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Luan Santana: sertanejo demais para o pop, pop demais para o sertanejo

Você curte aquele cara ou guria, mas mantém uma distância segura para não se envolver. Existe um sentimento que ambos sacam que pode rolar algo maior, porém, ainda é cedo assumir algo e transformar este envolvimento numa parada séria. Este é o diagnóstico de Luan Santana com o sertanejo e pop. O cantor surgiu no sertanejo universitário e explodiu com o hit ‘Meteoro’, cantiga que seguia a cartilha padrão: música com refrão para infiltrar de forma instantânea nos seus ouvidos e um visual de cantor romântico, meio brega, para embriagar os olhos.

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Ele continua com o sertanejo, mas, a cada trabalho, as referências pop ficam cada vez mais salientes. Desde sintetizadores que poderiam estar presentes numa faixa de alguma banda indie até o visual repaginado que lembra jovens do bairro da Vila Madalena, coração boêmio da Zona Oeste de São Paulo.

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Diferente de Wanessa Camargo, Luan Santana continua bebendo da fonte do sertanejo e entrega algumas composições que poderiam ser interpretadas por Lucas Silveira, do Fresno e até Tiago Iorc, uma das inspirações do ‘novo’ visual cantor. Esta experimentação com canções que fogem do padrão sertanejo, Luan sempre entregou em seus álbuns. Foi assim em outros álbuns como ‘Acústico’ e ‘Quando Chega a Noite’.

Se você chegou até este parágrafo e está se perguntando: Por que diabos o Luan Santana está por aqui? A música ‘Escreve Aí’ estreou em primeiro lugar nas rádios tupiniquins e se tornou a mais ouvida do ano passado. A cantiga teve fôlego para se manter durante 22 semanas em primeiro lugar na Billboard, recebeu três troféus de música do ano, foi a música mais visualizada no Youtube. Sem contar que foi a letra mais buscada no Google, batendo estrondosos hits como ‘See You Again’, de Velozes e Furiosos, ou ‘Cheerleader’, do Omi.

São credenciais interessantes que uma parcela das publicações ignoram. Será por conta dele pertencer ao mundo sertanejo, um ritmo extremamente popular. Deve ser por conta desta rejeição que existe de forma implícita que Luan tenta demonstrar que é um bocadinho pop também. É um caso estranho, pois ele não é o sertanejo suficiente perto de nomes como Loubet, Fernando e Sorocaba ou Michel Teló e causa estranhamento para quem consome Tiago Iorc ou Fresno.

1977

O rapaz chamou cinco cantoras para dividir os vocais de 1977 e declarou que o trabalho é uma homenagem às mulheres. Luan elegeu seis mulheres para participar do trabalho e compôs músicas românticas para demonstrar o seu amor ao sexo nada frágil (como ele mesmo disse). Com o objetivo de contemplar todas as mulheres, o leque poderia abrir um pouco mais e ter alguns nomes como Tássia Reis, Tulipa Ruiz, Céu, Ana Cañas, Tiê, Karina Buhr ou Teresa Cristina.

De qualquer forma, a seleção balanceou em estilos populares como axé, pop e sertanejo do primeiro escalão da música brasileira: Ivete Sangalo, Sandy, Anitta, Marilia Mendonça e Ana Carolina – além da atriz global Camila Queiroz. O repertório tem moda tradicional, pop, baladas românticas e sofrência (bastante sofrência). O recheio das letras permeiam término de relacionamento, descrição de uma rotina a dois, embalos de uma noite/manhã romântica. Um pouco diferente do que o sertanejo universitário propõe nas últimas temporadas com onomatopeias com tchuk-tchuk ou tchá-tchá e ostentação de birita e mulheres lapidadas por bisturis.

Uma característica tipicamente sertaneja é ter sempre discos ao vivo (mesmo que seja o primeiro lançamento de algum cantor). Este trabalho é 100% de estúdio e não conta com o pano de fundo com fãs gritando a pleno pulmões. Eu, particularmente, prefiro ouvir primeiro um disco de estúdio e, caso curta a banda, procuro alguma coisa ao vivo no YouTube para sacar o som.

Além de estar nas lojas, o disco também está disponível para DVD, Blu-Ray ou, como estão gostando de chamar, álbum visual. O cenário resgata o formato acústico que embalou as gravadoras nos anos 90 e se consagrou por estas terras com alguns nomes como Capital Inicial, Titãs, Cássia Eller e Ira!. Até neste formato o cantor mantém um distanciamento do sertanejo atual. Nada de ostentação, camaros amarelos e uma plateia formada por modelos agenciadas.

Luan Santana é pop demais para quem gosta de um sertanejo universitário raiz e sertanejo demais para quem curte pop e afins. Até quando essa mistura vai nadar a favor dele?

Fotos: Midiorama e Instagram

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O jornalista paulistano, produtor musical e marketeiro Brunno Constante analisa, pondera, escreve e traz novidades sobre música no Papelpop todas as terças-feiras.

Fita Cassete é o alterego de Brunno quando ele fala sobre o assunto.

Quer falar com ele? Twitter: @brunno.


* A opinião do colunista Brunno Constante não necessariamente representa a opinião do Papelpop. No entanto, por aqui, todas as opiniões são bem-vindas. :)

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