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O efeito “Black Mirror” no mundo da música

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Na semana passada estreou mais uma temporada de “Black Mirror”, uma série embasbacante que aborda temas sombrios relacionados a tecnologia. Caso você não tenha visto os novos episódios, pode ficar tranquilo, não vou soltar nenhum spoiler por aqui, apenas quero falar um pouco sobre o efeito “Black Mirror” dentro da música. Cada uma das tramas do seriado esfrega em nossa cara os malefícios do rumo que a sociedade caminha com os avanços. Está sob o nosso nariz como estamos nos relacionando com este novo panorama, mas estamos ceguetas dentro deste novo panorama. “Black Mirror” dá um empurrãozinho para refletirmos algumas práticas que estamos repetindo dia-a-dia. Por mais que estejamos mais conectados por conta de celulares, televisões inteligentes e serviços que deveriam facilitar a nossa vida, a tecnologia está matando/mudando simples hábitos como, por exemplo, de assistir um show ou ouvir um disco.

Ir ao um show ou festival é uma experiência marcante – tanto para bem, quanto para o mal. Você conhece novos artistas, estreita o relacionamento com o seu artista favorito e compartilha este sentimento com centena e milhares de pessoas. É algo mágico que ficará cimentado em suas memórias. A minha infância foi marcada por muitos shows e se tornou um hábito natural para mim depois de velho. A minha mãe levava eu e meus irmãos para o Ibirapuera ou no circuito de bairro para assistir qualquer coisa. Samba, rock, jazz, MPB. Muita das vezes, nós nem prestávamos atenção de quem estava no palco, e o som servia apenas de trilha sonora para as minhas brincadeiras. Lá por uns doze anos, comecei a ver shows do meu gosto e entender um pouco mais dessa atmosfera.

Rock concert

Quando eu comecei a trabalhar com música, aos 16, 17 anos, fazendo resenhas de discos e shows, era um mundo completamente diferente – cara, me senti muito velho com esta frase, mas vamos prosseguir. Os celulares ainda não eram tão evoluídos e serviam apenas para realizar ligações ou mandar sms. Para quem estava interessado em registrar em vídeo ou foto, tinha que ter uma câmera digital em mãos e pilhas alcalinas para segurar a bronca de um show. Eu pegava uma Mavica (FUCKIN OLD) emprestada para tirar as minhas fotos. O belo detalhe que você enfiava um disquete no aparelho e parecia que eu estava MUITO no futuro. A qualidade era sofrível, dar um zoom com aquela geringonça significava perder muitos pixels pelo caminho. Eu lembro que tinha uma galera que levava a sua câmera para alimentar o seu fotolog e gravar alguns trechos da apresentação. Eu achava isso meio estranho, mas fui me acostumando ao decorrer dos anos.

Esta prática se tornou ainda mais comum com o avanço de celulares com câmera e internet móvel. Antes, a pessoa tinha que fazer uma sessão de descarrego de fotos/vídeos em seu computador e rezar para a internet levar o seu arquivo para o destino almejado. Agora, os celulares tinham uma qualidade bem razoável e a conexão fazia a entrega para as redes sociais de forma rápida e indiscutível. Além de ter uma fumaça de cigarro (na época podia fumar na posta à vontade), as luzes de câmeras e celulares se tornaram comum em apresentações. Quase um item obrigatório para compor o clima de um show.

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O seu artista favorito está em cima do palco e está cantando a sua música favorita: Você canta a música a plenos pulmões ou começa a gravar para não esquecer este momento tão importante? Não vou ser o estraga prazeres e propor a proibição de aparelhos em concertos, mas muita gente perde a noção de realidade em ter esta tecnologia em mãos. Outro exemplo: você ia num show com algum amigo e ele não conseguiu ir: Você marca uma cerveja e fala para ele o quão foda foi o show ou grava uma mensagem de áudio completamente distorcida das caixas?

É um frenesi quando um artista anuncia um disco novo. Ele lança um ou dois singles para o público ter um gostinho do que estar por vir. Antigamente, esta prática era feita para criar uma expectativa dos fãs e aquecer a venda de álbuns. Hoje, a venda de discos é uma parcela tímida do faturamento, e o artista se concentra em divulgar a sua música em ambientes digitais como Spotify e YouTube. Um cenário democrático, pois quem tiver acesso à internet conseguirá ouvir suas composições.

A preocupação do artista ou do selo era se o disco iria chegar as principais lojas e ter um bom lugar nas prateleiras. Hoje, se o disco não estiver em playlists pontuais, pode deixar de impactar muita gente e não virar como ele imagina. Se for ver a popularidade das músicas de alguma banda, você irá perceber que, cada vez mais, as pessoas não ouvem um disco na sequência. O consumo de música mudou, mas é de ficar meio bolado em pensar que uma porcentagem bem pequena ouve um disco de cabo a rabo.

Popularidade Fake

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O grande ponto para um artista é fazer com que a sua música alcance um público cada vez maior, certo? Com isso, existe trabalho duro de produção, gravação e investimento de tempo e dinheiro para isso sair do papel. Para alguns, o retorno é rápido e dá certo por conta de algum fator que é difícil de explicar (leia a última coluna). Para outros, pode demorar anos, décadas ou nunca decolar. Você pode até enganar publicações e uma parte do público comprando seguidores em redes sociais e visualizações no YouTube (uma simples busca no Google mostra como fazer isso), mas se for chamado para um festival será difícil contar com uma base de fãs fantasmas, não?

A série “Black Mirror” propõe a discussão do hoje com histórias de um futuro não muito distante e isso assusta muita gente (inclusive eu). Os avanços tecnológicos vão continuar impactando a sociedade e a cena musical. A tecnologia de ponta ganha popularidade a passos largos e estamos priorizando de forma inconsciente às custas de coisas das quais, totalmente sãos, jamais abriríamos mão como ver um simples show ou ouvir um disco.

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O jornalista paulistano, produtor musical e marketeiro Brunno Constante analisa, pondera, escreve e traz novidades sobre música no Papelpop todas as terças-feiras.

Fita Cassete é o alterego de Brunno quando ele fala sobre o assunto.

Quer falar com ele? Twitter: @brunno.


* A opinião do colunista Brunno Constante não necessariamente representa a opinião do Papelpop. No entanto, por aqui, todas as opiniões são bem-vindas. :)

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