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Síndrome do fã das antigas (também conhecido como underground)

“Eu gostava mais do primeiro disco”. “Eles perderam a essência”. “O som está muito comercial”. Como em qualquer grande festival que anuncia suas atrações, surge uma enxurrada de comentários de fãs (ou não) falando sobre a line-up. Foi assim na semana passada com o Lollapalooza. Eu tenho as minhas ressalvas sobre as escolhas do evento, mas é impressionante como ainda existe a síndrome de underground. Se a sua banda favorita foi escolhida para tocar num festival de grande porte é motivo de comemoração ou desânimo?

Como eu e você, artistas têm que pagar as contas em dia para não ficar com o nome sujo na praça. O fã ‘das antigas’ acha que o seu artista deve permanecer tocando para poucos e bons, recusar propostas de gravadoras, fazer uma parceria fora da curva ou participar de alguma campanha comercial. Não estou dizendo que todos devem pensar em bombar quando for lançar alguma coisa nova e ganhar rios de dinheiro. É muito romântico e inocente pensar dessa forma. Eu acredito que qualquer pessoa que tenha um som próprio, deve pensar que seria ainda mais bacana ter a sua música impactando mais gente por aí. Veja bem, não estou falando em atingir, pois, se sendo assim, você pode pagar um jabá em rádios, sites ou TV e vai ter sua cantiga rodando por alguns meses e impactar uma galera, bem fácil.

The-Weeknd

Vou pegar um exemplo que está no festival e que eu acompanhei desde o comecinho. Eu sou um ‘fã das antigas’ do The Weeknd e acho incrível o tamanho que ele está hoje. O empurrão de “50 Tons de Cinza” foi fundamental para popularizar o som do cara. Quando ele começou com uma mixtape chamada “House of Ballons” e ganhou ótimas resenhas em blogs. Ele começou a tocar em festivais descolados e o single “Wicked Games” fez um barulho interessante no YouTube por conta do clipe simples que brincava com sombras. Foram quatro anos que separaram o cantor canadense de festinhas em lugares secretos para se tornar headliner de peso em qualquer região do globo. E ele não mudou d’água para o vinho.

As músicas seguem a mesma estrutura: R&B com gritinhos, uns graves pesados e letras que abordem relacionamentos que deram certo (ou não). O fã das antigas bate na tecla de perder a essência do som. Este fator não pode ser aplicado ao Weeknd, pois ele faz praticamente a mesma coisa. Apenas embalaram ele de uma forma diferente para o público e voilá.

nxzero

É meio bizarro você ainda ter este protecionismo com a sua banda predileta em tempos de YouTube e Spotify, pois fica difícil você esconder o que curte para os seus amigos. Quando eu era moleque, a minha formação musical foi iniciada num cafofo chamado Hangar 110, localizado no centro de São Paulo. Eu gostava muito de hardcore e este lugar era a meca de bandas deste estilo. Na época, o alemão (dono da casa), deixava o domingo, que era um dia meio fraco, para as bandas menores tocarem. O pessoal tinha que fazer a correria para vender ingresso e não recebiam cachê.

Se alguma por ali se destacasse, a casa deixava a banda tocar em dias mais animados como sexta ou sábado – aí ganhavam um dimdim. Eu lembro quando o NX Zero (na época o Diego nem era vocalista) começou a despontar dentro daquele cenário e vi de pertinho este lance dos fãs das antigas. Quando eles começaram a tocar nos melhores dias da casa, uma parte do público que acompanhava a banda desde o início começou a torcer o nariz com a popularidade que eles estavam conseguindo. E isso era apenas o começo. Depois veio contrato com gravadora, clipe rodando na MTV e por aí vai.

Depois desta época do Hangar 110, eu comecei a ouvir umas bandas mais indies e acompanhei o mesmo fenômeno dentro da Trama Virtual. Este era um site com um ranking das bandas que tinham mais downloads e você achava muita coisa boa. Por ali saíram algumas bandas como Cansei de Ser Sexy, Rock Rocket, Vanguart, Fresno e Móveis Coloniais de Acaju. Vale lembrar que ainda não existia plataforma de streaming com seus algoritmos para fazer uma playlist com coisas de seu gosto toda a semana. Se você quisesse ouvir algo novo e interessante, tinha que ser na unha.

É meio bizarro ver a síndrome de underground perdurar por tanto tempo e em estilos diferentes. De NX Zero a Cansei de Ser Sexy. De The Weeknd a Chainsmokers. Dá um certo prazer encontrar novos nomes dentro da música – sendo na internet ou em algum festinha por aí. O grande ponto é como você se comporta ao estar de frente de um novo talento: guardar isso a sete chaves e mostrar para poucos (e bons) ou estar disposto abrir esta descoberta para um público maior?

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O jornalista paulistano, produtor musical e marketeiro Brunno Constante analisa, pondera, escreve e traz novidades sobre música no Papelpop todas as terças-feiras.

Fita Cassete é o alterego de Brunno quando ele fala sobre o assunto.

Quer falar com ele? Twitter: @brunno.


* A opinião do colunista Brunno Constante não necessariamente representa a opinião do Papelpop. No entanto, por aqui, todas as opiniões são bem-vindas. :)

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