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Por que ninguém lança mais blu-rays?

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O blu-ray nasceu quase morto e eu vou explicar o porquê. O VHS teve 20 anos de vida, que foi lançado nos anos 70 e ganhou fama na década seguinte. O sucesso dessa mídia ainda tinha fôlego nos anos anos 90, mas um disquinho iria acabar com a sua maré. Em 1996, o DVD chegou de forma avassaladora e não deu chances para a fita. O grande presente de Natal das famílias neste período era ter um belo aparelho de DVD em sua sala e fazer uma carteirinha da Blockbuster para alugar um vídeo para o fim de semana.

Depois de uma década na crista da onda, um substituto chegava ao mercado trazendo imagens em alta definição: o disco blu-ray. Por mais que todas as lojas ostentassem esta peça do futuro, há dez anos, o público não estava muito afim de fazer um alto investimento para ver imagens e ter som de cinema em casa. A aceitação não foi muito fácil e eles tiveram o azar (ou nossa sorte) da internet chegar nos lares, abrindo uma sólida via para o vídeo on demand.

Eu precisava comprar fones e vi uma pilha de blu-rays em promoção numa grande loja de departamento em São Paulo. Enquanto estava na fila, pensei um pouco sobre este aparelho e percebi que nunca ouvi uma frase como: ‘Que tal comprarmos umas cervejas e assistir uns blu-rays em casa?’. Eu fui saber desta mídia alguns anos depois num comercial dentro de um DVD que tinha ganhado. O trailer era algo profético e prometia que eu teria um cinema em minha residência sem os aparelhos necessários para isso. Bastava eu comprar um blu-ray, instalar em minha TV de tubo e voilá. Pra quem nasceu nos anos oitenta, como eu, viveu todas as fases: VHS, DVD, Blu-Ray e vídeo on demand.

O mercado apostou todas as fichas nesta novidade e achou que teria uma migração natural como aconteceu da VHS para o DVD, mas o roteiro aconteceu de forma natural como diziam as campanhas anunciando esta nova divindade da tecnologia moderna:

VHS

“Goonies”, “Querida – Eu Encolhi as Crianças”, “Karatê Kid”, “Esqueceram de Mim”, “Quero Ser Grande”, “História Sem Fim” e outros clássicos da Sessão da Tarde foram vistos por mim em fita. Eu não tinha mesada, mas a grana que eu não gastava no lanche da escola, usava para alugar fitas. Eu e o meu irmão éramos clientes assíduos de lojas de bairro, o uso era tão contínuo que a cada uns três, quatro meses, precisávamos fazer a limpeza do cabeçote. É muito louco pensar que eu fiz isso até o começo dos anos 2000. Eu vi o primeiro Matrix em fita cassete. Deve ser mais louco pensar como a Blockbuster perdeu o seu reino em tão pouco tempo.

Antes da chegada do vídeo on demand e com a popularização do DVD, as mídias piratas ganhavam muita força. Não era todo mundo que conseguia acompanhar o ritmo de lançamentos, mas o mercado negro entendeu a necessidade e tínhamos a disposição as novidades que ainda estavam no cinema ou séries da TV a cabo. Lembro de ter uma disqueteira (primeira vez que escrevo esta palavra em vida) recheada com séries e filmes. Ainda nesta época, leia-se 2006, a internet era precária para fazer downloads de vídeo. Eu gastava a minha banda baixando discos e achava linda a minha gigante biblioteca do iTunes com todas as capinhas organizadas.

Existem fãs que lidam numa boa com a era do on demand, mas outros ainda sentem falta de comprar um disco, ler encarte, ter o prazer de rasgar o plástico e sentir aquele cheiro de fábrica. Os grande lançamentos musicais do calendário não tiveram sua edição em blu-ray. “Lemonade” (Beyoncé) ou “Endless” (Frank Ocean) estão disponíveis apenas em plataformas de streaming e parecem não ter previsão para ganhar mídia física.

Quando eu comecei a escrever este texto, eu lembrei de um release que uma gravadora mandou para alguns jornalistas para apresentar o futuro desta tecnologia. Tive que reativar uma conta antiga de e-mail, mas achei o manuscrito perdido de 2007:

A War-blã-blã apresentará amanhã, em palestra na blã-blã Paulista, um panorama da tecnologia Blu-Ray no Brasil e as perspectivas da distribuidora para o início das vendas de títulos em alta definição no país. A palestra, realizada em parceria com a Sam-blã-blã e aberta ao público, será ministrada por Rodrigo Drysdale, diretor de Marketing da War-blã-blã, e Paulo Richieri, Instrutor de Treinamento Comercial Sam-blã-blã.

Drysdale mostrará as vantagens das tecnologias de alta definição e o potencial de crescimento da base instalada de players Blu-Ray no Brasil, que virá acompanhado de uma oferta cada vez maior de títulos nos novos formatos.

Ainda no e-mail, tinham alguns números que davam a entender que o blu-ray seria um sucesso em solo tupiniquim. A estimativa era de 34 mil leitores de alta definição no país até o fim de 2007. A projeção de vendas ainda era mais animadora: quase 3,5 milhões de unidades em quatro anos. A aposta era alta e a interação com o disquinho (e não com pessoas on-line) era o segredo para dar certo. O pop-up in-movie (informações curiosas e educativas durante o filme, como um pop-up) e a possibilidade de escolha entre mais de 10 finais diferentes para um filme (link exclusivo para um hotsite com acesso aos conteúdos inéditos).

Mesmo com o som cristalino, maior nitidez e definição, o blu-ray não vingou e foi engolido. Os mesmos criadores desta mídia tem em mãos o HD Ultra HD Blu-ray Disc, que tem a capacidade de reproduzir em 4k. A tendência é termos cada vez mais materiais em melhor qualidade de definição de vídeo e aúdio, mas o consumo seguirá por on demand.

Hoje, a bola da vez é o Netflix e YouTube, vamos ver se num futuro distante eles continuarão relevantes. Por mais que a teoria diga que uma tecnologia não anula a outra, o blu-ray, logo mais, vai virar item de colecionador dos fãs. Deve ser foda para os engenheiros (as) crânios bolarem mídias cada vez mais fodas e com uma qualidade incrível para não ter força num mercado que vivemos, né?

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O jornalista paulistano, produtor musical e marketeiro Brunno Constante analisa, pondera, escreve e traz novidades sobre música no Papelpop todas as terças-feiras.

Fita Cassete é o alterego de Brunno quando ele fala sobre o assunto.

Quer falar com ele? Twitter: @brunno.


* A opinião do colunista Brunno Constante não necessariamente representa a opinião do Papelpop. No entanto, por aqui, todas as opiniões são bem-vindas. :)

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