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Madonna em entrevista incrível: “Ninguém na música assume uma postura política”

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Toda poderosa, Madonna é a capa da revista Harper’s Bazar e a ocasião é mais do que especial: a edição de fevereiro (nas bancas em 17 de janeiro) com a rainha do pop é em comemoração aos 150 anos da publicação! Uau!

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Além de trazer fotos lindas da artista, a revista também mostra uma entrevista na qual Madonna, para variar, é super direta ao falar de política e como os artistas estão com medo de se posicionarem em relação ao momento atual dos Estados Unidos com a eleição de Donald Trump para presidente. Ela também comenta o sexismo na sociedade e revela alguns de seus futuros planos — entre eles, dirigir mais um filme já em andamento e possivelmente fazer um stand-up!

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Sobre a eleição de Trump, ela declarou:

“O que eu acho realmente surpreendente é o silêncio de todo mundo na indústria da música. Digo, ninguém no entretenimento, exceto por talvez poucas pessoas, fala sobre o que está acontecendo. Ninguém assume uma postura política ou expressa uma opinião. Eles querem manter uma posição neutra para que possam manter sua popularidade. (…) Não estão fazendo nada porque ainda não afeta suas vidas.”

Jogando a real!

Seu novo projeto no cinema, em fase inicial, tem o nome de “Loved”, uma adaptação do livro “As Vidas Impossíveis de Greta Wells”, de Andrew Sean Greer. A obra conta a história de uma mulher que durante um tratamento psiquiátrico passa a viver em três épocas diferentes, transportada para realidades alternativas.

Segundo a revista, Madonna, além de ser a diretora, também co-escreveu o roteiro.

“[A trama] aborda vários assuntos importantes nos quais sempre me envolvi ou defendi — a luta pelos direitos das mulheres, pelos direitos dos homossexuais, pelos direitos civis, sempre lutando pelos menosprezados. Eu sempre me senti oprimida. Sei que muita gente falaria, ‘É ridículo você dizer isso. Você é uma estrela pop bem-sucedida, branca e rica’, mas eu tive que aguentar muita merda ao longo da minha carreira, e grande parte disso é porque eu sou mulher e também porque me recuso a viver uma vida convencional. Eu criei uma família muito incomum. Tenho amantes que são três décadas mais jovens do que eu. Isso deixa as pessoas muito desconfortáveis. Eu sinto que tudo o que faço faz com que os outros se sintam muito desconfortáveis. Por que este livro me atrai? Por que eu quero adaptá-lo? Porque ele me toca em muitos níveis e lida com vários assuntos importantes. Agora, mais do que nunca, é uma história extremamente oportuna para contar.”

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Madonna, que é amiga da comediante Amy Schumer, também disse que tem vontade de fazer um stand-up.

“Eu continuo dizendo a Amy Schumer e Dave Chappelle e Chris Rock que eu vou fazer stand-up e eles devem prestar atenção. Estou chegando.”

Vem ler o resto da entrevista!

Como artista, seja no cinema, na música ou na escrita, você acha que seu trabalho é político?

Madonna: Completamente.

Como assim?

Madonna: Porque eu sou política. Eu acredito na liberdade de expressão, eu não acredito em censura. Eu acredito na igualdade de direitos para todas as pessoas. E eu acredito que as mulheres devem assumir sua sexualidade e sua expressão sexual. Eu não acredito que exista uma certa idade onde você não possa dizer e sentir e ser quem você quer ser. Veja minha carreira — do meu livro ‘Sex’ para as músicas que escrevi, ter beijado um santo negro no clipe de ‘Like a Prayer’, os temas que eu explorei no meu álbum ‘Erotica’. À medida que eu fico mais velha e me torno melhor em escrever e me expressar, você entra na minha era ‘American Life’ e eu começo a falar sobre política e governo e quão fodida é a política do nosso país, e a ilusão da fama e Hollywood e as pessoas lindas.

Já faz quase duas semanas desde a eleição [na época em que a entrevista aconteceu]. Como você se sentiu com Donald Trump sendo eleito presidente dos Estados Unidos? Você ficou surpresa?

Madonna: Na noite das eleições eu estava com minha agente, que também é uma das minhas melhores amigas, e estávamos rezando. Ela estava em seu computador. Ela é amiga de alguém que estava trabalhando na campanha de Hillary [Clinton] e estava recebendo relatórios detalhados, e em certo momento ela disse, ‘Isso não está parecendo bom’. Era como assistir a um show de terror. E então ela estava lendo o Alcorão, e eu estava lendo o Zohar. Estávamos fazendo tudo: acendendo velas, meditando, orando, oferecendo nossas vidas a Deus para sempre, quem dera. Fui dormir, e desde aquela noite acordo todas as manhãs e é como quando você termina com alguém que realmente quebrou seu coração. Você acorda e por um segundo você é apenas você, e então você pensa, ‘A pessoa que eu amo mais do que tudo partiu meu coração, e eu estou devastada, arrasada e eu não tenho nada. Estou perdida’. É assim que me sinto todas as manhãs. Eu acordo e penso, ‘Espere um pouco, Donald Trump é o presidente, não é um pesadelo, isso realmente aconteceu’. É como levar um pé na bunda de um amante e também estar presa em um pesadelo.

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O que fazemos agora?

