíssima colaboração com Michael Kiwanuka, chegou a concorrer ao Mercury Prize Award.

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