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Falamos com a Linn da Quebrada sobre representatividade, “Pajubá”, e “American Horror Story”

Há algumas semanas, Linn da Quebrada lançou a música “Absoluta”, em parceria com as Bahias e a Cozinha Mineira e uma marca de bebidas. O projeto tem como intuito amplificar as vozes das pessoas trans através da arte.

O vídeo discute o preconceito, a diversidade, e a representatividade da comunidade LGBT no Brasil.

Em outubro, Linn também lançou o álbum visual “Pajubá”, com 14 clipes — um projeto que ela mesma classificou como celebração e (re)existência, e que fala sobre a vida de todos e as conexões que as pessoas formam, principalmente por meio da música e da arte.

O Papelpop bateu um longo papo com a Linn da Quebrada nesta semana, em que ela falou sobre a nova música, representatividade, “Pajubá”, e até nos contou que adorou a última temporada de “American Horror Story”.

Confira a entrevista completa com Linn da Quebrada abaixo:

Queria que você explicasse com suas próprias palavras o que a música ‘Absoluta’ significa.
Linn: Pra mim esse projeto simboliza uma ação muito importante nesse momento que nós estamos vivendo e construindo hoje. Ele simboliza mais do que representatividade, simboliza atuação e disputa política de imaginário e disputa de linguagem, é música. É voz, e voz não está dissociada de quem está dizendo, não está dissociada de pra quem está dizendo e muito menos de o que está sendo dito, então acho que isso é muito significativo pensando na música, pensando em quem está cantando e pensando o que significa tudo isso hoje. É uma disputa de imaginário pelo direito de ser quem se é, é uma disputa de construção de novos significados, de novas possibilidades, de novos caminhos.

Você falou do momento que estamos vivendo. Com 2017 chegando ao fim, você acha que as coisas melhoraram ou pioraram neste ano?
Linn: Acho que gostar ou não gostar, bom ou ruim, positivo ou negativo, acho que há muitas frequências, muitos povos, muitas coisas que foram vividas, acho que teve muitos avanços e ao mesmo tempo tiveram outros retrocessos. Porque aí depende do que estava nas minhas mãos e como possibilidade para o meu corpo fazer, pro seu corpo fazer e pros corpos de muitas outras pessoas que fizeram, e o que estava nas mãos de outras pessoas que puderam fazer e que fizeram, e então eu acho que nós conquistamos muitos territórios. Corpos passaram a frequentar e entrar nas universidades, corpos começaram a ter a possibilidade de construir e desconstruir opinião pública, corpos puderam ser admirados. Acho que a disputa simbólica foi a mais evidente pra mim em 2017. Corpos que foram capa de revista, novas frases que entraram em choque com tantos outros ditados populares. Quando eu, por exemplo, participei do ‘Amor & Sexo’, e quando percebo quantas outras pessoas tiveram contato com aquilo que eu estava produzindo apesar de ter sido tão pouco, as mensagens que eu constantemente recebo de gente que tem se dado conta, que não conseguiam mais sustentar as imagens que construíram de si mesmas e como essas pessoas se sentem livres de si pra se ser com dúvidas, com potências, com vontades.

Acho que a gente conquistou o direito da dúvida. Essa foi, eu acho, a grande conquista de 2017. Eu acho maravilhosa a dúvida. É um caos, é o seu direito de organizar seu próprio caos. A gente tá lutando ainda… olha que loucura isso, toda vez eu fico chocada quando penso nisso… pelo direito do próprio corpo, de você enquanto mulher decidir se você vai abortar ou não, você não tem esse direito, gata, o útero que está aí dentro não é seu. Os seus órgãos, a quem pertence? Quem tem o direito de decidir sobre o meu corpo? Se eu quero ou não quero colocar um peito, se eu quero ou não quero tomar hormônio, se eu quero ou não quero sair, com que roupa eu quero sair e se eu sair, eu posso até ter esse direito, mas eu vou ser ridicularizada socialmente como uma performance mesmo, uma performance social onde o macho garante o seu poder, porque ali ele diz: aquilo ali não é homem! Traidora!