Madonna: Eu sinto que eu já estou fazendo algo, até certo ponto. Mas eu tenho que me expressar mais e me tornar um pouco menos misteriosa. O que eu acho realmente surpreendente é o silêncio de todo mundo na indústria da música. Digo, ninguém no entretenimento, exceto por talvez poucas pessoas, fala sobre o que está acontecendo. Ninguém assume uma postura política ou expressa uma opinião.

Por que você acha que isso acontece?

Madonna: Eles querem manter uma posição neutra para que possam manter sua popularidade. Se você tem uma opinião e as pessoas discordam de você, talvez você não consiga um emprego. Você pode entrar na lista negra. Você pode ter menos seguidores no Instagram. Há várias coisas que prejudicariam sua carreira. Todos estão realmente com medo. Não estão fazendo nada porque ainda não afeta suas vidas.

Como você permanece motivada depois de fazer tanta coisa?

Madonna: A arte me mantém viva. Obviamente, desde a morte de minha mãe, fiquei devastada e com o coração partido por toda a minha vida. Eu tive muitos desafios ao longo da minha carreira, ainda que as pessoas me vissem como alguém bem-sucedida. A única maneira pela qual eu tenho sido capaz de sobreviver à traição de amantes, familiares e da sociedade é ser capaz de criar como uma artista.

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O que além da arte lhe dá esse tipo de vontade para continuar fazendo o que você faz?

Madonna: Querer inspirar as pessoas. Querer tocar o coração das pessoas para fazer com que elas olhem para a vida de uma maneira diferente. Ser uma parte da evolução, porque, para mim, ou você é parte da criação ou você é parte da destruição. É inexplicável; é como respirar, e eu não posso imaginar não fazer isso. Esse é um dos debates que eu teria com meu ex-marido, que costumava me dizer: ‘Mas por que você tem que fazer isso de novo? Por que você tem que fazer outro CD? Por que você tem que fazer um filme?’ E eu respondia: ‘Por que eu tenho que me explicar?’ Eu sinto que isso é uma coisa muito sexista para se dizer.

Sim. Porque ninguém pergunta isso aos homens.

Madonna: Alguém pergunta para Steven Spielberg por que ele ainda está fazendo filmes? Ele já não teve sucesso suficiente? Ele já não ganhou dinheiro suficiente? Ele já não se tornou respeitado? Será que alguém foi até Pablo Picasso e disse: ‘Ok, você tem 80 anos. Você já não pintou o suficiente?’ Não. Estou tão cansada dessa pergunta. Eu simplesmente não entendo. Eu vou parar de fazer tudo o que eu faço quando eu não quiser mais fazer. Eu vou parar quando eu ficar sem idéias. Eu vou parar quando você me matar. Que tal?

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Você ainda sente a mesma emoção quando você alcança algum novo marco? Ou isso se torna comum?

Madonna: Não. Quando fiz o ‘secretprojectrevolution’, foi realmente incrível porque era um posicionamento muito político. E sempre que faço meus shows ao vivo me sinto artisticamente inspirada e animada, porque eu posso fazer e dizer um monte de coisas que eu não posso se fizer apenas um CD. Muitas vezes essa é a única maneira pela qual as pessoas vão ouvir minha música, porque você não consegue ter suas canções tocadas no Top 40 das rádios se você tiver mais de 35 anos. Para mim é sempre emocionante fazer performances. Gosto cada vez mais da idéia de ficar apenas com um microfone e falando. Eu gosto de conversar; gosto de brincar com o público. Isso é o que eu comecei a fazer com ‘Tears of a Clown’ [minishow no qual Madonna, além de cantar, contava histórias]. Eu sou obcecada com palhaços e o que eles representam, e a idéia de que palhaços supostamente fazem você rir, mas inevitavelmente eles estão escondendo alguma coisa. É assim que eu olho para a minha vida. Eu continuo dizendo a Amy Schumer e Dave Chappelle e Chris Rock que eu vou fazer stand-up e eles devem prestar atenção. Estou chegando.

O que você anda lendo?

Madonna: Vários livros. Eu traio muito meus livros, o que não é uma coisa boa, porque é bom ficar com um só livro e chegar ao final dele, mas eu amo livros. Estou lendo ‘The Dovekeepers’, de Alice Hoffman, e antes disso eu estava lendo ‘Toda a Luz que Não Podemos Ver’, de Anthony Doerr. Eu também estava lendo ‘A Fazenda Africana’, de Isak Dinesen [pseudônimo de Karen Blixen], embora não seja um livro novo.

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Meu editor me disse que você leu um trecho de ‘Belos e Malditos’ para um vídeo que você fez para a revista. Eu estava curiosa para saber por que você escolheu esse livro.

Madonna: Eu adoro F. Scott Fitzgerald e eu amo a sua escrita, e senti que o que estávamos filmando de alguma forma tinha algum tipo de conexão com suas histórias e a decadência da época, mas também com a falta de expressão. Ou a incapacidade das mulheres de se expressarem realmente. Elas eram belas e malditas.

Eu tenho uma última pergunta: O que você mais gosta na sua arte?

M: Eu acho que depende do que estou fazendo. Eu gosto de quebrar os limites. Mas eu não gosto de fazer isso só por fazer. Eu não gosto de ser provocante só para ser provocante. Eu gosto de ser provocante. Eu gosto de fazer as pessoas pensarem. Eu gosto de tocar o coração das pessoas. E se eu puder fazer todas essas três coisas de uma só vez, então eu sinto que eu realmente cumpri algo.

Madonna, só nos resta aplaudir. Que mulher!

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