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Você julga uma música pela capa?

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Mesmo sem ouvir, eu sempre tive um preconceito com o Rush. Os amigos do meu colégio que tinham camisa ou ouviam os discos deles eram malas e eu não suportava a banda. Meu professor de viola também curtia a banda, era chato pra cacete e também não me ajudou a me interessar pelo grupo.

Um pouco mais velho, estava lendo uma Rolling Stone enquanto viajava e tinha uma entrevista com a banda, que ignorei logo de cara. Depois quase ler a revista inteira e ainda não chegar em meu destino, me deparei com uma entrevista deles. Comecei a ler e a entender um pouco a banda. Após terminar a leitura, sincronizei uns discos e, no final, achei a banda legal.

“Nem Li e Nem Lerei”

O famoso “Nem Li e Nem Lerei” é algo que está cada vez mais presente na vida online e tem muita gente perdendo a oportunidade de conhecer muita coisa interessante ou, no mínimo, ter embasamento para defender a sua teoria e dizer que algo é meio ruim mesmo.

Estou de férias e, no local onde estamos, a cada três músicas que toca no rádio, uma é do J Balvin. Este é um cara que nunca prestei atenção no Brasil, mas não pude deixar de lado ao ser impactado por onde passamos. Para falar a verdade, eu nunca fui um entusiasta da cena de reggaeton, mas resolvi ouvir um pouco mais. Ele ganhou projeção após fazer alguns remixes de artistas conhecidos como Ariana Grande, Justin Bieber e Maroon 5. A batida da música é dançante, mas ouvir um disco de reggaeton é algo um pouco cansativo para mim. Isso sem contar com a barreira da língua. Provavelmente não vou me aprofundar neste estilo musical, mas fiz a minha tentativa.

Conforme eu disse na coluna “Precisamos hablar sobre música em espanhol”, a língua dos nossos hermanos é deixada de lado por uma falta de costume, alimentada pelas instituições que somos impactados todos os dias. As playlists que estão em destaque em seu celular tem diversos artistas que cantam em inglês, o festival hypado que todos aguardam durante o calendário não faz alarde com alguma atração que venha da Argentina ou Chile, o seriado que você vê é norte-americano ou inglês – Chaves não vale, pois é dublado. No final das contas ouvir alguma coisa em espanhol causa estranhamento para os ouvidos brasileiros.

Julgar o livro pela capa

No comecinho deste ano, eu estava fazendo gaveta de textos para a temporada do Papelpop e comecei a rabiscar algumas ideias. No meio de alguns assuntos, eu comecei a fazer uma coluna sobre capas terríveis, mas com um som legal. Eu deixei essa coluna de lado, mas reuni diversos discos bacanas que saíram ainda neste ano que não tiveram a preocupação necessária na parte estética do single ou álbum.

Um destes álbuns que  ouvi bastante em 2016 foi o Boo Boo Davis. Numa dessas andanças por playlists e sugestão de artistas encontrei este simpático senhor de 72 anos:

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O disco é muito bonito e simples, uma verdadeira aula de blues. Davis é um exímio guitarrista e resgata diversos elementos da cultura de Mississipi, sua terra natal. Agora, você consegue enxergar toda esta história rica a partir desta capa? Eu fui ouvir o disco, pois achei engraçado este tiozinho com boné aba reta e cai pra trás nos primeiros segundos de “One Chord Blues”.

O consumo de música digital representa uma grande fatia do mercado e não temos mais a cultura de encarte que tínhamos com vinis e cds. Agora, não ter uma capa que venda um pouco o peixe sobre o que a pessoa possa ouvir é muito ruim. Quantas pessoas que curtem blues pelo mundo afora poderiam curtir o som de Boo Boo Davis, mas não da a mínima. A capa é a principal conexão entre o artista e fã em potencial dentro do Spotify, Youtube ou Apple Music – desde a época que as pessoas iam em lojas comprar discos. A concorrência é imensa e ter uma capa que não chame atenção ou, simplesmente, feia faz perder bons pontos.

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Há algumas semanas, a Lady Gaga lançou o single “Perfect Illusion” e uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a capa. Para quem acompanha a cantora, percebeu a diferença gritante na arte deste trabalho. Algo completamente limpo, simples. Poderia ser uma foto de Instagram com algo filtro como Mayfair ou Rise. Bem diferente do que estávamos acostumados a ser impactados no começo da carreira dela como Paparazzi, Telephone ou Lovegame.

Hoje temos milhões de opções para ouvir e ver por dia. As gravadoras, marcas e distribuidoras se estapeiam pelo seu clique. Ao invés de ser guiado por isso, não faça como eu na época do Rush, onde tinha o lema Não Ouvi, Não Gostei. É muita coisa boa e interessante que se perde no meio do caminho.

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O jornalista paulistano, produtor musical e marketeiro Brunno Constante analisa, pondera, escreve e traz novidades sobre música no Papelpop todas as terças-feiras.

Fita Cassete é o alterego de Brunno quando ele fala sobre o assunto.

Quer falar com ele? Twitter: @brunno.

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