Menu Papel POP

“Blonde” do Frank Ocean é um disco para você ouvir/sentir/ver

MAIS SOBRE:

Vivemos num mundo bem diferente de quando Frank Ocean lançou ‘Channel Orange’. Você não tinha Snapchat em seu celular. Oscar Niemeyer, Prince, Bowie, Nelson Mandela e Joan Rivers estavam vivos. O dólar não passava dos R$ 2,40. E as pessoas se reuniam para gravar aquele viral ‘Harlem Shake’. Frank Ocean ficou em turnê durante dois anos divulgando o seu trabalho e sumiu do mapa. Em uma era de produção prolífica para atender o consumo imediato e descartável dos fãs, o músico se trancou para lapidar novas músicas. Ignorar o ditado “Out of sight, out of mind” (Quem não é visto, não é lembrado) nesses tempos é uma tarefa árdua e o Ocean bancou isso.

Eu estava com o pé atrás de quando saiu ‘Endless’. Poxa, o cara demora o período de uma Olimpíada para lançar um disco lo-fi todo estranho e sem nada daquela levada R&B com sussurrinhos? As músicas pareciam ser rascunhos, um grande interlude de alguma coisa. Algo para causar estranhamento de qualquer fã. Não demorou muito para começar a pipocar tweets e notas dizendo que o cantor tinha liberado mais um disco. Dois discos num período de 48 horas? Para quem não tinha nada, ter dois DISCOS DO FRANK OCEAN num fim de semana? Só depois eu fui ver que ainda tinha uma revista, um lindo clipe e um fofo agradecimento dele:

“Foi a melhor época da minha fazer tudo isso. Obrigado a todos vocês. Especialmente os que nunca me deixaram esquecer que eu tinha que terminar (o disco). O que basicamente são todos vocês. Haha! Amo vocês”.

Como aconteceu em outros discos nesta temporada (leia-se ‘Views’ e ‘Lemonade’), o cantor optou por fazer uma exclusividade com uma plataforma de streaming (Apple Music). A competitividade entre Spotify, Tidal e Apple Music não está sendo benéfica para o consumidor, nem um pouco. O serviço que foi criado para extinguir a pirataria está fazendo quem ouve música voltar a baixar discos. Enfim, ‘Endless’ e ‘Blonde’ sincronizados e lá fui eu ficar numa bolha, ouvindo os discos em looping.

Untitled-2

Logo quando começou ‘Nikes’, eu achei que o torrent era uma zoeira. Uma batida estranha acompanhada de uma voz anasalada. Já estava procurando um novo link, quando a música começou a tomar forma e demonstrou o bom e velho Ocean de sempre.

O abre-alas de ‘Blonde’ ganhou até um clipe com um roteiro inusitado: glitter, bundas, carros tunados, party hard, um demônio que sapateia e mais alguns itens que podem ser difíceis de explicar quando você for flagrado assistindo isso em seu serviço ou no transporte público. Ainda na primeira faixa, eu pensei: ‘Poxa, eu baixei os dois discos do cara. Ele lançou uma revista, vou fazer a minha parte e gastar uma graninha com ele’.

A revista não está disponível em seu site, bem estranho. Lá fui eu abrir o eBay e quase caí para trás com os valores que alguns ‘fãs’ estão vendendo. O exemplar tem poesia de Kanye West, o poema Boyfriend (presente em seu tumblr), o disco físico e MUITAS fotos. Tudo muito bonito, mas não vale quase DOIS MIL REAIS.

Na primeira audição, eu fiquei ouvindo e comparando as novas músicas com as velhas. Por exemplo, ‘Pink + White’ tem a mesma nuance de ‘Sweet Life’. ‘Solo’ tem uma base parecida com ‘Bad Religion’. Como em ‘Channel Orange’, ‘Blonde’ traz um R&B permeado por flows de rap bem intencionados, mas com uma produção de gente grande.

O álbum também tem uma característica que Frank Ocean carrega em outros trabalhos. Breves esquetes que ligam uma faixa a outra, onde ele aproveita para contar histórias. Neste álbum, ele coloca sua mãe para dar alguns recados como não se envolver com birita, drogas e parar de ser outras pessoas. “Ser você já está de bom tamanho”. Já em ‘Facebook History’, ele conta como levou o fora de uma garota por não aceitá-la como amigo na rede de Mark Zuckemberg.

tumblr_ocaetrgAtx1v0ox57o2_1280

A produção executiva é assinada por Ocean, que chamou nomes incríveis para ajudá-lo a criar o clima propício para ‘Blonde’. Os bastidores do disco tem trabalho de nomes consagrados como Rick Rubin (Red Hot Chili Peppers, Beastie Boys, Metallica) e Pharrell (The Neptunes, N.E.R.D., Daft Punk) até figuras novas e de puro talento como Rostam Batmanglij (Vampire Weekend, Discovery), Michael Uzowuru (Vince Staples, Earl Sweatshirt) e Tyler the Creator, amigo de longa data e bandmate n’Odd Future. A lista de artistas que contribuiram nas novas músicas de Frank Ocean é extensa. Ele trouxe uma galera da pesada como Beyoncé, Kendrick Lamar, Andre 3000, Kim Burrell (jazzista maravilhosa), Kanye West, Austin Feinstein ( de uma banda massa chamada Slow Hollows).

Ouvir ‘Blonde’ com bons fones é uma experiência sensorial rica. Frank chamou uma série de experientes profissionais de diferentes segmentos da indústria fonográfica para dar peso em suas composições. James Blake e Johnny Greenwood (guitarrista do Radiohead) foram convocados para dar pitacos em suas músicas e chamar pessoas pontuais que trabalharam em seus últimos registros. Frank Ocean teve o prazer de trabalhar com a lenda da masterização: Bob Ludwig, que já trabalhou com Led Zeppelin, Rolling Stones, Jimi Hendrix e Nirvana, entre muitos outros. Além de Joe Visciano, que deu a sua contribuição como engenheiro de som em discos incríveis como ‘Blackstar’, de David Bowie, e ‘In Colour’, do Jamie XX.

Quem curte músicas na praia da R&B, deve estar feliz da vida. A safra 2016 vai muito bem e ‘Blonde’ coroa está boa onda. Blood Orange, Paris Jones, Tweet, K Michelle, Fantasia, Jamila Woods, KING… Abra é um dos destaques desta cena. Nascida no Queens, em Nova York, a filha de missionários tem uma voz potente e batidas inebriantes direto dos anos 80. Se você enjoar de Frank Ocean nos próximos dias, ouça qualquer um destes citados acima.

Frank Ocean demorou um bom tempo para soltar novidades, pois estava preocupado em entregar uma experiência e não apenas um álbum. Como em ‘Nostalgia, ultra.’ e ‘Channel Orange’, o cantor continua escancarando detalhes íntimos em canções com sua voz exuberante. Blonde é um disco para você ouvir/sentir/ver e levar as lições da mamãe Ocean para a vida:

Não fume cigarro de artista
Não consuma álcool
Não pegue carona com alguém que esteja embriagado


brunno-constante-colunista-papelpop
O jornalista paulistano, produtor musical e marketeiro Brunno Constante analisa, pondera, escreve e traz novidades sobre música no Papelpop todas as terças-feiras.

Fita Cassete é o alterego de Brunno quando ele fala sobre o assunto.

Quer falar com ele? Twitter: @brunno.


* A opinião do colunista Brunno Constante não necessariamente representa a opinião do Papelpop. No entanto, por aqui, todas as opiniões são bem-vindas. :)

Comentários

Topo