No clipe vemos um grande mural seu no centro de São Paulo. O quão importante é mostrar e firmar a sua imagem?
Linn: Quantas travestis… agora vem a pergunta que sempre se repete. Quando eu digo travesti, que imagem vem na sua cabeça? Agora pensa nas construções simbólicas que nós temos na cidade, por exemplo, estátuas. Quem são? Eu acho que a gente tem que pensar nisso, né, são símbolos, isso vai construindo nosso imaginário, nossos corpos, e hoje a gente tem muitos outros símbolos, as revistas, os outdoors. Todas essas coisas constroem um imaginário. Quantas travestis fazem parte desse imaginário? Quando eu digo isso, as travestis e as pessoas pretas, as nega-pretas mesmo, aquelas bem pretas, da pele mais escura, quais são estas pretas? Onde estão essas pessoas nesses símbolos que foram construídos por nós? Quantas pessoas nega-pretas você admira? Com quantas você transou? Com quantas você tem aliança? Quantas trabalham junto com você? É disso que eu tô falando, é disso que o mural trata, que ele simboliza. Ele faz parte de uma disputa simbólica, e a disputa simbólica é material.

Neste último ano a gente teve muita música LGBT ganhando um grande espaço aqui no Brasil, inclusive Pabllo Vittar chegou a ganhar o prêmio de música do ano no Faustão…
Linn: Eu já esperava, porque sabe o que eu acho lindo? Manifestação popular! O funk é uma cultura de manifestação popular. O funk move milhões, só por isso eu me interessei pelo funk, porque o funk movimenta. O rap é uma cultura de manifestação popular. A música da Pabllo — eu fui pra diversos lugares e em todos esses lugares eu vi essas pessoas cantando a música da Pabllo. O Brasil é da Pabllo. Eu acho que seria incoerente até pra eles ignorarem tudo isso, sabe? Daí cada coisa tem seus efeitos, né? Eu acho que o corpo da Pabllo simboliza, significa muito. Tem tido muitos avanços, tem tido muita influência no que diz respeito aos afetos que estavam envolvidos com aquilo. Na época em que eu era mais jovem, que eu tinha 17 anos e que eu me montava, ser drag ou se montar significava que você não iria ficar com ninguém. Se as pessoas soubessem dentro do meio LGBT que você… nós vivemos numa sociedade tão misógina, mas tão misógina que cria tanto uma aversão ao feminino que eu acho que nós precisamos desse caminho oposto de admiração e potência do feminino e de toda pluralidade do feminino e construir outras mulheridades. Mulheridades e feminilidades viris, virilidades e feminilidades com múltiplas potências, com raiva. Feminilidades e virilidades que amem menos, que sejam perigosas. Eu acho que temos construído isso de diversas maneiras. Eu acho que o jogo tá virando.

Queria falar um pouquinho do ‘Pajubá’ também. O que você queria mostrar com este trabalho?
Linn: Eu não fiz nada do que eu não queria, eu não disse nada querendo dizer outra coisa, eu queria dizer exatamente o que tá lá, tá dito. Eu amo quando eu faço shows eu percebo a relação que se cria, sabe? Entre quem está no palco e quem está ouvindo a música se faz no presente, né? Eu acho que a pergunta que fica pra mim em 2017 nesse final de ano é: é possível falar sobre presente? A gente carrega muito o nosso passado, né? A tradição, e esse é a grande ferramenta deles, continuam construindo um presente antigo, com as suas tradições, e eu acho que a gente precisa falar do presente. Com meu disco eu tentei falar do presente, do meu presente, e por isso talvez seja um esforço fazer com que aquelas palavras caibam na boca de outras pessoas, porque pra isso a gente precisa encarar o presente e o presente é real, material. Tá carregado de ideia, mas o presente é material; pra isso você tem que tirar um pouco os véus que estão sobre as relações — sabe esses véus que nós colocamos entre as relações? Que faz com que eu ainda enxergue você, meio nebuloso assim, sabe? Mas eu enxergo também minha projeção sobre você, eu acho que pra falar sobre o presente, a gente precisa ter coragem de tirar os véus e ver o que realmente está, e ver o que eu posso ver também, porque mesmo sem véus nenhum a gente vai ver em volta de nossas ideias, a gente precisa ser um pouco cruel, sabe? E eu acho que esse é meu esforço com o ‘Pajubá’, porque eu fiz pra mim, fiz pensando em mim. Eu acho que eu tenho uma crueldade. Talvez eu seja um pouco masoquista, não sei, mas eu acho que a gente precisa ser cruel com nós mesmos e ter a coragem de matar o macho e o branco em você, nas suas atitudes, naquelas estratégias mais sofisticadas que nem você percebe, e é nessa sofisticação que a gente precisa ter coragem, porque quando você mata acho que as coisas começam a mudar.

