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Por que o Lemonade é um disco que pode entrar na história?

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Eu tive meus altos e baixos, mas sempre achei uma força interior para me puxar para cima. Eu fui servida com limões, mas eu fiz uma limonada.

Lemonade foi lançado há dez dias. Fãs, imprensa, artistas e qualquer pessoa que tenha ouvido o disco, ainda ruminam suas 12 faixas. A tentativa de rotular este trabalho de qualquer forma é uma tarefa árdua para as resenhas que são estão disponíveis na world wide web. Estou ouvindo de forma interrupta por dias a fio e o álbum dá um nó na cabeça. Tem o bom e velho rock, mas tem rap com aquele grave de ecoar na cabeça. Flerta com pop e carrega um country arrastado em alguns momentos. Também tem o seu pezinho no soul, gospel e blues. As letras escancaram as raízes da cantora de Houston, Texas.

O sexto trabalho de Beyoncé Giselle Knowles-Carter é estrondoso, chavoso, poderoso e muito maior de como está sendo reconhecido. Muito maior que a Becky do cabelo bom. Muito maior do que o Jay-Z não aparecer em alguma faixa. Muito maior do que tirar o Prince no primeiro lugar da Billboard. Talvez seja o maior disco de sua carreira, acompanhemos.

Um álbum para ser ouvido e visto…

Eu já falei por aqui sobre a extinção de álbuns físicos há algumas semanas e o vasto mundo do mercado de streaming. Ele facilita a vida pacas, mas lembramos como a vida é sofrida para quem vive no ‘submundo do download’. Além de ser um disco para você levar por aí em seu celular, Lemonade também foi feito para ser visto em uma garbosa sala de cinema. Se você não tinha uma assinatura do Tidal, ficou a ver navios em quanto o globo falava o quão incrível era este trabalho. Fiz uns corres para baixar ambos (CD/Filme) e quando terminei de assistir, só pude constatar que: a grande maioria de críticas e haters não tiveram o trabalho de ouvir/ver para falar sobre a Limonada da Beyonça.

O longa-metragem foi dividido em 11 partes: intuição, negação, raiva, apatia, vazio, responsabilidade, reforma, perdão, ressureição, esperança e redenção – temas em voga para qualquer pessoa que viva nos dias atuais. Os clipes com estética de cinema foram costurados por poemas do sangue do Quênia. As letras que dão ritmo ao álbum visual são de Warsan Shire, que ficou conhecida por um texto chamado Home, onde aborda a situação de um refugiado.

Empoderamento negro

A cantora aborda o empoderamento feminino e defensora das mulheres negras neste disco? Este discurso está sendo falado desde os tempos de Destiny’s Child, mas parece não ter entrado na massa cinzenta de muitos. Durante o registro em vídeo de Lemonade, o trecho de um discurso do Malcom X foi muito bem citado: “A pessoa mais desrespeitada nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais negligenciada nos Estados Unidos é uma mulher negra”. Este papo foi dado nos anos 1960, mas poderia ter sido feito na semana passada. É meio chocante por ser tão atual. E podemos aplicá-la sim por essas bandas.

Se você já leu algum texto até o final, percebeu que sou negro, preto ou afrodescendente pelo meu avatar. Não posso falar como uma mulher negra, mas fui criado por três negronas, tenho uma irmã e uma filha. O preconceito existe sim. Lembro de situações quando eu era moleque e estava no colégio. Sempre fui premiado com apelidos ou por algum comentário que ‘era apenas brincadeira’. Já mais velho, as traquinagem com nomes cessaram, mas segui sendo visto de forma diferente em entrar num restaurante ou avião. Quando pequeno, você absorve muita coisa por osmose (coisas ao seu redor) e, desta maneira, tem um peso sobre o que você quer ser na vida. Além de amigos e família, ter referências. Eu tive.

Na minha época, eu tinha um monte de seriados/filmes com pretos engraçados (Will Smith, Chris Rock, Eddie Murphy). Eu sempre via jogadores de futebol (Romário, Ronaldo) ou da NBA (Michael Jordan, Kobe Bryant), pensando que algum dia poderia jogar em algum lugar desses. Eu já sonhei em tocar em algum palco iguais músicos que apareciam na MTV (Jay-Z, Racionais MC’s). Além de ver a Gloria Maria, no Fantástico, não lembro de alguma mulher negra em evidência na TV. Até hoje é meio difícil ver e, quando tem, vemos uma enxurrada de comentários . A presença de uma figura forte como a Beyoncé é super importante como referência para meninas e meninos. Se ela chegou onde chegou, eu posso também chegar. Voltemos ao Lemonade.

Por que quando ela divulgou o clipe de Formation e tocou a música no Super Bowl a.k.a maior evento televisivo-esportivo da América, causou um estranhamento público? Um bom resumo do que aconteceu foi a esquete do Saturday Night Live. As pessoas caíram em si que: a Beyoncé não era caucasiana, e sim, preta. Em apenas alguns minutos de apresentação, a cantora tocou em assuntos importantes que o público iria descobrir apenas em abril com o disco por completo.

Na ocasião, ela convocou dezena de mulheres trajando a vestimenta dos Panteras Negras, movimento conhecido por defender igualdade racial, muitas vezes até armada, nos anos 60. Um evento com tantos patrocínios milionários e transmitido em grandes canais de TV. Dinheiro e mídia. Quem controla isso? Ela mexeu com o homem, branco e abastado. E isso não poderia passar desapercebido. Boicote.

A mega-produção por trás do álbum

Beyoncé tinha um roteiro poderoso em mãos. Lemonade precisava ter uma trilha sonora à altura. A produção executiva foi feita pela própria, que convidou um esquadrão que qualquer artista gostaria de trabalhar algum dia. Jack White, Kendrick Lamar, The Weeknd e James Blake tem o seu nome bonitinho ao da faixa que participam, mas têm alguns operários da música que contribuíram de alguma forma para este trabalho como Big Boi (50% do Outkast), Just Blaze (protegido e responsável por produzir os últimos trabalhos do marido da Beyoncé), Burt Bacharach (pianista e lenda viva americana), Wynter Gordon (compositora de mão cheia). Além de samples Karen O (Yeah Yeah Yeahs), John Lomax e Led Zeppelin. Quando começaram a pipocar notas sobre o disco, muitas apontavam que uma banda indie estranha estava presente em Lemonade. Na verdade, Noah Lennox (líder do Animal Collective, também conhecido pelo alterego Panda Bear) inspirou a cantora na cantiga ‘6 inch’. Beyonce utiliza alguns versos de ‘My Girls’ – uma das músicas mais bonitas da década 2000. Isso são alguns destaques das mais de 3 mil palavras que constituem os créditos do disco.

Eu li alguns comentários falando que o mundo pop está muito político e sério. ‘Onde estão as divas para fazer músicas apenas para dançar como faziam antigamente?’. Acho que vocês têm que pesquisar um pouco mais sobre música antes de soltar uma dessas. Eu acho legal ter uma música dançante e ‘comercial’ que consiga entregar qualquer mensagem. Beyoncé fez o trabalho dela. No futuro, quando olharmos para o que rolou de bom na música em 2016 (ou na década 2010), Lemonade será um dos tópicos. Concorda?

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O jornalista paulistano, produtor musical e marketeiro Brunno Constante analisa, pondera, escreve e traz novidades sobre música no Papelpop todas as terças-feiras.

Fita Cassete é o alterego de Brunno quando ele fala sobre o assunto.

Quer falar com ele? Twitter: @brunno.

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