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Hoje todos estão ouvindo, mas nada além de pedaços dos discos

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Todos leem o tempo todo, mas nada além de pedaços de frases. Esta foi a coluna de estreia do crítico literário Cristovão Tezza n’A Folha de S. Paulo, há duas semanas. Ele compartilhou como foi a sua transição do sinal analógico de TV para o digital e foi elencando acontecimentos importantes que presenciou in loco nas últimas décadas.

Este título grudou na minha cabeça e fiquei pensando em situações que acontecem no meu dia-a-dia que abordasse essa relação com a leitura. Logo lembrei dos grupos WhatsApp que eu participo e percebi uma boa relação com a coluna do Cristovão.

Por ali tem uma miscelânea de assuntos que passam por selos de sertanejo, funkeiros, gospel, futebol, e claro, os clássicos grupos de família. A coisa incomum em todos eles é compartilhamento de notícias que a maioria lê apenas o título e acaba não fazendo algum sentido por transmitir para frente.

Isso é clássico. Tezza abordou uma fase interessante em sua coluna, a era da televisão – que aconteceu entre os anos 1970 aos 1990. O cubo cheio de cores entrava na casa de milhões de pessoas e educava um país sem estudo apenas pela oralidade.

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Num estalo, milhões de pessoas que jamais leram ou escreveram nada estavam lendo ou escrevendo alguma coisa em milhões de telinhas e teclados. Um potencial civilizatório gigantesco, o triunfo final da palavra escrita, um salto maravilhoso na educação do país, imaginava Cristovão.

Quando começou a pipocar jeitos mais fáceis de consumir música (leia-se baixar discos), eu pensei que seria um salto no consumo de novas bandas e uma visita natural da discografia dos álbuns clássicos. Afinal, você não precisava mais pagar para ouvir um álbum.

Para mim foi muito importante, pois quando estourou a banda larga, eu estava no meu primeiro estágio. Era uma aba com o e-mail da firma e a outra com algum site zoado fazendo downloads. Foi nesta época que pude ouvir pela primeira vez na íntegra nomes como Beastie Boys, Led Zeppelin, Black Flag…

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Hoje todos estão ouvindo uma porção de coisas, mas nada além de pedaços dos discos. O consumo é feito exclusivamente por playlists e nada mais. Isso ficou ainda mais claro quando um ex-funcionário de uma gravadora compartilhou um dado interessante (triste) há uns dois anos.

Mais especificamente, menos de 10 por cento dos usuários do Spotify ‘freemium’ escutaram até mesmo um álbum no último mês. “Com base na pesquisa que fizemos na Universal há um ano e meio atrás, nós olhamos para usuários freemium, e descobrimos que menos de 10% deles ouviam um álbum inteiro”, contou Justin Barker na época.

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No passado, a ideia de soltar singles funcionava como uma isca para o fã comprar o disco em alguma loja. O departamento de marketing das gravadoras batiam cabeça para eleger músicas que representavam o novo trabalho, fossem boas para vender na rádio e em programas de televisão.

Hoje o sacrifício é fazer com que alguém ouça o álbum por completo, apenas. E é cada vez mais comum o lançamento de álbuns curtos para não cansar o ouvinte. Foi se o tempo de pensar em como costurar um álbum e apresentar uma história pelas faixas.

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O jornalista paulistano, produtor musical e marketeiro Brunno Constante analisa, pondera, escreve e traz novidades sobre música no Papelpop todas as terças-feiras.

Fita Cassete é o alterego de Brunno quando ele fala sobre o assunto.

Quer falar com ele? Twitter: @brunno.

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