Você achou que estaria um dia falando com tantas pessoas?
Linn: Não sei, porque quando eu fazia performance… eu nunca tive essa ilusão da multidão, sabe? Acho que agora temos muito essa ilusão da multidão, tudo é muita gente, tudo tem que ter muito acesso, tudo tem que ter muitas visualizações, mas eu acho bom também ser particular, acho que nós temos tantas pessoas, sabe? Pra falar com tantas outras pessoas, e eu gosto de um pouco de intimidade. Mas mais importante do que eu falar com tanta gente, mais importante do que eu, é o que eu estou dizendo, eu acho. Então eu acho que essas palavras têm que correr mesmo como um vírus por aí, eu acredito mais nisso, sabe? Quando você espirra e vai contaminando as outras pessoas com a dúvida.

Quando você percebeu a força que sua voz tem?
Linn: Quando eu percebi que meu corpo era perigoso ao sistema e por isso eu era tão atacada, para que eu tivesse medo. O que eu quero, e talvez seja isso que eu faço com as minhas músicas, não é que as pessoas sintam pena de mim. Eu quero que elas tenham medo, e talvez ‘Absoluta’ seja um meio sutil e sofisticado de fazer elas sentirem medo. Olha só! Quando você menos percebeu estava num mural de cinquenta metros, entendeu? No Minhocão no centro de São Paulo. É bom que quem quer que sejam eles, que tenham medo. Eu não quero assustar todo mundo, só quem merece (risos).

E quem merece ser assustado?
Linn: Essa eu vou deixar na dúvida. Eu não sei se você sabe, essa podia ser o final da pergunta: quem será que merece ficar com medo agora? Quem são eles? Acho que tem muitas estratégias, acho que a mesma mão que está cortando os legumes na cozinha, amolando a faca, essa mesma mão que parece tão doce, tão dócil, ela pode ser ser a mesma mão capaz de capar o culpado, o culpado será capado.

E para 2018, o que você espera?
Linn: Ver fúria, eu quero ver revolta, eu quero raiva. Quando eu digo tudo isso ao mesmo tempo é porque tudo isso pressupõe união, ação, pressupõe movimento, mas de forma mais sutil eu poderia falar: eu quero ver movimento, eu quero ver as pessoas mais responsáveis por si mesmas, quero ver autonomia, e ao mesmo tempo sofrendo os reais efeitos de ser quem se é. Sofra os reais efeitos de ser quem é, mas seja você, entenda os seus privilégios e as violências que você sofre, se sofre, as pressões que você vive, passe por elas, sinta elas e decida então a partir disso o que você vai fazer com seu corpo. Os seus privilégios… não tô falando para você negar os seus privilégios, eu tô falando para que você use com sabedoria, onde quer que você esteja.

Vocês assistiram à última temporada de ‘American Horror Story’? A sétima, do culto? Essa é muito boa, assistam. O começo é meio chato, mas depois ela se transforma muito, e fala muito dessa fúria feminina, né? Porque quando você vê aquilo, você também faz parte daquilo. Se você já sabe o que é estupro, abuso, quando você passa por uma situação de abuso e você não sabe… eu já passei por uma situação de abuso, eu não sabia, eu fui me dar conta disso muito tempo depois. Agora quando você sabe o que é e passa por isso, não tem como você fingir que não sabe. Isso que é o poder da palavra, por isso que você precisa dar nome às coisas. Eles só queimam as bruxas porque acreditam no poder delas, por isso que as bruxas têm essa coisa de magia, de falar e fazer acontecer, eu acho que por isso tem tanto esse medo das bruxas, porque sabem que elas são poderosas. O machismo é material em todas as suas ações: com quem você dorme, quem você contrata, em quem você acredita, a quem você dá valor, com quem você conversa, apoia, quem você beneficia, com quem você cria vínculos, e é aí que ‘eles’ são tão bem formados, né, gente? E a gente só consegue ser amigas, não sei se conseguimos ser parceiras, eles são parceiros, né? Essa eu acho uma grande diferença. E assim encerramos mais um culto de hoje.

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